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30/05/2010

~ "vira o disco e toca o mesmo"

"He’s a player, not ready yet to behave mature".

Ainda não tenho idade para levar esta vida. Era suposto sentir com o coração, ter uma paixoneta ou duas, um namorado que, na minha inocência, julgasse ser para sempre, alguém com quem pudesse ter uma relação razoavelmente estável e a quem me dedicasse continuamente. Ou até ter uma paixão platónica.
Este lifestyle assusta-me, para ser sincera. Viver com o freepass que me foste cedendo, podendo eu estar contigo quando bem me apetece a troco de nada, sem justificações ou exigências, ir tendo algo que nem vamos tendo não constava na minha wishlist. O que eu estou a tentar dizer é que não podes ser a minha escapadela de serviço, nem eu a tua, porque apesar de sermos um pouco crianças – que somos, ou porque nos cansámos das pessoas rapidamente ou porque nos desabituamos dos compromissos e talvez isso funcione como uma espécie de mecanismo de defesa, ainda estou por descobrir, – contudo, já somos crescidinhos para continuarmos a fazer um do outro o nosso brinquedo pessoal, para criarmos joguinhos de sedução nível I, para fingirmos cafés e encontros com conversas casuais ensaiadas quando tanto eu como tu sabemos como acabará. Ou (re)iniciará.
O problema é que cada vez que faço figas para se realizar, a promessa de nunca mais estar contigo fica sempre por cumprir. És um tipo de droga natural e eu nem sequer em reabilitação estou, quanto mais desintoxicada, e é exactamente por isso, por seres viciante, que me custa deixar-te definitivamente.
O certo, porém, é não haver ilusões, mentiras ou quaisquer simulacros, flutuamos com os pés assentes no chão e nenhum de nós o pinta de verde. Ambos sabemos, sejamos francos, que no fundo não passámos de meros recursos, que agora é praticamente físico aquilo que nos sustenta, uma vez que a parte da química já resultou mais entre nós. Ou melhor, a química permanece, a perspectiva de conto de fadas é que não.
O que nós temos no presente resulta do disco arranhado que nos fomos esquecendo no replay, é um género de affair continuado no qual eu desempenho o papel da amante criativa e tu, o do solteirão atrevido. E isto, isto é a nossa fantasia. Não te rias, sabemos bem que nenhum de nós está loucamente apaixonado, nenhum de nós é doido o suficiente para cometer duas vezes o mesmo erro (fôssemos nós moscas desorientadas a bater contra o vidro uma e outra vez). Tu és, apenas e somente, o típico sassy boy e eu só tenho uma panca(da) por ti (que admito já ter sido mais pequena). Basicamente – não é difícil de entender, tu e eu sempre fomos muito básicos – tu só nutres uma estúpida admiração pelo meu rabo a cair para a obsessão. De qualquer maneira, o que nos vai unindo é aquela parte em que os desejos se manifestam mais do que qualquer outra coisa – a atracção. É puramente carnal, aquilo que nos vai mantendo juntos, e altamente perigoso em caso de ocorrência de incêndio. Às vezes, quando estamos em brasa, lá deitamos fogo à casa. Somos inflamáveis e isto é a nossa fantasia, portanto não te rias.
É por isso que me afasto da lei dos três E’s: envolvência emocional extrema.
Embora tenhamos origens de mundos diferentes, damo-nos bastante bem quando falamos na mesma língua e os nossos pontos em comum ainda vão dando nas vistas. No entanto, nunca nos esqueçamos de que, vá lá, tu e eu não passamos de um cliché em que o meu rabo é o teu fetiche sexual, os teus abdominais a minha perdição. Não te rias! Sejamos realistas, e o que eu faço é um apelo à consciência, não mais nos podemos dar ao luxo de permitir este (ab)uso. Eu não posso mais ser a miúda que ocupa o assento ao teu lado no mini, tal como tu não podes ser a minha manobra fácil. Por isso, antes que eu me torne numa autêntica Samantha Jones, antes que a minha vida se transforme num filme ou num fenómeno best-seller – porque uma completa novela mexicana ela já é – eu tomei a decisão de ser racional (falta é pô-la em prática): se não resultou da maneira mais convencional, não é ao reciclarmo-nos assim, muito em parte por causa da minha sensualidade, do teu charme, das duas coisas ou do que quer que seja que nos vamos 'arranjar'.
Apesar de isto tudo me fazer uma enorme confusão, e eu sei que deixei que se arrastasse por muito tempo, e por isso lamento, apercebi-me de que não tenho idade para levar esta vida. Ainda.


