«...de leite é suave e cremoso. O negro, mais intenso e com um provocador travo amargo. Simples, com amêndoas, arroz crocante, avelãs... o chocolate é para muitos a imagem da tentação».
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23/09/2010
16/09/2010
~ I love the way you lie
"Maybe our relationship isn't as crazy as it seems, maybe that's what happens when a tornado meets a volcano".10/09/2010
~ Mr. Big is (welcome) back
"É estranho mas eu apanho que algo em mim te dá tesão e é tão difícil aceitar essa sensação. (...) Passam-te pela cabeça as ideias mais tontas, deixa as aventuras para a pocahontas. (...) e agora só te apetece dar um grito, um breve momento passa a ser infinito. Vai com calma, não quero que tenhas nenhum enfarte, relaxa e aprecia este pedaço de arte".Tenho de me impor. Não pode ser só quando calha, não pode acontecer sempre que tu quiseres e, sinceramente, não podes esperar que eu culpe o álcool.
Porque é que não nos deixamos disto uma vez por todas? Desta vez a sério. Por tantas vezes já ter posto um ponto final na nossa história, por tantas ocasiões já ter jurado ser a última vez que te provava, por em tantas cartas já te ter dado como morto e enterrado bem até ao tutano, sinto-me a perder credibilidade. Está-nos a custar mais do que o que devia, não está?
Mas eu tenho de me impor. Não podemos desligar assim das pessoas à mesa enquanto a nossa concentração se junta à diversão debaixo dela. Não nos podemos fazer de atentos aquando as nossas pernas decidem brincar juntas e as nossas mãos se tornam curiosas mesmo debaixo do nariz de toda a gente. Nós sempre gostamos de apimentar, sempre nos deu um certo gozo criar o nosso mundo à frente dos outros, sempre alheios a tudo. Mesmo quando estamos cada um por sua conta em jogos de cartas, os teus olhos entendem-se em longas e perversas conversas com os meus.
Só que eu tenho de me impor. Não me podes mandar mensagens à descarada enquanto fingimos conviver num grupo em que é suposto não nos conhecermos mais do que o estritamente necessário. O que acontece é que nos conhecemos demasiado bem, tu e eu somos íntimos e escondemos isso do mundo. Somos íntimos quando despachas toda a gente com desculpas mais ou menos fatelas só para não sermos apanhados a esquivar-nos juntos para wc’s cujos símbolos na porta nem tempo temos para identificar.
Somos demasiado íntimos ao ponto de nem sequer nos tentarmos iludir, cair na asneira de dizer aquilo que não sentimos só para embelezar, polir a imagem e tentar obter mais pelo caminho mais fácil e isso, meu querido, ainda mais próximos nos torna. O facto de já teres feito parte de mim, de seres o meu eterno endless summer, permite-me ficar mais solta e desfrutar um pouco mais de ti, assim como tu te sentes mais à vontade e aproveitas tudo o quanto tão bem nós sabemos partilhar entre nós.
A questão é que somos muito carnais aos olhos do mundo e habituamo-nos mais à física do que à parte teórica da matéria de que somos compostos e isso faz-nos parecer o pecado em jeito de pessoas.
É isso e todos estes avanços e recuos. Eu não posso deixar que continues a fazer isto, não podes aparecer de repente para, no dia seguinte, seres uma mera recordação. Por mais cúmplices que sejamos, pela confiança que me faz poder dizer-te olhos nos olhos, boca a boca, que nem sequer gostamos o suficiente um do outro, vejo-me obrigada a fazer-te um ultimato: ou estás dentro ou estás fora. Nós pertencemos ao limiar mas no meio da estrada não há quem sobreviva e, como tu e eu não funcionamos em sintonia quando estamos dentro, eu vou ter que educar os meus mais fortes impulsos e mentalizar-me seriamente a resistir. A resistir às tuas sábias, exploradoras e grandes mãos, aos teus agressivos e simultaneamente doces lábios, aos teus olhos inebriados pelo prazer que se rasgam de uma maneira absolutamente arrebatadora quando sorris, ao som da tua radiofónica voz, sempre firme e com a dicção perfeita e até tenho que resistir à poderosa cicatriz detentora do ar que não consigo inspirar quando me lembra de que tu e eu pertencíamos ao tempo em que ainda possuías apêndice. Estou a divagar, perdoa-me.
Eu tenho é de conseguir resistir-te a ti, ao charme que ainda consegues emanar quando já estamos todos ‘pardais’ de ‘roda no ar’ e eu só penso em como "amanhã ainda me vou arrepender disto". Resistir-te a ti e a essa tua cara de sexo que me atrasa os reflexos. É verdade, Z., não me peças para te explicar mas tu tens cara de sexo, especialmente quando a expressão se justifica, que é quando os teus olhos se semicerram e procuram saciar-se em mim.
Contudo, este discurso não é de alguém finca-pé mas o que eu tenho de ser neste momento é algo semelhante a autoritária. Tenho de me impor e nunca é demais repeti-lo, nem que seja no papel, pois assim também me vou convencendo do mesmo.
Caso não consiga debater-me com toda a loucura que me provocas – a mesma capaz de realizar todas as tuas fantasias mais atrevidas, já agora – serei forçada a dar-te as boas-vindas, meu Mr. Big, e a concordar contigo quando contestas as minhas observações respondendo-me olhos nos olhos, boca a boca, que eu e tu "somos aquela cena".
Porque é que não nos deixamos disto uma vez por todas? Desta vez a sério. Por tantas vezes já ter posto um ponto final na nossa história, por tantas ocasiões já ter jurado ser a última vez que te provava, por em tantas cartas já te ter dado como morto e enterrado bem até ao tutano, sinto-me a perder credibilidade. Está-nos a custar mais do que o que devia, não está?
Mas eu tenho de me impor. Não podemos desligar assim das pessoas à mesa enquanto a nossa concentração se junta à diversão debaixo dela. Não nos podemos fazer de atentos aquando as nossas pernas decidem brincar juntas e as nossas mãos se tornam curiosas mesmo debaixo do nariz de toda a gente. Nós sempre gostamos de apimentar, sempre nos deu um certo gozo criar o nosso mundo à frente dos outros, sempre alheios a tudo. Mesmo quando estamos cada um por sua conta em jogos de cartas, os teus olhos entendem-se em longas e perversas conversas com os meus.
Só que eu tenho de me impor. Não me podes mandar mensagens à descarada enquanto fingimos conviver num grupo em que é suposto não nos conhecermos mais do que o estritamente necessário. O que acontece é que nos conhecemos demasiado bem, tu e eu somos íntimos e escondemos isso do mundo. Somos íntimos quando despachas toda a gente com desculpas mais ou menos fatelas só para não sermos apanhados a esquivar-nos juntos para wc’s cujos símbolos na porta nem tempo temos para identificar.
Somos demasiado íntimos ao ponto de nem sequer nos tentarmos iludir, cair na asneira de dizer aquilo que não sentimos só para embelezar, polir a imagem e tentar obter mais pelo caminho mais fácil e isso, meu querido, ainda mais próximos nos torna. O facto de já teres feito parte de mim, de seres o meu eterno endless summer, permite-me ficar mais solta e desfrutar um pouco mais de ti, assim como tu te sentes mais à vontade e aproveitas tudo o quanto tão bem nós sabemos partilhar entre nós.
A questão é que somos muito carnais aos olhos do mundo e habituamo-nos mais à física do que à parte teórica da matéria de que somos compostos e isso faz-nos parecer o pecado em jeito de pessoas.
É isso e todos estes avanços e recuos. Eu não posso deixar que continues a fazer isto, não podes aparecer de repente para, no dia seguinte, seres uma mera recordação. Por mais cúmplices que sejamos, pela confiança que me faz poder dizer-te olhos nos olhos, boca a boca, que nem sequer gostamos o suficiente um do outro, vejo-me obrigada a fazer-te um ultimato: ou estás dentro ou estás fora. Nós pertencemos ao limiar mas no meio da estrada não há quem sobreviva e, como tu e eu não funcionamos em sintonia quando estamos dentro, eu vou ter que educar os meus mais fortes impulsos e mentalizar-me seriamente a resistir. A resistir às tuas sábias, exploradoras e grandes mãos, aos teus agressivos e simultaneamente doces lábios, aos teus olhos inebriados pelo prazer que se rasgam de uma maneira absolutamente arrebatadora quando sorris, ao som da tua radiofónica voz, sempre firme e com a dicção perfeita e até tenho que resistir à poderosa cicatriz detentora do ar que não consigo inspirar quando me lembra de que tu e eu pertencíamos ao tempo em que ainda possuías apêndice. Estou a divagar, perdoa-me.
Eu tenho é de conseguir resistir-te a ti, ao charme que ainda consegues emanar quando já estamos todos ‘pardais’ de ‘roda no ar’ e eu só penso em como "amanhã ainda me vou arrepender disto". Resistir-te a ti e a essa tua cara de sexo que me atrasa os reflexos. É verdade, Z., não me peças para te explicar mas tu tens cara de sexo, especialmente quando a expressão se justifica, que é quando os teus olhos se semicerram e procuram saciar-se em mim.
Contudo, este discurso não é de alguém finca-pé mas o que eu tenho de ser neste momento é algo semelhante a autoritária. Tenho de me impor e nunca é demais repeti-lo, nem que seja no papel, pois assim também me vou convencendo do mesmo.
Caso não consiga debater-me com toda a loucura que me provocas – a mesma capaz de realizar todas as tuas fantasias mais atrevidas, já agora – serei forçada a dar-te as boas-vindas, meu Mr. Big, e a concordar contigo quando contestas as minhas observações respondendo-me olhos nos olhos, boca a boca, que eu e tu "somos aquela cena".
[03.20am]
04/09/2010
~ plano Z
Eu planeava chegar até aqui contigo ao meu lado. Esperava que ainda resultasse enquanto estes dois longos anos passassem mas, como era muito mais impossível do que só improvável, eu tinha um plano Z.
É ao que nos sujeitamos quando julgamos não haver espaço suficiente na nossa camioneta para transportar tanta areia, quando damos por nós a desejar possuir mãos de gigante para agarrar o inesperado pássaro que decidiu ficar, quando prevemos que não conseguiremos tomar conta do recado durante muito tempo. Quando isso acontece, tendemos a recorrer a alternativas, idealizamos um futuro que desejamos que aconteça já amanhã e cruzamos os dedos na esperança de que, nesse mesmo amanhã, a nossa vida coincida uma vez mais com a rota do nosso passarinho favorito do qual mais cedo ou mais tarde nos vemos forçados a abrir mão, a arranjar maneira para que o peso da areia seja carregado com a maior das seguranças. Como tal, eu tinha um plano Z, o suposto único e último plano infalível.
Da mesma maneira que durante as grandes guerras as pessoas iam colocando algumas provisões de lado, eu tentei sempre manter a cabeça sã e os pés no chão, sobretudo quando me embriagavas os sentidos e me guiavas até ao céu. Por isso pus-te uma anilha – não de identificação porque tu és inconfundível –, apenas para ter a certeza palpável de uma rara realidade: a de que, tal como um boomerang, tu acabarias por regressar.
