04/09/2010

~ plano Z

You were out of my league. I was out of my mind.

Eu planeava chegar até aqui contigo ao meu lado. Esperava que ainda resultasse enquanto estes dois longos anos passassem mas, como era muito mais impossível do que só improvável, eu tinha um plano Z.
É ao que nos sujeitamos quando julgamos não haver espaço suficiente na nossa camioneta para transportar tanta areia, quando damos por nós a desejar possuir mãos de gigante para agarrar o inesperado pássaro que decidiu ficar, quando prevemos que não conseguiremos tomar conta do recado durante muito tempo. Quando isso acontece, tendemos a recorrer a alternativas, idealizamos um futuro que desejamos que aconteça já amanhã e cruzamos os dedos na esperança de que, nesse mesmo amanhã, a nossa vida coincida uma vez mais com a rota do nosso passarinho favorito do qual mais cedo ou mais tarde nos vemos forçados a abrir mão, a arranjar maneira para que o peso da areia seja carregado com a maior das seguranças. Como tal, eu tinha um plano Z, o suposto único e último plano infalível.
Da mesma maneira que durante as grandes guerras as pessoas iam colocando algumas provisões de lado, eu tentei sempre manter a cabeça sã e os pés no chão, sobretudo quando me embriagavas os sentidos e me guiavas até ao céu. Por isso pus-te uma anilha – não de identificação porque tu és inconfundível –, apenas para ter a certeza palpável de uma rara realidade: a de que, tal como um boomerang, tu acabarias por regressar.
O meu plano Z consistia em crescer o mais depressa possível, fazer-te saber quando atingisse a maioridade, entrar no teu mundo e destacar a minha presença nele caso não mais te mostrasses interessado, tirar a carta e passear-me pelos teus lugares com o meu carro e, então, mostrar-te que não necessitaria de o modificar para que a areia que para mim sempre havias representado não transbordasse e se alastrasse pelo pavimento fora. Eu sonhava alcançar o ponto em que estivesse à tua altura, no fundo só queria tempo para me mentalizar, para preparar a minha vida para a tua ilustre chegada, para te oferecer este mundo e o outro porque, na minha perspectiva, tu eras o golden ticket de uma pobre sortuda que receava não conseguir aproveitá-lo da melhor forma. Para mim, tu merecias sempre mais.
Penso que o meu jeito para representação aliado à incrível arte do disfarce tenham sido as razões pelas quais nos mantivemos juntos durante mais do que uma estação. Foi assim que te afastei dos meus medos e de todas as minhas inseguranças. Tu eras o meu ponto fraco, o meu calcanhar-de-aquiles e, ao mesmo tempo, o meu bem mais precioso. Eu nunca te dei como garantido, Z., mesmo quando me esforçava a não tentar mais do que tu, a não ir ao teu encontro mais vezes do que as que realmente me apeteciam, a não retribuir sempre nas palavras carinhosas. Eu nunca te quis mostrar o verdadeiro grande valor que desde sempre te dei, receando que toda esta admiração que sempre nutri por ti te assustasse e conduzisse a uma overreaction que te levasse a subestimares-me.
Parece loucura, não parece? Mas eu vou partilhar um pequeno segredo contigo: nós, as mulheres gostamos de sentir que conseguimos controlar, mesmo que lá no fundo saibamos que não é bem assim. Gostamos de ter a certeza de que sobressaímos na fotografia, que vocês nos têm respeito e nos reconhecem poder, especialmente depois de nos desafiarem. Mesmo que lá no fundo saibamos perfeitamente que são vocês quem domina. E é por isso que na maior parte das vezes vocês, homens, nos têm de deixar ficar por cima e convencer-nos de que a nossa batalha ganha não passou despercebida, ainda que no final sejamos não mais do que os soldados da última frente da vossa guerra, meros peões das vossas jogadas bem sucedidas.
Agora que completei os dezoito e vou a caminho dos dezanove anos, quase a apanhar-te, tenho prioridades mais ambiciosas e menos frustrantes do que esfregar-te na cara aquilo que também eu posso atingir, independentemente do que isso possa significar, seja um carro, seja experiência de vida, amadurecimento, auto-reconhecimento ou apenas uma mísera sweat de uma qualquer faculdade como prova de que fui adquirida no ‘teu mundo’.
Tu foste a minha inspiração, significavas o fim de todos os meus meios, a Roma por onde todos os meus caminhos tinham obrigatoriamente que ir dar. Agora, que te estou “quase a apanhar”, não quero que me recebas, não da maneira que outrora tanto desejei. Tens de admitir que estas retrospectivas têm o seu je ne sais quoi de ironia, ãh? Mas deixemos lá isso, lá no passado que é aonde nós pertencemos juntos. Aliás, a vida é uma constante em movimento que nunca espera por nada nem ninguém, nem mesmo por nós. Tu terás sempre a vida de universitário mais avançada do que a minha, que ainda está por viver, e isso, por enquanto, implica um certo estatuto social distinto e um ano a separar-nos (mesmo que, na realidade, façamos apenas oito meses e escassos grãos de areia de diferença um do outro). Portanto, eu nunca te “apanharei”, não é verdade, passarinho? Podes refutar-me a razão, a verdade é que eu nunca fui perfeita mas sempre tentei perceber o que ia na tua cabeça. Neste argumento não me importo que fiques por cima, que domines.

[12.56am]

4 comentários:

Margarida C' disse...

"Tu eras o meu ponto fraco, o meu calcanhar-de-aquiles e, ao mesmo tempo, o meu bem mais precioso. Eu nunca te dei como garantido, Z., mesmo quando me esforçava a não tentar mais do que tu, a não ir ao teu encontro mais vezes do que as que realmente me apeteciam, a não retribuir sempre nas palavras carinhosas. Eu nunca te quis mostrar o verdadeiro grande valor que desde sempre te dei, receando que toda esta admiração que sempre nutri por ti te assustasse e conduzisse a uma overreaction que te levasse a subestimares-me."

Não imaginas o quanto estas palavras também se podem aplicar a mim. Gostei muito :)

Beijinho

Mara disse...

«nós, as mulheres gostamos de sentir que conseguimos controlar, mesmo que lá no fundo saibamos que não é bem assim.»

Não podia estar mais de acordo! Quando li esta frase quase me vi a proferi-la.

:)

Afonso Arribança disse...

«Eu nunca te quis mostrar o verdadeiro grande valor que desde sempre te dei, receando que toda esta admiração que sempre nutri por ti te assustasse e conduzisse a uma overreaction que te levasse a subestimares-me.
Parece loucura, não parece? Mas eu vou partilhar um pequeno segredo contigo: nós, as mulheres gostamos de sentir que conseguimos controlar, mesmo que lá no fundo saibamos que não é bem assim. Gostamos de ter a certeza que de sobressaímos na fotografia, que vocês nos têm respeito e nos reconhecem poder, especialmente depois de nos desafiarem.»

Quis destacar este excerto, pois posso garantir-te que não são só as raparigas que gostam de o fazer e que me identifiquei a 100% com o que escreveste. Já me 'lixei' por mostrar que lhe dava valor, fazendo com que ela me subestimasse. É o normal.

Adorei as palavras, força Qel-Force-of-Nature :b

U disse...

este texto sabe taaaanto a xeque-mate!