"If you don't love me to then bein' friends will do, long as you let me in your bed!".
[07.25pm]

25/01/2010

~ one night stand

«Last night I could not stop thinking about a big mac. I finally had to get dressed, go out and pick up a guy».


O ambiente que nos envolvia era propício a quase qualquer tipo de loucura. O ar fresco que de vez em quando circulava por nós, a música libertadora, o fumo envolvente e a bebida inspiradora que nos aquecia por dentro. Os jogos de luzes, a distracção da multidão, alheia a tudo, e os nossos movimentos desconcertantes a condizer com os olhares provocantes que íamos trocando.
Tudo nos denunciava e desinibia.
“-Escolhe um”. – Ouvi desafiarem-me. Inclinei a cabeça para trás e ri. Ri-me muito e indaguei:
“-Estás a falar a sério?”
“-Sim! Anda lá, é só hoje. Escolhe um!”
Através da palhinha preta bebi um gole da smirnoff que segurava na mão e, com um gesto de cabeça, indiquei na tua direcção:
“-Quero aquele ali, o de carapuço”.
Pouco tempo depois estávamos frente a frente, a falar como dois conhecidos por entre movimentos de anca e mãos atrevidas. Sorríamos sem entendermos muito bem a fronteira dos limites e deixávamo-nos ir até que eles se decidissem a aparecer.
“-‘Tás a curtir?”
“-Muito”. - Confessei. Foi o preço que valeu o teu sorriso, mesmo antes de te desejar um feliz aniversário.
Aquela voz encorajadora que te levara até mim enviava-me agora mensagens escritas num tom imperativo, ordenando que me aproximasse mais de ti:
«Chega-te mais, já!» – como se isso fosse possível. O certo é que foi e, o mais engraçado, foste tu quem avançou.
Nunca tinha arriscado assim, nunca fui de agir assim mas, na hora, admiti a mim mesma que aquele tipo de adrenalina me aliciava.
A partir daí a noite foi nossa e as músicas pertencem-nos.
«Já ‘tá».
«Diverte-te, estou sempre a olhar para ti. Qualquer merda dois passos estou aí».

[11.02pm]

12/11/2009

~ Santarém, trânsito

Santarém, trânsito. O teu citroën C3 na faixa da esquerda e o volvo em que eu seguia na da direita. A meio das minhas cantorias amadoras com a rádio como fundo, olhei por olhar, como é hábito de quem fica preso num engarrafamento, e fui encontrar o teu olhar fixo no meu. Há quanto tempo estavas assim eu não sei e até confesso que fiquei embaraçada. Desviei a cara, os carros avançaram a par um do outro. Pouco depois espreitei e lá continuavas tu.
Não sabendo como reagir, prendi instintivamente uma madeixa de cabelo atrás da orelha como sempre acontece quando fico nervosa, ou se calhar até o fiz como o truque feminino mais básico e antigo de sempre, e cheguei-te a lançar qualquer coisa como um sorriso meio envergonhado. Retribuíste-mo. No segundo a seguir, o volvo arrancou e tu ficaste para trás. "Via verde para a esquerda".

[01.12pm]

18/08/2009

~ (in)afectados

- Lixo em mim? Só nas unhas.