O meu plano Z consistia em crescer o mais depressa possível, fazer-te saber quando atingisse a maioridade, entrar no teu mundo e destacar a minha presença nele caso não mais te mostrasses interessado, tirar a carta e passear-me pelos teus lugares com o meu carro e, então, mostrar-te que não necessitaria de o modificar para que a areia que para mim sempre havias representado não transbordasse e se alastrasse pelo pavimento fora. Eu sonhava alcançar o ponto em que estivesse à tua altura, no fundo só queria tempo para me mentalizar, para preparar a minha vida para a tua ilustre chegada, para te oferecer este mundo e o outro porque, na minha perspectiva, tu eras o golden ticket de uma pobre sortuda que receava não conseguir aproveitá-lo da melhor forma. Para mim, tu merecias sempre mais.
Penso que o meu jeito para representação aliado à incrível arte do disfarce tenham sido as razões pelas quais nos mantivemos juntos durante mais do que uma estação. Foi assim que te afastei dos meus medos e de todas as minhas inseguranças. Tu eras o meu ponto fraco, o meu calcanhar-de-aquiles e, ao mesmo tempo, o meu bem mais precioso. Eu nunca te dei como garantido, Z., mesmo quando me esforçava a não tentar mais do que tu, a não ir ao teu encontro mais vezes do que as que realmente me apeteciam, a não retribuir sempre nas palavras carinhosas. Eu nunca te quis mostrar o verdadeiro grande valor que desde sempre te dei, receando que toda esta admiração que sempre nutri por ti te assustasse e conduzisse a uma overreaction que te levasse a subestimares-me.
É ao que nos sujeitamos quando julgamos não haver espaço suficiente na nossa camioneta para transportar tanta areia, quando damos por nós a desejar possuir mãos de gigante para agarrar o inesperado pássaro que decidiu ficar, quando prevemos que não conseguiremos tomar conta do recado durante muito tempo. Quando isso acontece, tendemos a recorrer a alternativas, idealizamos um futuro que desejamos que aconteça já amanhã e cruzamos os dedos na esperança de que, nesse mesmo amanhã, a nossa vida coincida uma vez mais com a rota do nosso passarinho favorito do qual mais cedo ou mais tarde nos vemos forçados a abrir mão, a arranjar maneira para que o peso da areia seja carregado com a maior das seguranças. Como tal, eu tinha um plano Z, o suposto único e último plano infalível.
Da mesma maneira que durante as grandes guerras as pessoas iam colocando algumas provisões de lado, eu tentei sempre manter a cabeça sã e os pés no chão, sobretudo quando me embriagavas os sentidos e me guiavas até ao céu. Por isso pus-te uma anilha – não de identificação porque tu és inconfundível –, apenas para ter a certeza palpável de uma rara realidade: a de que, tal como um boomerang, tu acabarias por regressar.
O meu plano Z consistia em crescer o mais depressa possível, fazer-te saber quando atingisse a maioridade, entrar no teu mundo e destacar a minha presença nele caso não mais te mostrasses interessado, tirar a carta e passear-me pelos teus lugares com o meu carro e, então, mostrar-te que não necessitaria de o modificar para que a areia que para mim sempre havias representado não transbordasse e se alastrasse pelo pavimento fora. Eu sonhava alcançar o ponto em que estivesse à tua altura, no fundo só queria tempo para me mentalizar, para preparar a minha vida para a tua ilustre chegada, para te oferecer este mundo e o outro porque, na minha perspectiva, tu eras o golden ticket de uma pobre sortuda que receava não conseguir aproveitá-lo da melhor forma. Para mim, tu merecias sempre mais.
Penso que o meu jeito para representação aliado à incrível arte do disfarce tenham sido as razões pelas quais nos mantivemos juntos durante mais do que uma estação. Foi assim que te afastei dos meus medos e de todas as minhas inseguranças. Tu eras o meu ponto fraco, o meu calcanhar-de-aquiles e, ao mesmo tempo, o meu bem mais precioso. Eu nunca te dei como garantido, Z., mesmo quando me esforçava a não tentar mais do que tu, a não ir ao teu encontro mais vezes do que as que realmente me apeteciam, a não retribuir sempre nas palavras carinhosas. Eu nunca te quis mostrar o verdadeiro grande valor que desde sempre te dei, receando que toda esta admiração que sempre nutri por ti te assustasse e conduzisse a uma overreaction que te levasse a subestimares-me.
Parece loucura, não parece? Mas eu vou partilhar um pequeno segredo contigo: nós, as mulheres gostamos de sentir que conseguimos controlar, mesmo que lá no fundo saibamos que não é bem assim. Gostamos de ter a certeza de que sobressaímos na fotografia, que vocês nos têm respeito e nos reconhecem poder, especialmente depois de nos desafiarem. Mesmo que lá no fundo saibamos perfeitamente que são vocês quem domina. E é por isso que na maior parte das vezes vocês, homens, nos têm de deixar ficar por cima e convencer-nos de que a nossa batalha ganha não passou despercebida, ainda que no final sejamos não mais do que os soldados da última frente da vossa guerra, meros peões das vossas jogadas bem sucedidas.
Agora que completei os dezoito e vou a caminho dos dezanove anos, quase a apanhar-te, tenho prioridades mais ambiciosas e menos frustrantes do que esfregar-te na cara aquilo que também eu posso atingir, independentemente do que isso possa significar, seja um carro, seja experiência de vida, amadurecimento, auto-reconhecimento ou apenas uma mísera sweat de uma qualquer faculdade como prova de que fui adquirida no ‘teu mundo’.
Tu foste a minha inspiração, significavas o fim de todos os meus meios, a Roma por onde todos os meus caminhos tinham obrigatoriamente que ir dar. Agora, que te estou “quase a apanhar”, não quero que me recebas, não da maneira que outrora tanto desejei. Tens de admitir que estas retrospectivas têm o seu je ne sais quoi de ironia, ãh? Mas deixemos lá isso, lá no passado que é aonde nós pertencemos juntos. Aliás, a vida é uma constante em movimento que nunca espera por nada nem ninguém, nem mesmo por nós. Tu terás sempre a vida de universitário mais avançada do que a minha, que ainda está por viver, e isso, por enquanto, implica um certo estatuto social distinto e um ano a separar-nos (mesmo que, na realidade, façamos apenas oito meses e escassos grãos de areia de diferença um do outro). Portanto, eu nunca te “apanharei”, não é verdade, passarinho? Podes refutar-me a razão, a verdade é que eu nunca fui perfeita mas sempre tentei perceber o que ia na tua cabeça. Neste argumento não me importo que fiques por cima, que domines.
Tu foste a minha inspiração, significavas o fim de todos os meus meios, a Roma por onde todos os meus caminhos tinham obrigatoriamente que ir dar. Agora, que te estou “quase a apanhar”, não quero que me recebas, não da maneira que outrora tanto desejei. Tens de admitir que estas retrospectivas têm o seu je ne sais quoi de ironia, ãh? Mas deixemos lá isso, lá no passado que é aonde nós pertencemos juntos. Aliás, a vida é uma constante em movimento que nunca espera por nada nem ninguém, nem mesmo por nós. Tu terás sempre a vida de universitário mais avançada do que a minha, que ainda está por viver, e isso, por enquanto, implica um certo estatuto social distinto e um ano a separar-nos (mesmo que, na realidade, façamos apenas oito meses e escassos grãos de areia de diferença um do outro). Portanto, eu nunca te “apanharei”, não é verdade, passarinho? Podes refutar-me a razão, a verdade é que eu nunca fui perfeita mas sempre tentei perceber o que ia na tua cabeça. Neste argumento não me importo que fiques por cima, que domines.
[12.56am]
26/07/2010
~ voltar a ti
Ontem sonhei contigo. Não é que tenha sido significativo mas deve ter sido importante o suficiente para que eu me lembre e para que me faça despir-te dos vocábulos e imortalizá-los nos meus escritos, que é como quem diz, escrever-te. Impressionante, ainda hoje te faço este favor, o de simplificar.
Ter estado no teu território tão próxima das tuas rotinas, dos teus lugares, fez-me, de certa maneira, voltar a ti. Não mexeu comigo, não fiquei nervosa. Antes pelo contrário, uma incrível calma se apoderou de mim e senti paz, paz de espírito por estar... de regresso. Apenas dei comigo a pensar quanta é a pena que tenho por não te mexeres, vida sedentária e despregada do passado, mas entendo-te.
Já jogámos isto muitas vezes, durante demasiado tempo. Agora optaste por abandonar a nossa velha estratégia com o fim de adoptar o zugzwang, é assim que lhe chamam no xadrez, que é quando o único movimento disponível é não nos movermos de todo.
Ter estado no teu território tão próxima das tuas rotinas, dos teus lugares, fez-me, de certa maneira, voltar a ti. Não mexeu comigo, não fiquei nervosa. Antes pelo contrário, uma incrível calma se apoderou de mim e senti paz, paz de espírito por estar... de regresso. Apenas dei comigo a pensar quanta é a pena que tenho por não te mexeres, vida sedentária e despregada do passado, mas entendo-te.
Já jogámos isto muitas vezes, durante demasiado tempo. Agora optaste por abandonar a nossa velha estratégia com o fim de adoptar o zugzwang, é assim que lhe chamam no xadrez, que é quando o único movimento disponível é não nos movermos de todo.
Engraçado este paradoxo, não é? Nós já estamos habituados, a nossa história é toda ela feita de contra-sensos e oximoros e é por isso que permanecemos assim, imóveis, cada um encalhado na sua casa, neste eterno impasse que se vai formando na triste esperança disfarçada e subnutrida, na espera abstracta de que o outro avance rumo à derrota, deitando as jogadas todas a perder.
E perder é algo que nunca acontece connosco, não é verdade meu, querido?
E perder é algo que nunca acontece connosco, não é verdade meu, querido?
[05.33pm]
26/06/2010
~ dear John
E cá estamos nós outra vez, no lugar donde nunca chegámos a sair. Como é possível ainda não te teres fartado? Eu já dei início às mudanças, não vou mais contribuir para este lugar-comum. Levo comigo a parte sentimental, deixo-te com o resto que, confesso, nunca soube muito bem o que com ele fazer.
Isto porque estar constantemente a viver esta situação cansa(-me) e tu próprio já enjoaste por ser sempre arroz, só que ainda não te apercebeste, ainda não reparaste que a batata é capaz de ser um melhor acompanhamento. Confia em mim, é um favor que aqui te faço, um dia ainda me agradeces, acredita. Mas... tentar? Mais ainda? I’m done with trying.
Ontem, numa perspectiva mais pessimista, soube-te uma vez mais ao mesmo, não precisas de justificar, eu percebo-te, so I’m let you free.
Letter number 14,
Dear John, para mim morreste.
Isto porque estar constantemente a viver esta situação cansa(-me) e tu próprio já enjoaste por ser sempre arroz, só que ainda não te apercebeste, ainda não reparaste que a batata é capaz de ser um melhor acompanhamento. Confia em mim, é um favor que aqui te faço, um dia ainda me agradeces, acredita. Mas... tentar? Mais ainda? I’m done with trying.
Ontem, numa perspectiva mais pessimista, soube-te uma vez mais ao mesmo, não precisas de justificar, eu percebo-te, so I’m let you free.
Letter number 14,
Dear John, para mim morreste.
