Hoje vejo-te. Não há outra maneira de to dizer directamente, agrafando-te assim as palavras aos olhos.
Hoje vejo-te com o olhar vago fixo nas frases doridas que te tatuo na pele, corroendo-te a epiderme até às entranhas, através dos óculos que talvez quiseste de propósito esquecer em cima da secretária, colado no ecrã do computador.
Hoje vejo-te com uma expressão de confusão e resignação estampada no rosto, como as frases feitas da piada do momento que está na moda mandar estampar numa t-shirt da loja personalizada. É claro que aquilo que daqui por muitos anos serão rugas, que se forma acima da cana do teu nariz, mesmo no meio do ponto de encontro das tuas sobrancelhas, também te denuncia. Exacto, vês? É dessa mesma expressão estupefacta que se te desenha agora de que falo; é essa mesma maldita que me condecora, neste preciso instante, dona da razão.
Hoje vejo-te os músculos relaxados, o peso do teu descontraído corpo incrivelmente bem distribuído pela cadeira de escritório que, porém, mora no teu quarto. Estás com uma mão pousada em cima do mouse e a outra a suportar o queixo semi-caído que te completa as feições. Ou então deixas que essa mesma mão tacteie a superfície da secretária, uma expedição em busca do copo de coca-cola perdido. O teu ar é de incredulidade e tens “caos” caligrafado na testa. Bastante impressionante a forma como se consegue descrever à distância, hum? Como eu te consigo descrever à distância. Mas foi assim que me ensinaste, meu querido, durante o tempo todo nunca me deixaste aprender(-te) de outra forma. Como vês vim apanhar-te no sítio de costume, no meu. Afinal de contas ainda me visitas, ainda procuras por mim… Porquê? Vem donde, essa curiosidade em saber da minha vida? Do lado esquerdo não vem de certeza, és destro em tudo, até no suposto lugar certo do coração (e se o tens, estacionaste-o noutro lado).
Seja como for, esforçando-te por descobrir o significado das minhas cartas formais sem o teu nome explícito gatafunhado no espaço em branco do remetente ou não, quer tenhas a tal expressão cosida na cara tão bem quanto os botões que trago pregados no meu macacão bege, quer tenhas um (quase) sorriso bem ao estilo da Gioconda, essa musa inspiradora dos graffiters da Miguel Bombarda, hoje vi-te. E não foi nessa rua de artistas nem protegido com a mítica sweat azul-marinha (do S. João nem me atrevo a falar) ou sequer na madrugada dos meus sonhos ‘(sub)consciencializados’.
Hoje vejo-te e não há maneira de to dizer directamente sem ser assim, agrafando-te as palavras, tingidas pelo meu remorso, aos olhos.
[04.03am]
13 comentários:
«Do lado esquerdo não vem de certeza, és destro em tudo, até no suposto lugar certo do coração (e se o tens, estacionaste-o noutro lado)» um suspiro.
artes em partes é dos meus sítios preferidos para estar em paz no porto :)
quanto ele, não sei, mas tu tens um coração de certeza, e bem grande por sinal!
beijinho Quel, *
«Posso viver sem te ouvir, os teus olhos falam comigo. Não preciso de claridade, sei-te ler no escuro». - adoro esta forma de comunicar, é chegar a um nível de entendimento mágico, na minha opinião, maior mesmo que as palavras.
Adorei este post, muito bem escrito, excelentes descrições do que aí vai dentro, então a última frase...
Acho que essas descrições, à distância, vêm do mesmo que lugar que nele julgas destro, estacionado noutro lado, mas que tal como a testa ou o sorriso à Miguel Bombarda, tem "caos" caligrafado. E se o têm estacionado, talvez seja por ter perdido as chaves, forçar a entrada demora mais.
(O teu blog merece bem essa lista. E, se continuas assim, acho que tenho de o considerar como "um dos de outro nível". :D)
bolas, que eu gostei realmente deste.
beijinhos Quel. :)
tu escreves tão bem, tão bem :')
És tão doce e é sempre tão maravilhoso ler as tuas palavras.
Olha pra mim, sinto-me bué lisonjeada por poder ler o teu blog! Olha pra mim +.+
a sério ? ai , eu também adoro ! , mas nunca tive esse privilégio de os ver ao vivo /:
e eu ADORO esta música , é tão especial !
adorei, tens um dom :)
só agora reparei que o título do teu blog é das coisas que mais gosto de fazer, chocolate a ver a chuva . parabéns :)
opa escreves mesmo bem :)
tudo tao sentido. prometo qd tiver tempo leio isto td de uma ponta a outra :p
adoro o que escreves Qel, não consigo dizer mais nada.
tempo precisas de algum mesmo, para dedicares, e as unhas sim, têm de estar sempre super curtinhas, tmb me custou um bocado, mas é só mais no ínicio, os primeiros meses depois de saberes já pouco importa se tens unhas ou não, desde que não interfira com o som que sai da viola :)
beijinho *
"Do lado esquerdo não vem de certeza, és destro em tudo, até no suposto lugar certo do coração (e se o tens, estacionaste-o noutro lado)."
Gosto muito de te ler sabias? Adorei esta oposição entre o esquerdo, o direito e o coração. Adorei a forma de exprimires o que sentes. Adorei as palavras agrafadas aos olhos. Adorei o teu texto.
Enviar um comentário