Não sei o que se passa com vocês, pessoas de mentes entupidas de lixo. Têm visões deturpadas de uma realidade que não existe, a vossa vista é completamente turva e está contaminada com substâncias que, muito sinceramente, apesar de não saber o que se passa em concreto com vocês, penso estar apta para as transformar. Se ao menos me dessem essa oportunidade...
As vossas noções são todas distorcidas e baseadas em algo à partida errado que, honestamente, gostava que me explicassem do que se trata, mas aparentemente esse vírus que carregam impossibilita a vossa capacidade de comunicação e de se conseguirem expressar de uma forma, digamos, mais adulta. Se não querem remover a lixeira que vos atulha o cérebro, se preferem viver na sujidade, isso é lá convosco, não sou eu que vos vou convencer contrariando a vossa livre e espontânea vontade, de qualquer maneira a minha profissão também nunca foi a de lixeira, nunca tive muito jeito para esse negócio que é varrer ruas. Além disso já faz muito tempo que me deixei de me preocupar com pessoas que não valem a pena, que obtém prazer em bater com a cabeça na parede vezes e vezes sem conta e ainda para mais que não me dizem muito (se ao menos falassem...). Não as percebo, a essas nojentas criaturas casmurras com palas nos olhos como vocês, mas ao menos consigo-as respeitar. Respeito porque nada tenho a ver com isso e a minha consciência em relação a essa distância conveniente, graças ao meu senhor lixeiro, encontra-se tudo menos poluída.
Essa cegueira suja e voluntária é problema vosso, a maneira que adoptaram no meio de tantas outras de ver as coisas, é o vosso modo de vida que não vos foi imposto por ninguém. É uma opção e não uma obrigação. Desde que não se metam comigo, que se fechem no vosso mundo mas que não me dêem a chave, desde que não me arrastem a mim e aos meus convosco, não vejo porque me importar com isso, uma vez que já tentei, em vão, desinfectar-vos mas, e mais uma vez, polir passeios e limpar becos nunca foi a minha vocação.
Agora só espero que permaneçam assim, se fizeram escolhas, ainda que tenham como base suposições e deduções de julgamentos mal formulados, ao menos que as saibam manter e sabê-las permanentes, voltar atrás nas decisões tomadas não é coisa digna de pessoas de temperamentos estáveis e equilíbrios constantes e eu sei que essa vossa doença vos faz intitular-vos como tal. Se tomaram posições, que as assumam até ao fim. Não se atrevam também a esfregar-me na cara a imundice que se recusaram a lavar, culpando-me de resíduos que não acumulei. Se o experimentarem também não irá passar de mais uma tentativa falhada, afinal de contas eu mantenho um espaço considerável que me permite ter alguma segurança, falo da tal distância conveniente e com essa sei eu lidar. Além do mais sou uma pessoa saudável, tomo os comprimidos nos horários certos quando necessário mesmo quando desconfio das receitas aviadas, mesmo que a minha opinião divirja da do médico. No final, quem é que percebe mais de medicina? - Quem está por dentro da situação, quem vive o assunto, claro está (- E claro é sinónimo de limpo).
Eu cá ainda estou lúcida o suficiente para distinguir o que é correcto do que não é, ainda sei que não cometi asneiras uma vez que soube sempre separar as embalagens depositando-as nos sítios certos. Sabem, para mim é mais do que um estilo de vida, é o meu estilo de vida; trata-se de uma opção, não de uma obrigação.

[10.49pm]

24/06/2009

~ faixa 9

"Je ne t’aime plus mon amour, je ne t’aime plus tout les jours".

Entras como se a casa fosse tua, porém, sem teres a chave. Serves-te sozinho da limonada que te espera no cimo do balcão da cozinha e sobes as escadas sem nunca te enganares na direcção. Quando dás com o meu refúgio, colocas o primeiro cd da pilha de discos na aparelhagem e escolhes sempre a faixa 9.
De seguida, quando pulsas o desejo e me puxas para ti, lavas-me a alma através do teu corpo nu. Quando o encostas ao meu, arrepias-me desde o fundo da espinha e violas-me os pensamentos. Invades-me o espírito e palpitam-me loucuras que se revelam quando te imploro, silenciosamente, que me devores. Aí, olhas-me como um possuído e estudas-me cada recanto do corpo sem pudor ao mesmo tempo que me exploras os sentimentos.
Depois é tempo de te saborear. Percorro todos os teus poros beijando-te até ao umbigo bem desenhado. Com a ponta dos dedos traço linhas dos quadrados que mais parece pertencerem a uma tablete industrial de chocolate na tua barriga lisa em forma de V, em homenagem à nossa estação do ano. A seguir faço-te suar como mais ninguém o consegue fazer enquanto cravo as unhas nas tuas costas escorregadias e te sugo os sentidos. Puxas-me o cabelo para trás, mordiscas-me a orelha esquerda e colas-me em ti uma vez mais, acelerando-me a respiração ofegante que, a par da tua, se vai tornando cada vez mais intensa.
No final, antes que me espetes uma estaca no coração, alimento-me só mais um bocadinho de ti, como sempre faço, qual vampira esfomeada para que, mesmo que nunca mais tenhamos destes nossos momentos de doce loucura adolescente, mesmo que só te possa monopolizar durante uma noite na nossa intimidade, te lembres de que foi real a minha presença em ti, em todos os possíveis aspectos, e para que ninguém possa contrariar a natureza da notre folie a deux.