[01.38am]
07/09/2009
~ quinze minutos ao lado
Se não for este o processo natural das coisas, como é que me explicas o nosso inesperado reencontro? Exactamente seis meses foi o tempo que passou desde a última vez que te vi até virmos aqui parar, ao mesmo sítio, à mesma hora. À mesma mesa de jantar. Avisaram-me uns quinze minutos antes de entrares em cena, e foi precisamente esse o quarto de hora que levei para digerir a informação, para acalmar a alma e sossegar o coração, para perceber que, afinal, já lá ia algum tempo desde que eu trancara o ressentimento a sete chaves e preservara o pouco que de bom nós tivéramos. Foi então que, como quase sempre acontecia contigo, vinda de não sei donde, tu apareceste. E caíste de pára-quedas, por ironia do destino ou por uma mera coincidência trocista, mesmo que eu não acredite em coincidências, na cadeira vaga ao meu lado. Vi-me forçada a alugar uma nova morada para a minha mala e para o meu casaco para que te instalasses, passados um ano e uma semana de te ter conhecido, a uns escassos centímetros de mim.
Foi assim, sem dó nem piedade que te atravessaram uma vez mais no meu caminho sem me pedirem licença ou sequer me perguntarem se eu me importava. Foram as regras básicas da boa educação que me levaram a cumprimentar-te, logo de seguida ao misto de incredulidade e de outra expressão qualquer que não consegui sacar do teu rosto, a par daquilo a que se assemelha o respeito, um dos poucos sentimentos que, durante aqueles angustiantes quinze minutos após te terem anunciado, eu percebi que sempre nutriria por ti. Foi então que me colocaste a mesma pergunta que me fizeste da primeira vez que te ouvi falar. Agora que me foste apresentado pela segunda vez, sei que a tua primeiríssima introdução quando conheces alguém se baseia num “olá, tudo bem?” e desta vez atiraste-a do alto da tua lucidez; da tua sobriedade.
Fiquei embaraçada ao reconhecer o seu tom, já me tinha esquecido do quão bem colocado é o som da tua voz e de como o teu sotaque anasalado faz soar as palavras que dizes, dando-te um certo charme ou algo parecido com isso, ainda não encontrei o termo correcto. O ambiente ficou constrangedor e confesso que, se não te tivessem mudado de lugar tão rapidamente, não sei do que teria sido acompanhado o meu jantar, se de batatas e desconforto ou se de batatas e conversas de ocasião o que, afinal de contas, não diferenciam muito uma hipótese da outra.
Quando, por força das circunstancias, te viste obrigada a mover-te dois lugares de distância de mim numa espécie de diagonal mal feita, fui automaticamente inundada por um alívio instantâneo, porém por um ligeiro sentimento de pena ou algo do género por saber que não iria conseguir iniciar mais qualquer tipo de diálogo contigo durante o resto da noite. Responder-te-ia de bom grado, não me leves a mal, mas o meu problema de comunicação verbal não me deixaria ir muito mais além disso. E de olhares mal disfarçados pelo canto do olho.
Continuavas elegante, com o mesmo porte que tinhas da última vez. Estavas um pouco mais morena, tal como eu e, apesar de envergares um blazer daqueles todos pipis com botões de punho, não me pareceste tão bonita como quando te deixei num daqueles que foram dos dias mais estranhos que já vivi, a uns metros depois da tua porta. Estavas toda catita, no teu habitat natural com os da tua espécie. Só eu continuava deslocada, os jantares entediantes insistem em requerer a minha presença só para eu manter a postura enquanto a vida me renega, apontando-me o dedo e rindo-se de mim e à minha custa.
A anedota continuou, as conversas cruzadas faziam-se ouvir e as passagens obrigatórias para as habituais idas à casa-de-banho ou para a escapadela rápida até ao hall de entrada para o indispensável cigarrinho no final da refeição, faziam-me desviar um bocado da minha atenção para ti e, julgo, os teus olhos – os tais cor de azeitona – na direcção dos meus cor de amêndoa, de quando em vez.
Não achas irónica a maneira como sempre acabamos por nos encontrar? Eu cá cheguei a achar um eufemismo estar sentada contigo ao lado, qual o casal tímido que nunca chegamos a ser, com um pequeno prato de croquetes, imagine-se, espetado à frente dos nossos narizes. O que vale é que eu não lhes acho graça nem tu te lembraste de lhes pegar. Pois tenho a dizer-te, minha querida, que continuas a fazer jus à fama que manténs, que possuis o mesmo carisma e a mesma maneira de falar por olhares, mesmo quando te desvias no derradeiro instante da recolhida, não sei se para guardares a minha imagem com pressa de que a antiga se resuma a uma memória poeirenta, se para analisares os meus traços uma última vez porque sabes que eu não tenho a lata de te convidar para um café se da última vez te mandei foder e porque sabes não te vir a apetecer, tão brevemente, ter dois dedos de conversa e manter o contacto comigo, não sabendo assim, como sempre acontecia connosco, se haverá próxima vez em que colocar-me-ás essa vista ‘azeitonada’ em cima.
Tentei despedir-me de ti adequadamente, com dois beijinhos um pouco mais ao lado do sítio que há muito deixara de ter o direito de beijar mas, mais uma vez, a vida e as situações que esta implica quiseram manter-nos naquele perímetro de distância segura com o qual fomos ficando cada vez mais familiarizadas fazendo com que, tão fugazmente como me apareceste à frente, ou ao lado, não tivéssemos oportunidade para nos despedirmosem condições. Por isso limitei-me a lançar-te um ‘tchau’ ao jeito de calão como se de um boomerang se tratasse que tu imediatamente fizeste questão de me retribuir, tu e os outros que não entenderam que as minhas despedidas são todas feitas no singular, ainda que não deixem de fazer sentido para múltiplas pessoas.
E foi desta maneira que a vida, ou o destino, ou o karma, por silenciosamente te ter invocado tantas vezes no passado, ou outra coisa qualquer, me veio abalar um bocadinho mais, mexer nas pontas dos laços mal atados que inevitavelmente vou acumulando ao longo dos anos para me lembrar que “estabilidade” e “tranquilidade” são palavras temporárias que nunca se dão por garantidas na minha vida, que não passam de palavras de ordem cujo significado não pode, por mim, ser proferido muitas vezes, como se o seu conteúdo perdesse validade a cada vez que eu as pronunciasse.
E foi este o modo que a vida, o destino, o karma ou outra qualquer coisa que vai alterando o meu percurso e modificando as minhas ligações com as pessoas arranjou para nos lembrar de que o xadrez é, essencialmente, um jogo de estratégia que se pode utilizar mais do que uma vez e que, embora seja improvável, é possível fazer-se xeque-mate duas vezes ainda que seja imprescindível conjugar-se uma série de condições que, tanto eu como tu não nos querermos dar ao trabalho de reunir.
Foi esta a forma com que a vida, o destino, o karma ou essa outra coisa qualquer nos fez estar, novamente, lado a lado, foi essa a maneira que encontrou para me recordar que tu, sedutora como sempre, nunca passaste da minha foda de quinze minutos, curiosamente o tempo que eu aguardei para te conhecer uma segunda vez.
E não sei se és tu que o és, se a vida, o karma ou se a tal outra possível razão desconhecida que o é mas, se um destes motivos não fosse previsível, eu não apostaria um movimento tão arriscado no nosso jogo de tabuleiro ao afirmar que tu estás, com certeza, aqui, a ler os meus devaneios auto-biográficos. - Há muito mais do que quinze minutos, diria eu.
Foi assim, sem dó nem piedade que te atravessaram uma vez mais no meu caminho sem me pedirem licença ou sequer me perguntarem se eu me importava. Foram as regras básicas da boa educação que me levaram a cumprimentar-te, logo de seguida ao misto de incredulidade e de outra expressão qualquer que não consegui sacar do teu rosto, a par daquilo a que se assemelha o respeito, um dos poucos sentimentos que, durante aqueles angustiantes quinze minutos após te terem anunciado, eu percebi que sempre nutriria por ti. Foi então que me colocaste a mesma pergunta que me fizeste da primeira vez que te ouvi falar. Agora que me foste apresentado pela segunda vez, sei que a tua primeiríssima introdução quando conheces alguém se baseia num “olá, tudo bem?” e desta vez atiraste-a do alto da tua lucidez; da tua sobriedade.
Fiquei embaraçada ao reconhecer o seu tom, já me tinha esquecido do quão bem colocado é o som da tua voz e de como o teu sotaque anasalado faz soar as palavras que dizes, dando-te um certo charme ou algo parecido com isso, ainda não encontrei o termo correcto. O ambiente ficou constrangedor e confesso que, se não te tivessem mudado de lugar tão rapidamente, não sei do que teria sido acompanhado o meu jantar, se de batatas e desconforto ou se de batatas e conversas de ocasião o que, afinal de contas, não diferenciam muito uma hipótese da outra.
Quando, por força das circunstancias, te viste obrigada a mover-te dois lugares de distância de mim numa espécie de diagonal mal feita, fui automaticamente inundada por um alívio instantâneo, porém por um ligeiro sentimento de pena ou algo do género por saber que não iria conseguir iniciar mais qualquer tipo de diálogo contigo durante o resto da noite. Responder-te-ia de bom grado, não me leves a mal, mas o meu problema de comunicação verbal não me deixaria ir muito mais além disso. E de olhares mal disfarçados pelo canto do olho.
Continuavas elegante, com o mesmo porte que tinhas da última vez. Estavas um pouco mais morena, tal como eu e, apesar de envergares um blazer daqueles todos pipis com botões de punho, não me pareceste tão bonita como quando te deixei num daqueles que foram dos dias mais estranhos que já vivi, a uns metros depois da tua porta. Estavas toda catita, no teu habitat natural com os da tua espécie. Só eu continuava deslocada, os jantares entediantes insistem em requerer a minha presença só para eu manter a postura enquanto a vida me renega, apontando-me o dedo e rindo-se de mim e à minha custa.
A anedota continuou, as conversas cruzadas faziam-se ouvir e as passagens obrigatórias para as habituais idas à casa-de-banho ou para a escapadela rápida até ao hall de entrada para o indispensável cigarrinho no final da refeição, faziam-me desviar um bocado da minha atenção para ti e, julgo, os teus olhos – os tais cor de azeitona – na direcção dos meus cor de amêndoa, de quando em vez.
Não achas irónica a maneira como sempre acabamos por nos encontrar? Eu cá cheguei a achar um eufemismo estar sentada contigo ao lado, qual o casal tímido que nunca chegamos a ser, com um pequeno prato de croquetes, imagine-se, espetado à frente dos nossos narizes. O que vale é que eu não lhes acho graça nem tu te lembraste de lhes pegar. Pois tenho a dizer-te, minha querida, que continuas a fazer jus à fama que manténs, que possuis o mesmo carisma e a mesma maneira de falar por olhares, mesmo quando te desvias no derradeiro instante da recolhida, não sei se para guardares a minha imagem com pressa de que a antiga se resuma a uma memória poeirenta, se para analisares os meus traços uma última vez porque sabes que eu não tenho a lata de te convidar para um café se da última vez te mandei foder e porque sabes não te vir a apetecer, tão brevemente, ter dois dedos de conversa e manter o contacto comigo, não sabendo assim, como sempre acontecia connosco, se haverá próxima vez em que colocar-me-ás essa vista ‘azeitonada’ em cima.
Tentei despedir-me de ti adequadamente, com dois beijinhos um pouco mais ao lado do sítio que há muito deixara de ter o direito de beijar mas, mais uma vez, a vida e as situações que esta implica quiseram manter-nos naquele perímetro de distância segura com o qual fomos ficando cada vez mais familiarizadas fazendo com que, tão fugazmente como me apareceste à frente, ou ao lado, não tivéssemos oportunidade para nos despedirmos
E foi desta maneira que a vida, ou o destino, ou o karma, por silenciosamente te ter invocado tantas vezes no passado, ou outra coisa qualquer, me veio abalar um bocadinho mais, mexer nas pontas dos laços mal atados que inevitavelmente vou acumulando ao longo dos anos para me lembrar que “estabilidade” e “tranquilidade” são palavras temporárias que nunca se dão por garantidas na minha vida, que não passam de palavras de ordem cujo significado não pode, por mim, ser proferido muitas vezes, como se o seu conteúdo perdesse validade a cada vez que eu as pronunciasse.
E foi este o modo que a vida, o destino, o karma ou outra qualquer coisa que vai alterando o meu percurso e modificando as minhas ligações com as pessoas arranjou para nos lembrar de que o xadrez é, essencialmente, um jogo de estratégia que se pode utilizar mais do que uma vez e que, embora seja improvável, é possível fazer-se xeque-mate duas vezes ainda que seja imprescindível conjugar-se uma série de condições que, tanto eu como tu não nos querermos dar ao trabalho de reunir.
Foi esta a forma com que a vida, o destino, o karma ou essa outra coisa qualquer nos fez estar, novamente, lado a lado, foi essa a maneira que encontrou para me recordar que tu, sedutora como sempre, nunca passaste da minha foda de quinze minutos, curiosamente o tempo que eu aguardei para te conhecer uma segunda vez.
* * *
E não sei se és tu que o és, se a vida, o karma ou se a tal outra possível razão desconhecida que o é mas, se um destes motivos não fosse previsível, eu não apostaria um movimento tão arriscado no nosso jogo de tabuleiro ao afirmar que tu estás, com certeza, aqui, a ler os meus devaneios auto-biográficos. - Há muito mais do que quinze minutos, diria eu.
[02.56am]
30/07/2009
~ artes (s)em partes
Hoje vejo-te. Não há outra maneira de to dizer directamente, agrafando-te assim as palavras aos olhos.
Hoje vejo-te com o olhar vago fixo nas frases doridas que te tatuo na pele, corroendo-te a epiderme até às entranhas, através dos óculos que talvez quiseste de propósito esquecer em cima da secretária, colado no ecrã do computador.
Hoje vejo-te com uma expressão de confusão e resignação estampada no rosto, como as frases feitas da piada do momento que está na moda mandar estampar numa t-shirt da loja personalizada. É claro que aquilo que daqui por muitos anos serão rugas, que se forma acima da cana do teu nariz, mesmo no meio do ponto de encontro das tuas sobrancelhas, também te denuncia. Exacto, vês? É dessa mesma expressão estupefacta que se te desenha agora de que falo; é essa mesma maldita que me condecora, neste preciso instante, dona da razão.
Hoje vejo-te os músculos relaxados, o peso do teu descontraído corpo incrivelmente bem distribuído pela cadeira de escritório que, porém, mora no teu quarto. Estás com uma mão pousada em cima do mouse e a outra a suportar o queixo semi-caído que te completa as feições. Ou então deixas que essa mesma mão tacteie a superfície da secretária, uma expedição em busca do copo de coca-cola perdido. O teu ar é de incredulidade e tens “caos” caligrafado na testa. Bastante impressionante a forma como se consegue descrever à distância, hum? Como eu te consigo descrever à distância. Mas foi assim que me ensinaste, meu querido, durante o tempo todo nunca me deixaste aprender(-te) de outra forma. Como vês vim apanhar-te no sítio de costume, no meu. Afinal de contas ainda me visitas, ainda procuras por mim… Porquê? Vem donde, essa curiosidade em saber da minha vida? Do lado esquerdo não vem de certeza, és destro em tudo, até no suposto lugar certo do coração (e se o tens, estacionaste-o noutro lado).
Seja como for, esforçando-te por descobrir o significado das minhas cartas formais sem o teu nome explícito gatafunhado no espaço em branco do remetente ou não, quer tenhas a tal expressão cosida na cara tão bem quanto os botões que trago pregados no meu macacão bege, quer tenhas um (quase) sorriso bem ao estilo da Gioconda, essa musa inspiradora dos graffiters da Miguel Bombarda, hoje vi-te. E não foi nessa rua de artistas nem protegido com a mítica sweat azul-marinha (do S. João nem me atrevo a falar) ou sequer na madrugada dos meus sonhos ‘(sub)consciencializados’.
Hoje vejo-te e não há maneira de to dizer directamente sem ser assim, agrafando-te as palavras, tingidas pelo meu remorso, aos olhos.
[04.03am]
14/05/2009
~ sweet stockholm syndrome of mine
Surreal. Não era eu naquele dia, sentada numa cama encostada algures a uma daquelas quatro paredes. Era uma terceira pessoa.
Ela nunca tinha feito sexo antes. Não, ela nunca tinha feito amor, isso sim. De facto, nunca o fez. Quando queria muito, conseguia sempre ser assim, desligada de sentimentos, de moralismos ou de princípios e naquela loucura momentânea, com a alma anestesiada, foi apenas corpo. Corpo esse já treinado anteriormente, como se de uma máquina temporizada se tratasse. O problema foi que a máquina se estragou e a avaria percorreu-lhe os sentidos e inquietou-se-lhe até às entranhas, agitando-lhe a mente e abalando-lhe com o coração. Fez curto-circuito, paralisando-lhe os movimentos e permitindo que um turbilhão de sensações a invadisse. Sempre soubera como deixá-los loucos, aos homens das máquinas, completamente desnorteados, mesmo àqueles que se faziam guiar por bússolas que geralmente apontavam para norte.
Não lhe retirou a sua Franklin & Marshall devagar ao mesmo tempo que lhe soprava a barriga e lhe beijava o peito, não lhe mordiscou o lábio inferior, nem as orelhas, nem sequer lhe cravou as unhas na pele morena das costas. Não lhe puxou o cabelo para trás nem tão pouco chegou a percorrer o seu corpo definido de cima a baixo com o cubo de gelo do copo de coca-cola que assistia aos vinte minutos de fama de dois adolescentes precoces – no amor, não no sexo – testemunhando um dos (provavelmente muitos) segredos que aquela divisão aconchegava em si.
Os pensamentos dela estavam distantes, vagueavam por outros espaços que não aquele mas era o seu corpo que, lentamente, se deixava descobrir e difundir-se num outro, deambulando e respirando aquele ambiente que, a pouco e pouco, se ia tornando familiar no balanço de um impulso com tanto de envolvente quanto de perigoso. Quanto a ele… bem, ele não gostava dela, nunca gostara aliás, e ela sabia-o perfeitamente. Era do seu corpo de que ele tinha sede, fazendo dela uma miragem ali mesmo, no seu quarto, em cima da sua colcha, qual oásis no meio do deserto seco escaldado pelo sol abrasador do meio-dia.
Desengane-se quem pensar que eram namorados ou qualquer coisa desse tipo. Estavam longe disso, ainda mais do que já alguma vez haviam estado. Mas, mesmo assim, a máquina continuava a deixar-se comandar por ele, tendo os seus instantes de glória quando ele a afinou sem medo ou pudor. Foi uma espécie de stockholm syndrome, o que a fez ‘avançar passivamente’, como sempre acontecera com ele: teve a sua violação voluntária por parte do raptor com o qual simpatizou e passou um bom bocado que podia ter sido bem melhor se ela se tivesse precavido para a eventualidade, se a probabilidade dessa mesma existência não tivesse sido maior do que a possibilidade, se eles tivessem dado, desde logo, uma ‘continuidade contínua’ – e não esporádica – à história que, sem querer, foram escrevendo juntos. Ela havia de ter gostado de saber quantas outras Marias teria ele trazido para o seu refúgio, com quantas outras Aninhas teria ele partilhado, além do seu vício gasificado, a sua intimidade, e ele havia de não ter percebido a ausência de sentimentos raros nela ou até a permanência de desgostos travestidos enterrados até ao seu mais profundo ser.
«Ao menos foi bom, ainda que estranho», era a reflexão que o seu rosto deixava transparecer. Ao menos poder-se-á repetir, quem sabe, cortando os bloopers e acrescentando cenas à curta-metragem, apesar de não se poder fazer rewind.
Pelo menos ela não se esqueceu da sua referência, não é a sua “imagem de marca” mas antes a marca da sua imagem nele, como que um carimbo numa das poucas folhas que haviam deixado fotocópias em si. A ele, perguntar-lhe-ão sobre a temporária tatuagem de improviso que traz no pescoço. Assim, não se esquecerá tão cedo da secura de deserto que o atacou e que não foi morta pela coca-cola e lembrar-se-á de que os vampiros, além de poderem assumir diversas personagens e de não saírem só à noite, também têm sede e sentem a necessidade de a saciar.
Ele fá-la-á saber que quer, mais uma vez, desta feita a sério, com tudo a que o doce pecado dos mortais dá direito, os dois vestidos de nada entrelaçados nos lençóis, ele com a experiência, ela com os truques. E quando ele a fizer saber, ela fá-lo-á acontecer. E aí, deixarão de ser virgens no simples acto de fazer amor, embora não o sintam na sua plenitude, ainda que a dita ‘pureza’ os tenha abandonado há já muito tempo atrás, numa outra vida com outros nomes, máquinas e outras bebidas magistralmente recatadas nos seus copos de vidro imperiosamente instalados em cima da secretária.
Um dia, farão o remake e realizar-se-á o filme.
* * *
Ela nunca tinha feito sexo antes. Não, ela nunca tinha feito amor, isso sim. De facto, nunca o fez. Quando queria muito, conseguia sempre ser assim, desligada de sentimentos, de moralismos ou de princípios e naquela loucura momentânea, com a alma anestesiada, foi apenas corpo. Corpo esse já treinado anteriormente, como se de uma máquina temporizada se tratasse. O problema foi que a máquina se estragou e a avaria percorreu-lhe os sentidos e inquietou-se-lhe até às entranhas, agitando-lhe a mente e abalando-lhe com o coração. Fez curto-circuito, paralisando-lhe os movimentos e permitindo que um turbilhão de sensações a invadisse. Sempre soubera como deixá-los loucos, aos homens das máquinas, completamente desnorteados, mesmo àqueles que se faziam guiar por bússolas que geralmente apontavam para norte.
Não lhe retirou a sua Franklin & Marshall devagar ao mesmo tempo que lhe soprava a barriga e lhe beijava o peito, não lhe mordiscou o lábio inferior, nem as orelhas, nem sequer lhe cravou as unhas na pele morena das costas. Não lhe puxou o cabelo para trás nem tão pouco chegou a percorrer o seu corpo definido de cima a baixo com o cubo de gelo do copo de coca-cola que assistia aos vinte minutos de fama de dois adolescentes precoces – no amor, não no sexo – testemunhando um dos (provavelmente muitos) segredos que aquela divisão aconchegava em si.
Os pensamentos dela estavam distantes, vagueavam por outros espaços que não aquele mas era o seu corpo que, lentamente, se deixava descobrir e difundir-se num outro, deambulando e respirando aquele ambiente que, a pouco e pouco, se ia tornando familiar no balanço de um impulso com tanto de envolvente quanto de perigoso. Quanto a ele… bem, ele não gostava dela, nunca gostara aliás, e ela sabia-o perfeitamente. Era do seu corpo de que ele tinha sede, fazendo dela uma miragem ali mesmo, no seu quarto, em cima da sua colcha, qual oásis no meio do deserto seco escaldado pelo sol abrasador do meio-dia.
Desengane-se quem pensar que eram namorados ou qualquer coisa desse tipo. Estavam longe disso, ainda mais do que já alguma vez haviam estado. Mas, mesmo assim, a máquina continuava a deixar-se comandar por ele, tendo os seus instantes de glória quando ele a afinou sem medo ou pudor. Foi uma espécie de stockholm syndrome, o que a fez ‘avançar passivamente’, como sempre acontecera com ele: teve a sua violação voluntária por parte do raptor com o qual simpatizou e passou um bom bocado que podia ter sido bem melhor se ela se tivesse precavido para a eventualidade, se a probabilidade dessa mesma existência não tivesse sido maior do que a possibilidade, se eles tivessem dado, desde logo, uma ‘continuidade contínua’ – e não esporádica – à história que, sem querer, foram escrevendo juntos. Ela havia de ter gostado de saber quantas outras Marias teria ele trazido para o seu refúgio, com quantas outras Aninhas teria ele partilhado, além do seu vício gasificado, a sua intimidade, e ele havia de não ter percebido a ausência de sentimentos raros nela ou até a permanência de desgostos travestidos enterrados até ao seu mais profundo ser.
«Ao menos foi bom, ainda que estranho», era a reflexão que o seu rosto deixava transparecer. Ao menos poder-se-á repetir, quem sabe, cortando os bloopers e acrescentando cenas à curta-metragem, apesar de não se poder fazer rewind.
Pelo menos ela não se esqueceu da sua referência, não é a sua “imagem de marca” mas antes a marca da sua imagem nele, como que um carimbo numa das poucas folhas que haviam deixado fotocópias em si. A ele, perguntar-lhe-ão sobre a temporária tatuagem de improviso que traz no pescoço. Assim, não se esquecerá tão cedo da secura de deserto que o atacou e que não foi morta pela coca-cola e lembrar-se-á de que os vampiros, além de poderem assumir diversas personagens e de não saírem só à noite, também têm sede e sentem a necessidade de a saciar.
Ele fá-la-á saber que quer, mais uma vez, desta feita a sério, com tudo a que o doce pecado dos mortais dá direito, os dois vestidos de nada entrelaçados nos lençóis, ele com a experiência, ela com os truques. E quando ele a fizer saber, ela fá-lo-á acontecer. E aí, deixarão de ser virgens no simples acto de fazer amor, embora não o sintam na sua plenitude, ainda que a dita ‘pureza’ os tenha abandonado há já muito tempo atrás, numa outra vida com outros nomes, máquinas e outras bebidas magistralmente recatadas nos seus copos de vidro imperiosamente instalados em cima da secretária.
Um dia, farão o remake e realizar-se-á o filme.
"You're (...) the first thing I'd choose, the last thing I need".
[01.35am]
[01.35am]
06/05/2009
~ timidez de gato
Meu querido, andamos a saltar de situação em situação sem nunca resolvermos aquela que iniciamos, sem sabermos o que falhou e o que deu certo. Ou melhor, tu andas. Pelo menos foi o que o sete de espadas, triunfante, te ditou. Não sei exactamente qual é a tua razão agora ou se tens alguma sequer. Não sei ou não quero saber, simplesmente nada que não esteja ao meu alcance em relação a ti me interessa.
Contudo, continuo a achar amorosa a maneira como te ris; como deixas que o teu corpo se incline ligeiramente para trás ao mesmo tempo que, como que deliberadamente, encolhes os ombros e levas a mão à boca num gesto tímido que não combina com a pessoa desinibida que és. Porém não destoa quando o teu sorriso – tão bem escondido quanto um gato com o rabo de fora – consegue espreitar por entre os teus delgados dedos e os teus olhos expressivos cor de azeitona se tornam pequeninos e se semi-cerram no seu rasgar característico.
Ainda assim, continuo a achar adorável a forma com que se desenha o trejeito que quase se confunde com uma covinha na tua bochecha direita.
Descrições à parte, não me posso esquecer que o homem é como um gato, se o perseguirmos ele vai correr, se nos sentarmos quietinhas e o ignorarmos ele vem ronronar aos nossos pés, e tu não constituis uma excepção à regra. Não é que eu me preocupe com isso ou que me sirva da comparação como desculpa para as minhas 'acções passivas', mas tanto tu como eu possuímos um grande amor-próprio e, mais do que isso, e por causa de todas as nossas divergências, também ambos sabemos muito bem o enorme orgulho que connosco carregamos sem sequer sentirmos o seu peso. (E isto, meu amor, é um facto. E contra factos não há argumentos).
Ainda assim, continuo a achar adorável a forma com que se desenha o trejeito que quase se confunde com uma covinha na tua bochecha direita.
Descrições à parte, não me posso esquecer que o homem é como um gato, se o perseguirmos ele vai correr, se nos sentarmos quietinhas e o ignorarmos ele vem ronronar aos nossos pés, e tu não constituis uma excepção à regra. Não é que eu me preocupe com isso ou que me sirva da comparação como desculpa para as minhas 'acções passivas', mas tanto tu como eu possuímos um grande amor-próprio e, mais do que isso, e por causa de todas as nossas divergências, também ambos sabemos muito bem o enorme orgulho que connosco carregamos sem sequer sentirmos o seu peso. (E isto, meu amor, é um facto. E contra factos não há argumentos).
[09.58pm]
19/03/2009
~ (in)constante necessidade
"Love is not a place to come and go as we please,it's a house we enter in and then commit to never leave. So lock the door behind you, trough away the key"
Com a caneta mais vistosa na mão e o manual dos devaneios a descansar em cima da secretária, digo-te que és a minha conjunção constante. Vens e vais e chegas e voltas a ir mas no final regressas sempre para mim, que sou a meta da tua corrida eterna e a chegada que levas contigo desde o ponto de partida, o ressoar do tiro e o sinal da bandeira baixada no princípio da maratona.
Apareceste anteontem e ontem foste embora. Hoje estás aqui mas amanhã por esta hora já te terás ido. Depois de amanhã passas de novo por aqui e no dia a seguir justificas, uma vez mais, estar só de passagem. Contigo é (sempre) assim, sucessivamente. És a minha pessoa boomerang, imprevisível e constante; instável e simultaneamente regular.
Por teres duas letras, um V de volta e um M de meu atado no atacador da sapatilha, é que eu receio que te tornes no meu vício natural, na minha droga mais poderosa capaz de me esvaziar os bolsos por apenas mais uma grama. Por isso, visto o papel de Hume e afasto-te do conceito mais simples da complexidade de toda uma conexão necessária. Não quero cair no erro comum dos mortais mais banais com os seus pensamentos igualmente vulgares e microscópicos dignos de mentes fechadas e de pessoas com palas nos olhos. Não vou fazer de ti uma necessidade nem o cigarro obrigatório das três da tarde. És o meu “de quando em vez” – com uma pitada do inevitável acréscimo “...talvez enquanto durar” à mistura – e o pensamento da ilusão pioneira de que a duração será infinita.
A minha tese principal é que, afinal de contas, a duração da nossa verdade contingente é demais para ser temporária, é que um boomerang só conhece a casa donde partiu a menos que seja agarrado a meio do percurso. É por isso que te atiro para longe de cada vez que vens, lanço-te o mais alto possível que a força me permite e elevo-te até ao ponto mais próximo do céu.
O meu problema é que as drogas também se pesam às doses e o “não querer” por vezes não é sinónimo de ideia exclusiva que tem tanto de criativa quanto de original com patente registada ou direitos de autor reservados. O ponteiro maior passa duas vezes pelas três e o cigarro raramente está sozinho no maço e o “uma vez por outra” é uma espécie de síntese do “quase sempre”.
És um corredor nato e em breve cortas a fita da meta que já se avista ao longe e portanto, és o novo conceito do meu glossário ainda por inventar.
Tu, és a minha (in)constante necessidade.
[09.40pm]
08/03/2009
~ ironias (do destino?)
Acreditas no destino? Crês em coincidências? E em segundas oportunidades?
Sabes João Maria, eu comecei a questionar as minhas descrenças a partir do momento em que te conheci no sul, em pleno Atlântico, na mesma praia onde a minha prima Rosarinho conheceu o (agora) marido – aquele de que já estava noiva quando também ta apresentaram; interroguei-as a partir do instante em que chegamos à conclusão de que, graças aos nossos gostos musicais idênticos, estivemos nos mesmos concertos meses antes de nos conhecermos ou até que passamos os mesmos dias na mesma cidade estrangeira. Fi-lo quando me apercebi que já muito tinha ouvido sobre ti sem sequer te ter associado às histórias que o meu primo Gil me contava sobre as aventuras dele com os amigos; quando banalmente me falaste da tentativa da minha tia em parecer chic com a sua mala Carolina Herrera e eu me lembrei imediatamente de ti e fui assaltada por uma vontade imensa de rir e comentar contigo a ‘chiqueza’ da minha família afastada em cumprimentar as pessoas com um só beijinho (aposto que te teria dado um gozo tremendo veres-me ficar com a cara pendurada). Questionei ainda mais o meu cepticismo quando reparei que o teu nome snob, para além de condizer com a tua maneira de vestir e de falar – que se torna muito particular e um tanto quanto sexy devido à tua rinite alérgica –, era igual ao da minha mãe só que ao contrário.
Foram estas as “possíveis coincidências do destino”, ou algo do género, que desde logo, inconscientemente, me fizeram sorrir quando dei conta do quão inocente estava a ser achando a tudo, incluindo-te a ti, uma certa piada por causa de (meros) acasos.
Quando as (nossas) férias acabaram, não pensei que trouxéssemos connosco na bagagem a amizade que criamos nas dunas ou a cumplicidade que alimentamos em brincadeiras de água salgada. Pelo facto de no início teres sido o meu jogo experimental, o teste para o qual eu ia já mentalizada, como começaste por ser o cumprimento da promessa que fizera a mim mesma uns tempos antes (como conseguir ser capaz de picar sem deixar ferrão, metaforicamente falando), foi incrivelmente surpreendente quando abri a mala que tinha a palavra “Algarve” na etiqueta impressa e me deparei com a cumplicidade e a tal amizade que lá colocaste minutos antes da partida, sentindo-me logo familiarizada com tais sensações que eram tão peculiarmente nossas. E isso, meu bichinho boomerang, isso foi a confirmação de que eu tanto precisava, a prova de que consigo picar sem morrer qual abelha-rainha ainda com mel por encher a colmeia.
Depois da nossa ‘pseudo-história’, há dias em que tudo parece estar a regressar aos poucos quando me falas com a tal cumplicidade, que desde então ainda temos conseguido vir a manter, à espreita no bolso do teu casaco aconchegada junto ao tabaco light que, por mais estranho que possa parecer ou por mais coincidente que possa ser, é da mesma marca que o meu.
Agora que crescemos um bocadinho mais, que amadurecemos, temos mais pontos do nosso lado e vantagens que jogam a nosso favor porque agora sabemos até onde nos é permitido ir, até onde vão os nossos limites individuais e conhecemos muito melhor os nossos fracos e fortes.
Agora que crescemos um bocadinho mais, que amadurecemos, temos mais pontos do nosso lado e vantagens que jogam a nosso favor porque agora sabemos até onde nos é permitido ir, até onde vão os nossos limites individuais e conhecemos muito melhor os nossos fracos e fortes.
Ah! É verdade, a Rosarinho e o Afonso namoraram na “nossa praia” quando tinham a nossa idade, terminaram durante anos e depois acabaram inevitavelmente por voltar um para o outro. Não é irónico?
E sabes, João Maria, às vezes penso como seria se (te) voltasse a picar e o que aconteceria se (te) deixasse o ferrão de vez.
E sabes, João Maria, às vezes penso como seria se (te) voltasse a picar e o que aconteceria se (te) deixasse o ferrão de vez.
"A man never knows how to say goodbye; a woman never knows when to say it".
[09.03pm]
26/01/2009
~ croquete sabe a sal
"Dunas, são como divãs, biombos indiscretos (...)deitados nas dunas, alheios a tudo, olhos penetrantes, pensamentos lavados. Bebemos dos lábios, (...)
selamos segredos. Quem nos visse deitados de cabelos molhados bastante enrolados (...)"
Hoje a minha escrita diferencia-se. Talvez pelo pensamento se ter dedicado às nossas boas recordações que guardo comigo. Memórias como os nossos primeiros diálogos, por entre olhares tímidos, porém curiosos. Diálogos que terminavam sempre num ponto em comum constituídos por conversas com conclusões mais do que banais para serem consideradas meras coincidências (como o facto de termos estado no mesmo festival de Verão precisamente no mesmo dia a assistir aos mesmos concertos ou até o inevitável timing que sempre tivemos que se destacou com o facto de também termos estado em Barcelona exactamente nos mesmos dias. Ou até a maneira idêntica que adoptamos para ver a vida, a nossa perspectiva – muito mais do que semelhante – sobre o mundo, ou ainda o nosso orgulho e teimosia igualmente gigantes, características reflectidas em longos braços-de-ferro, em desafios que aliciavam os limites traduzidos por palavras perigosas e em minutos – por vezes horas – de espera que dispensávamos na ansiedade de que o outro cedesse primeiro). Coincidências tão assustadoras quanto impossíveis de enumerar.
O meu consciente resgatou-me para esse tempo de calor infernal no qual tu tinhas cor de chocolate e figura de índio (duvidosa quando contrastada pelo rasgar dos teus olhos com traços asiáticos). Fui remetida para essa época, que se esticou até à estação dos ouriços, das cores quentes e das castanhas, em que os teus lábios me sabiam a sal e praia. Usufruíamos da praia com futeboladas de dez minutos divididas por idas de vinte (ou até meia hora) “ao banho”. Soubemos dar uso às dunas como mais ninguém e aproveitar tudo o que de bom o Verão tem para dar, trocando olhares cúmplices de cada vez que nos misturávamos no meio da multidão sem que (quase) ninguém desse por isso. Partilhávamos um segredo que só nós guardávamos. Algo de que alguns desconfiavam mas todos desconheciam. Um segredo que nem por eu aqui o escrever deixa de o ser. Um segredo chamado “nós” que vinha connosco ao de cima quando me agarravas para saltarmos a próxima onda; que nos acompanhava quando mudavas de lugar e arrastavas a toalha para o lado da minha e ouvíamos a mesma música juntos; que surgia quando interrompias as minhas leituras de cinco minutos com a desculpa de que «ler Sparks é para lamechas» e requerias atenção ou até quando me fazias comichão quando os teus dedos passeavam, em jeito de cócegas – ou, quiçá, carícias – na planta dos meus pés enquanto eu adormecia. Um segredo que quase se revelava se não fosse o cuidado com que disfarçadamente me colocaste um búzio na mão e me brindaste com um sorriso. Tenho a agradecer-te esses longos dias banhados não só pelo sol mas por gargalhadas também, repletos de descobertas e boas vibrações, passados sempre ‘na descontra’ a par de pequeninas revelações (que se multiplicaram Outono fora).
É sem ressentimentos ou sequer rancor, com as ironias de lado e clichés fora da porta que digo que, em parte, foi graças a ti que melhorei. Ensinaste-me muito (e não é só a jogar à sueca que me refiro). Contigo aprendi que não é preciso um jejum de mais de três dias ou uma qualquer grande espera para se ter uma espécie de amizade de sete cores. Aprendi que consigo estar sem amar e ficar sem imaginar a longo prazo; que gostar nem sempre implica grandes feitos ou esforços mas que é, no entanto, o suficiente para se poder exigir um pouco de dedicação por ambas as partes e o valor mínimo para se conseguir equilibrar os dois pratos da balança. Aprendi a apreciar coldplay sem sequer fazer por isso, a não desconfiar de quem me quer bem quando estou menos bem e que não é possível oficializar algo – que por vezes é quase (como) um nada – que ainda não se tem; que não é necessário assumir um embrião de algo que só nós sabemos (já) ter nascido. Contigo, aprendi a deixar-me levar separando a ligação cabeça-coração(-cabeça) bem como a anestesiar os sentidos.
Enfim, fizeste-me bem. Obrigada também por isso. Fizeste-me bem uma, duas, três, quatro – e até cinco! – vezes e hoje sei que se não tivéssemos ligado a máquina do nosso coma profundo com tanta pressa, os sintomas da nossa doença seriam menores e provavelmente, quem sabe, tê-la-íamos curado a tempo.
No fundo, foi preciso todo este tempo (e uma história paralela) para que eu conseguisse sorrir ao olhar para trás e aperceber-me que, afinal, este mar no qual às vezes me vou encontrar mergulhada, é de uma água pura como aquela que sem querer engolia quando te beijava na crista da sétima onda. Foste a minha coisa positiva e eu sei que, graças a ti, nunca mais confundirei um rissol com um croquete, nos dois sentidos das diferenças até porque agora a segunda palavra, para mim, terá sempre dois significados. Se antes torcia o nariz e deitava a língua de fora quando me ofereciam um croquete, agora silencio o nosso segredo e limito-me a sorrir.
Meu amor (de Verão tardio), quer seja na ponta dum palito de um qualquer cocktail, quer seja na bandeja de um empregado de mesa ou noutro lugar qualquer, “croquete” serás sempre tu num misto de ternura, coberto de areia, a olhar para mim.
[02.35am]
17/11/2008
~ o desabafo que eu nunca te escrevi
Dia de S. Martinho. Não o escolhi por ser uma capicua, por ser o dia do mesmo número do mês… não o escolhi de propósito, sequer. E, no entanto, custou-me tanto… Andamos neste “vai-não-vai” demasiado tempo para que me fosse indiferente. No final, não consigo nunca deixar de ser a mesma de sempre. Não pediste licença para entrar, nem eu ta quis dar mas a verdade é que entraste (não por te teres esforçado, não por teres querido mas por eu o ter simplesmente permitido), a realidade é que entraste. «Desde o começo, não sei quem és, no fundo não te conheço se calhar sou a culpada, se calhar até mereço».
O céu acordou rabugento na manhã de hoje, tal como eu se tivesse adormecido. Mas, ao contrário de mim, ele verteu água.
Eu estava confiante, segura de mim e senhora do meu nariz, acredita que estava. Tinha estabelecido um objectivo: o de nos resolver (a bem, a mal, fosse como fosse). «Nunca te prometi mais do que o que podia, prefiro encarar a realidade a viver na fantasia».
À medida que as horas iam passando, tão fugazmente a par do vento, o nervosismo era crescente cá dentro. As mãos suavam e tremiam, o coração palpitava descontrolado num ritmo excessivamente acelerado e a definição de ideias até aí arrumadas e bem assentes, ia sendo cada vez mais turva. À medida que as letras vermelhas do autocarro se iam modificando, eu tomava consciência de que a hora H do dia D estava prestes a chegar e que já não te encontravas tão longe quanto isso. Respirei o último ar da cidade que ia deixando para trás e calquei novo solo. A ansiedade fazia questão de me acompanhar a cada passo e, volta e meia, vinha dar-me a mão. Respirei fundo outra vez. Escusado seria dizer que, afinal de contas, já não estava assim tão dona do meu umbigo quanto isso. Não o demonstrei. Nunca conheceste a minha parte fraca, nunca me viste fraquejar (eu própria me repreenderia se deixasse que tal acontecesse) logo, também não iria ser hoje.
Fiz-te saber da minha presença – de te ver na ignorância estava eu farta – e mostrei-me disposta a conhecer as artérias do ‘teu território’ custe o que custasse (tu deves ter percebido essa indirecta). Caminhei durante meia hora sozinha por ruas sobre as quais nunca antes tinha ouvido falar só para te mostrar, em silêncio (como sempre) que, quando uma pessoa se empenha a sério em alcançar uma meta, consegue sempre chegar ao fim do trajecto. A questão é que aqui, não bastava apenas uma, era necessário o esforço de duas pessoas.
Continuei a andar, fui perguntando aos transeuntes onde ficava a morada que trazia comigo escrita na mão. Percebeste bem esta parte? Falei com pessoas que me são completamente estranhas – logo eu que, daquela vez em que estávamos na esplanada, tive que te pedir que chamasses o empregado para trazer a conta da minha bebida – só para chegar até ti; para nos resolver. Ainda que não tenha sido pelo melhor motivo, fui capaz de verbalizar, de enfrentar o meu “problema de expressão”. Caramba, hoje estou orgulhosa!
Virei à esquerda tantas que até perdi a conta às vezes. Percorri avenidas enquanto que à minha frente se iam desenhando, a cada pestanejar de olhos, mais e mais encruzilhadas e becos. Abotoei dois dos enormes botões do casacão vermelho-vivo; já não importava sentir-me bonita no meu generoso decote. No final de tudo, de que iria adiantar? Depois de andar um (dois, três…) bocado(s) mais, dei finalmente com a rua. Sabes, nem foi difícil porque quando o desejo e a vontade são como velhos amigos de infância, consegue-se chegar a todo o lado. Rodeada pelas folhas douradas típicas da estação dos ouriços, pisei-as, estalando-as instantaneamente.
Vindo de não sei donde, apareceste tu. Observei-te a atravessar a rua mas não quis que reparasses. Preferi virar a cara, o ar começava-me a faltar. Uma vez mais, respirei fundo.
Depois, vindo de não sei donde, apareceste tu. Ainda não te tinha visto até chegares ao meu lado do passeio… esquisito. Apareceste tu e o teu blusão verde-claro que te fica estupidamente bem. Por que é que tinhas de estar tão bonito justamente hoje? Chegaste e cumprimentamo-nos numa ‘calmaria demasiadamente calma’ – talvez por sabermos que seria a última vez – para que conseguíssemos afastar a tensão que nos abraçava a atmosfera. Olhaste para mim e esperaste que fosse eu a pioneira. Não me devia ter surpreendido tanto, sempre gostaste de me passar a batata-quente em primeira mão. Não sei como – devo ter ouvido mal – a minha voz, até então trémula, soou estranhamente relaxada quando te confrontei com a realidade. Nesse momento, vesti-me de samurai e, com a ponta da minha espada afiada, entalei-te contra a parede. «Não peço nada em troca, apenas quero sinceridade, por mais crua e difícil que seja, venha a verdade».
O céu acordou rabugento na manhã de hoje, tal como eu se tivesse adormecido. Mas, ao contrário de mim, ele verteu água.
Eu estava confiante, segura de mim e senhora do meu nariz, acredita que estava. Tinha estabelecido um objectivo: o de nos resolver (a bem, a mal, fosse como fosse). «Nunca te prometi mais do que o que podia, prefiro encarar a realidade a viver na fantasia».
À medida que as horas iam passando, tão fugazmente a par do vento, o nervosismo era crescente cá dentro. As mãos suavam e tremiam, o coração palpitava descontrolado num ritmo excessivamente acelerado e a definição de ideias até aí arrumadas e bem assentes, ia sendo cada vez mais turva. À medida que as letras vermelhas do autocarro se iam modificando, eu tomava consciência de que a hora H do dia D estava prestes a chegar e que já não te encontravas tão longe quanto isso. Respirei o último ar da cidade que ia deixando para trás e calquei novo solo. A ansiedade fazia questão de me acompanhar a cada passo e, volta e meia, vinha dar-me a mão. Respirei fundo outra vez. Escusado seria dizer que, afinal de contas, já não estava assim tão dona do meu umbigo quanto isso. Não o demonstrei. Nunca conheceste a minha parte fraca, nunca me viste fraquejar (eu própria me repreenderia se deixasse que tal acontecesse) logo, também não iria ser hoje.
Fiz-te saber da minha presença – de te ver na ignorância estava eu farta – e mostrei-me disposta a conhecer as artérias do ‘teu território’ custe o que custasse (tu deves ter percebido essa indirecta). Caminhei durante meia hora sozinha por ruas sobre as quais nunca antes tinha ouvido falar só para te mostrar, em silêncio (como sempre) que, quando uma pessoa se empenha a sério em alcançar uma meta, consegue sempre chegar ao fim do trajecto. A questão é que aqui, não bastava apenas uma, era necessário o esforço de duas pessoas.
Continuei a andar, fui perguntando aos transeuntes onde ficava a morada que trazia comigo escrita na mão. Percebeste bem esta parte? Falei com pessoas que me são completamente estranhas – logo eu que, daquela vez em que estávamos na esplanada, tive que te pedir que chamasses o empregado para trazer a conta da minha bebida – só para chegar até ti; para nos resolver. Ainda que não tenha sido pelo melhor motivo, fui capaz de verbalizar, de enfrentar o meu “problema de expressão”. Caramba, hoje estou orgulhosa!
Virei à esquerda tantas que até perdi a conta às vezes. Percorri avenidas enquanto que à minha frente se iam desenhando, a cada pestanejar de olhos, mais e mais encruzilhadas e becos. Abotoei dois dos enormes botões do casacão vermelho-vivo; já não importava sentir-me bonita no meu generoso decote. No final de tudo, de que iria adiantar? Depois de andar um (dois, três…) bocado(s) mais, dei finalmente com a rua. Sabes, nem foi difícil porque quando o desejo e a vontade são como velhos amigos de infância, consegue-se chegar a todo o lado. Rodeada pelas folhas douradas típicas da estação dos ouriços, pisei-as, estalando-as instantaneamente.
Vindo de não sei donde, apareceste tu. Observei-te a atravessar a rua mas não quis que reparasses. Preferi virar a cara, o ar começava-me a faltar. Uma vez mais, respirei fundo.
Depois, vindo de não sei donde, apareceste tu. Ainda não te tinha visto até chegares ao meu lado do passeio… esquisito. Apareceste tu e o teu blusão verde-claro que te fica estupidamente bem. Por que é que tinhas de estar tão bonito justamente hoje? Chegaste e cumprimentamo-nos numa ‘calmaria demasiadamente calma’ – talvez por sabermos que seria a última vez – para que conseguíssemos afastar a tensão que nos abraçava a atmosfera. Olhaste para mim e esperaste que fosse eu a pioneira. Não me devia ter surpreendido tanto, sempre gostaste de me passar a batata-quente em primeira mão. Não sei como – devo ter ouvido mal – a minha voz, até então trémula, soou estranhamente relaxada quando te confrontei com a realidade. Nesse momento, vesti-me de samurai e, com a ponta da minha espada afiada, entalei-te contra a parede. «Não peço nada em troca, apenas quero sinceridade, por mais crua e difícil que seja, venha a verdade».
Confiante ou nem por isso, segura ou hesitante, eu estava ali, seguindo-me pelas minhas próprias regras, regendo-me pelo meu próprio instinto. Nesta história, o final iria ser escrito pela minha própria mão, quanto a isso já não restavam dúvidas. Contudo, não me saiu tudo. Houve palavras que ficaram presas, retidas na garganta juntamente com perguntas por esclarecer. Porém, e muito sinceramente, isso já não me importa, não agora. Concordaste com o meu ponto de vista. Esqueci-me de te dizer mais duas ou três verdades mas já nada que contigo tenha a ver me diz respeito agora (também nunca me chegou a dizer…). No final de tudo, ainda não sei se foste cobarde ou simplesmente piedoso. Não me soubeste – ou sequer quiseste – articular um “sim” ou um “não”, tão simples quanto isso. Preferiste optar por um “mais ou menos” por um “talvez”, por um “se calhar”, por um copo meio cheio (ou terá sido meio vazio?). Foi falta de coragem e uma dose de pena para me dizeres que já te tinhas cansado? «Será que é medo? Será que para ti não passo de mais um brinquedo?».
Por favor, poupa-me às tuas respostas vagas ou à tua falsa (e hipócrita) compaixão. Deste-me as nossas pontas mal atadas, portanto foi-me mais fácil de desenvencilhar o nó.
Disseste-me que não querias que ficasse chateada, lembro-me porque foi das poucas coisas que me conseguiste pronunciar, cobarde (ou piedoso?)! Não fiquei, descansa. Se algum de nós teve culpa das expectativas que fui criando em torno disto, não foste tu com certeza. «(…) que fui criando em torno ‘disto’». Engraçado, tal como as tuas incertezas e pensamentos de corda-bamba, também esta nossa pseudo-relação não conseguiu obter uma mísera definição.
Disse-te que não estava chateada e que nem ia ficar. Odiei-te pela jeito – oh não, não te vou dar o prazer de o descrever – com que me olhaste. E, principalmente, odiei-te pela maneira com que me pareceste ainda mais bonito do que da vez anterior, como já tinha reparado segundos antes. Levaste o teu “monólogo a dois” para um rumo banal, enfatizando o facto de que, a partir daquele momento, seríamos como que colegas de escola capazes de falar sobre banalidades e outras tantas coisas igualmente interessantes. «Assim me expresso, sou fria e praguejo em excesso, se conseguíssemos dialogar já seria um progresso». Enfim, recorreste à nada subjectiva conversa de circunstância (oh, deixa-me ser irónica, só por esta vez). Aí sim, deu para ver o quão mal me ficaste a conhecer. «(…) e se ainda não me conheces então nunca conhecerás».
Não estava para te ver naquela figura ridícula de quem tenta contornar a situação como se duma rotunda ela se tratasse nem tão pouco eu estava para compactuar com tamanha parvoeira. Que inocente! Não tiveste mesmo noção do clima, pois não? Nem sei porque pergunto, já deveria saber de cor que, para ti, nunca foi importante o suficiente para veres mais do que os dois palmos à frente da tua testa. A única forma de sair dali sem que te deixasse a falar com os botões invisíveis do teu blusão, foi dar-te um beijo – não de amizade, nem tão-pouco de amor (nunca tos dei, para quê gastá-los na despedida?); não de ironia, não por pena, não por compensação, não de nada. Um pequeno, demorado e abstractamente indefinido beijo no intuito de te mostrar que, apesar de não termos ficado mal, não ficamos tão bem assim. Eu não, pelo menos. Por isso, e mais uma vez, na esperança de que enxergasses mais do que dois dedos à frente dos olhos, respondi-te à pergunta – retórica ou não – que me tinhas feito no primeiro dia, quase três meses antes. Devo ter silenciosamente respirado fundo para me ter conseguido agarrar à coragem que trazia no fundo do bolso para te dizer que aquilo sim, tinha sido um episódio à Picoult, para ter rodado nos calcanhares e virado costas para amassar mais meia dúzia de folhas vermelhas e douradas pelo caminho.
Concluindo, quero que saibas que me fizeste um bem tremendo, que contigo aprendi muita coisa – oh, se aprendi! –, que foste um teste no qual eu me consegui safar, por assim dizer, e que «as coisas não foram bem assim», como tu as quiseste pintar. «Como foram?» – perguntas-me tu. «Não sei…», ou melhor, até sei, agora eu sei tudo (pois, não sou cobarde): “as coisas”, meu amor de Verão tardio, nem chegaram a ser…
Por favor, poupa-me às tuas respostas vagas ou à tua falsa (e hipócrita) compaixão. Deste-me as nossas pontas mal atadas, portanto foi-me mais fácil de desenvencilhar o nó.
Disseste-me que não querias que ficasse chateada, lembro-me porque foi das poucas coisas que me conseguiste pronunciar, cobarde (ou piedoso?)! Não fiquei, descansa. Se algum de nós teve culpa das expectativas que fui criando em torno disto, não foste tu com certeza. «(…) que fui criando em torno ‘disto’». Engraçado, tal como as tuas incertezas e pensamentos de corda-bamba, também esta nossa pseudo-relação não conseguiu obter uma mísera definição.
Disse-te que não estava chateada e que nem ia ficar. Odiei-te pela jeito – oh não, não te vou dar o prazer de o descrever – com que me olhaste. E, principalmente, odiei-te pela maneira com que me pareceste ainda mais bonito do que da vez anterior, como já tinha reparado segundos antes. Levaste o teu “monólogo a dois” para um rumo banal, enfatizando o facto de que, a partir daquele momento, seríamos como que colegas de escola capazes de falar sobre banalidades e outras tantas coisas igualmente interessantes. «Assim me expresso, sou fria e praguejo em excesso, se conseguíssemos dialogar já seria um progresso». Enfim, recorreste à nada subjectiva conversa de circunstância (oh, deixa-me ser irónica, só por esta vez). Aí sim, deu para ver o quão mal me ficaste a conhecer. «(…) e se ainda não me conheces então nunca conhecerás».
Não estava para te ver naquela figura ridícula de quem tenta contornar a situação como se duma rotunda ela se tratasse nem tão pouco eu estava para compactuar com tamanha parvoeira. Que inocente! Não tiveste mesmo noção do clima, pois não? Nem sei porque pergunto, já deveria saber de cor que, para ti, nunca foi importante o suficiente para veres mais do que os dois palmos à frente da tua testa. A única forma de sair dali sem que te deixasse a falar com os botões invisíveis do teu blusão, foi dar-te um beijo – não de amizade, nem tão-pouco de amor (nunca tos dei, para quê gastá-los na despedida?); não de ironia, não por pena, não por compensação, não de nada. Um pequeno, demorado e abstractamente indefinido beijo no intuito de te mostrar que, apesar de não termos ficado mal, não ficamos tão bem assim. Eu não, pelo menos. Por isso, e mais uma vez, na esperança de que enxergasses mais do que dois dedos à frente dos olhos, respondi-te à pergunta – retórica ou não – que me tinhas feito no primeiro dia, quase três meses antes. Devo ter silenciosamente respirado fundo para me ter conseguido agarrar à coragem que trazia no fundo do bolso para te dizer que aquilo sim, tinha sido um episódio à Picoult, para ter rodado nos calcanhares e virado costas para amassar mais meia dúzia de folhas vermelhas e douradas pelo caminho.
Concluindo, quero que saibas que me fizeste um bem tremendo, que contigo aprendi muita coisa – oh, se aprendi! –, que foste um teste no qual eu me consegui safar, por assim dizer, e que «as coisas não foram bem assim», como tu as quiseste pintar. «Como foram?» – perguntas-me tu. «Não sei…», ou melhor, até sei, agora eu sei tudo (pois, não sou cobarde): “as coisas”, meu amor de Verão tardio, nem chegaram a ser…
* * *
«Acho que nunca soubeste o quanto gostei de ti, esta é a carta que eu nunca te escrevi». Sabes, podes continuar a ser orgulhoso, eu não me importo de repartir metade do orgulho contigo, até podes ter razões para isso. Podes ficar contente por teres ganho este jogo de xadrez, ou não tivesses tu comido a rainha.
Xeque-mate!
[10.44pm]
10/11/2008
~ dilemas
Dilemas. Dilemas do tipo “se isto, então aquilo mas se não aquilo, então isto...?”. Dilemas, previsões que, de tão minuciosas serem, se acabam por se tornar realidades. Nunca nada foi concreto, nunca houve nada definido, nada tem sido “preto no branco”. Engraçado... e eu que sempre lutei por não me deixar ficar no meio-termo, eu que nunca gostei de cinzento. Quase irónico!Sabes, não foste só tu que te atiraste de cabeça (oh tu sabe-lo, bichinho, já to tinha escrito). Aliás, estávamos os dois no mesmo pé – e sublinho o ‘estávamos’ – só que agora há uma diferença: já não te deixas ir sem o teu atrelado do lado racional e protector atrás. É por medo das tais “previsões”? Ou é pretexto para salvaguardar uma imagem cobarde que, pelos vistos, não foi assim tão bem disfarçada? Se calhar é melhor não “prever”...
Muito cinzento (escuro!). São bastantes interrogações, demasiadas dúvidas para continuar nesta – chamemos-lhe... – indefinição de ‘cor’.
Enfim, é muito 'orgulho e falta de jeito' e eu fartei(-me) de me cansar.
[01.17pm]
01/11/2008
~ o quão eu (quase) gosto de (gostar de) ti
Fazes-me gostar de ti e nem sequer imaginas o quão eu gosto de ti. E sabes do que é que não tens mesmo noção? De que me fazes gostar de gostar de ti sem fazeres por isso. E quando fazes, de que tamanho fica o meu "gostar", sabes? Não, não sabes. Tal como eu, também não fazes a mínima ideia porque nem tu nem eu lhe conseguimos ver o fim. Tenta imaginar até onde vai o meu "gostar" quando fazes por que eu goste de 'te gostar' e talvez te apercebas um pouco da imensidade que o meu simples gostar abrange, quando não fazes por que eu goste de ti. E, então aí, talvez eu dê conta de que o meu "simples gostar" não é tão 'simples' quanto isso no que toca a ti.Gosto (muito) de ti!
[11.45pm]
16/10/2008
~ sei porque sinto(-te)
Não é que possa dizer que te conheço de cor e salteado mas consigo identificar-te sem ver que és tu. Sei que és tu pela maneira como envolves os braços à volta da minha anca e pousas a cabeça no meu ombro. O teu queixo na minha omoplata, o encaixe perfeito! Sei que és tu por sentir as tuas mãos grandes e morenas tocarem-se enroladas na minha barriga e simplesmente sei que és tu porque, sem querer ou ver, o meu corpo reage sempre quando apareces: os joelhos começam a enfraquecer, um formigueiro sobe-me pelas pernas acima enquanto as mãos ficam trémulas, a barriga com borboletas a voar em todas as direcções, a boca fica seca adoptando somente as palavras mudas e, por sua vez, o coração fica eufórico, pronto para saltar cá para fora.
Sei que és tu porque te sinto.
Sei que és tu pelo teu cheiro e pela textura do teu cabelo. Sei que és tu quando sinto o quente da tua pele junto à minha, rosto com rosto. Sei porque me beijas o pescoço daquela maneira que só tu sabes fazer.
Sei que és tu porque te sinto e sinto-te não por te saber de cor – porque não sei, ainda – mas por me teres habituado – sem querer? – a saber sentir-te.
[10.05am]
22/09/2008
~ interpretações(?)
Contigo quase sempre pensei duas ou três vezes antes de responder mas não foi por isso que não nos deixamos de aproximar. Contigo nunca foi difícil nem demasiado fácil. Foi sempre tudo muito imprevisível… contigo. Ias e vinhas quando querias mas também só voltavas quando mais me apetecia. Tentavas dominar(-me) mas não podemos ficar ambos por cima. Arriscamo-nos a jogar um jogo perigoso que nunca ninguém nos ensinou e, por isso, nunca te tive dentro da palma da minha mão (pelo menos nunca o suficiente para que eu a conseguisse fechar completamente).E, sabes, era isso que nos movia. O ‘mistério por decifrar’ que fomos construindo quase sem querer que, apesar de sempre ter havido o famoso ‘clic’ – a tal “química/telepatia” de que falavas – entre nós, se deveu à má interpretação que ingenuamente conseguimos reter um do outro. Inconstante eras tu comigo e instável fui eu para ti. O orgulho era demasiado grande para haver lugar para cedências e por muita flexibilidade que tenhamos tido, nenhum de nós conseguiu – ou sequer tentou – dar o braço a torcer.
Atiramo-nos logo de cabeça no primeiro instante e só mais tarde é que a consciência nos puxou as orelhas. Hesitamos depois, ficamos de pé atrás depois, preocupamo-nos depois e, apesar de acreditares fielmente que “nunca se vacila”, e mal eu aprendi isso, vacilamos depois.
Não é justo, a sério que não é. Foste tu quem veio e fez questão de permanecer. Foste tu quem atou as pontas soltas dos nossos laços; tu é que não me deste tempo para me ‘desligar’ de ti antes mesmo de estar ‘ligada’. Quando eu estava já mentalizada, longe de te tentar compreender mais um bocadinho que fosse, tu fizeste questão de marcar presença.
Tivemos grandes falhas de comunicação – aliás, ainda as temos – mas o que é certo é que os nossos olhares nunca se deixaram de cruzar (nem nunca procuraram deixar de o fazer). Até à data eu podia quase ter a certeza de que não veríamos mais nada a não ser o reflexo dos nossos olhares – tu, o do teu olhar no meu e eu o reflexo do meu sobreposto no pano de fundo dos teus olhos – mas agora… agora eu vacilo. Foste tu que me ensinaste a não deixar de te aprender; interessaste-te (e apressaste-te) em me interessar pelo teu interesse. Se tal não tivesse acontecido, como seria eu capaz de ter reparado – e achado tanta piada – no trejeito que fazes com uma ligeira inclinação do lábio superior que se abre num rasgo do lado esquerdo do teu sorriso? Se não ‘me’ (ou ‘nos’) tivesses ‘feito’ isto, como é que eu saberia que o teu corpo encaixa perfeitamente – quais duas peças vizinhas de um puzzle – no meu? E nem sequer chegamos directamente a dizer “gosto de ti”... (mas também acho que nunca precisei de to dizer para que tu o percebesses)...
Não é justo, a sério que não é... também nunca ninguém chegou a dizer que deveria ter sido… (doutra maneira).
Atiramo-nos logo de cabeça no primeiro instante e só mais tarde é que a consciência nos puxou as orelhas. Hesitamos depois, ficamos de pé atrás depois, preocupamo-nos depois e, apesar de acreditares fielmente que “nunca se vacila”, e mal eu aprendi isso, vacilamos depois.
Não é justo, a sério que não é. Foste tu quem veio e fez questão de permanecer. Foste tu quem atou as pontas soltas dos nossos laços; tu é que não me deste tempo para me ‘desligar’ de ti antes mesmo de estar ‘ligada’. Quando eu estava já mentalizada, longe de te tentar compreender mais um bocadinho que fosse, tu fizeste questão de marcar presença.
Tivemos grandes falhas de comunicação – aliás, ainda as temos – mas o que é certo é que os nossos olhares nunca se deixaram de cruzar (nem nunca procuraram deixar de o fazer). Até à data eu podia quase ter a certeza de que não veríamos mais nada a não ser o reflexo dos nossos olhares – tu, o do teu olhar no meu e eu o reflexo do meu sobreposto no pano de fundo dos teus olhos – mas agora… agora eu vacilo.
Não é justo, a sério que não é... também nunca ninguém chegou a dizer que deveria ter sido… (doutra maneira).
[12.36am]
09/09/2008
~ nuvens de Verão
«Quando não tive nada a perder,eu tive tudo. Quando deixei de ser quem era,
encontrei-me a mim mesma».
Uma vez a queda foi tão grande, tão assustadora, que lhe fez doer o corpo todo. Sentiu o coração esmagado contra o peito durante meses e não conseguia conter as lágrimas à noite. Jurou que nunca mais tentaria e assim foi. Passou a nunca criar expectativas em torno de nada que mais tarde a pudesse vir a afectar. Mantinha-se à distância de todas as nuvens – até mesmo daquelas mais aliciantes – como se a própria aproximação lhe relembrasse de todos os tombos dados até então. Aprendeu a ficar quieta no seu cantinho, a não se mexer quando tinha mais curiosidade jogando sempre pelo seguro.
Passado algum tempo, alguém reparou nela. Alguém capacitado o suficiente para a fazer voar tão alto como das outras vezes sem que embarcasse nesses voos sozinha. Alguém com a sua própria nuvem azul-bebé, que também não esperava dela planos a longo prazo e que se deixava levar pelas linhas traçadas pelo destino. A partir daí, ela deixou-se ir, decidiu arriscar “só para ver no que dava”, atirar-se de cabeça sem hesitar, sem nunca ficar de pé atrás e não se importar com meios-termos. Não sabia como iria ser no dia a seguir (como nunca acontecera das outras vezes) e isso excitava-a. Deixava-se guiar, deixava que a vida se encarregasse da sua felicidade e serviu-se disso p’ra se testar a si própria. Muitas vezes dava consigo a pensar no que é que estaria a fazer e por outras chegava mesmo a não reconhecer o seu reflexo no espelho. Desfez-se completamente da ‘batata quente’ que lhe esquentava nas mãos e envolveu-se com uma facilidade tal que se surpreendeu a si própria sem sequer fazer por isso. Chegou até a recear por si e a duvidar de todo o bem-estar que tais sensações lhe causavam mas logo de seguida o ‘pensamento de não pensar’ aparecia e impedia-a de ter medo. Só o simples facto de ele querer voar com ela, de lhe dar mundos e fundos sem promessas, conseguiu conquistá-la sem que ela desse por nada. Quando se apercebeu do que estava a viver, fez uma retrospectiva de tudo e sentiu-se melhor que nunca e feliz, sem qualquer ponta de arrependimento.
Dessa vez, foi o mundo que puxou por ela.
* * *
Quando se deixaram levar - depois de uns mergulhos no mar e beijos entre ondas - na parte mais baixa das dunas de areia fina, ele afastou-lhe uma madeixa de cabelo da cara fazendo-a perguntar: «alga?» ao que ele respondeu: «cabelo». Foi nesse instante que ela soube que era possível conseguir interpretar alguém em apenas três dias. Foi nesse preciso momento em que deu consigo a pensar: “quem inventou que os amores de Verão se enterram na areia?”.
[10.16pm]
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