[03.50pm]

02/12/2008

~ 7 min.

Esperou que a casa mergulhasse no silêncio. Esperou que a agitada inquietude do ‘entra e sai’ atenuasse para ter os seus sete minutos de paz. Embalada pelas melodias calmas do seu velho e gasto mp3, dirigiu-se à caixa de sapatos esquecida na penumbra, mesmo por debaixo da cama, e arrastou o seu secreto e proibido tesouro. Dele retirou outra pequenina caixa de cartão com palavras impressas e foi sentar-se na soleira de pedra fria da sua varanda. Tirou um cigarro do maço e acendeu-o protegendo, com as mãos, a pequenina chama que ameaçava teimar em não ficar por muito tempo. Seria assim, a sua felicidade? Inconstante como uma chama que, ao mínimo sopro, se deixa extinguir?
Nunca conseguia deixar de pensar nos baixos da sua vida naqueles sete minutos. Serviam para afastar o que de mais deprimente houvesse mas traziam sempre consigo uns instantes nostálgicos (e dos bons!).
Encostou a cabeça ao vidro, observando o fumo que se lhe escapava da boca e, de repente, reparou no céu que estava triste, com um ar pesado e carregado, de quem precisava de desabafar (ainda estamos a falar do céu?). Perdida num misto de pensamentos e suposições, esqueceu-se de sentir por um momento. Esqueceu-se da razão pela qual a sua mente procurava por respostas que pareciam inventadas somente para perguntas retóricas. Esqueceu-se do seu ponto fraco; da pessoa que lhe virava o raciocínio ao contrário e trocava as voltas do seu relógio invisível. Esqueceu-se de se lembrar de fazer a habitual retrospectiva da sua “cena não vivida”.
Era por isto que o sabor do seu pequeno segredo tinha um gosto tão bom. Enquanto os phones sussurravam ao seu ouvido “I think the finish line’s a good place we could start” e o vento apressado, como sempre nesta época do ano, brincava com o seu cabelo quase preso num quase cuidado rabo-de-cavalo, o trago – não muito – amargo e suave do sabor que lhe preenchia o espírito e limpava a alma, vinha juntar-se ao ambiente na mais perfeita harmonia. “Tell me that you’ll open your eyes”.
Criavam-se, assim, os seus raros segundos de abstracção dos seus breves sete minutos de fama consigo mesma.


[09.27pm]

30/09/2008

~ lamento, meu amor

in a home that's cold and gray, will we have a sunny day?

Está frio aqui! Deixaste as janelas abertas quando saíste? Sinceramente não me lembro se as fechaste todas, a minha memória já começa a falhar. Não me recordo de tanta coisa…
Não te importas de voltar? Só para te certificares de que, na realidade, não corre nenhuma aragem aqui desde que partiste, quero dizer. Se pudesse, eu própria trancaria todas as portadas mas estou paralisada. Será do frio? Creio que tenho vindo a congelar aos pouquinhos. Não sinto os pés mesmo estando com dois pares de meias (mesmo sendo um deles de lã grossa, por sinal). Do meu nariz, vermelho e enregelado, libertam-se ritmadamente névoas de ar concentrado (parece até neblina). Soltam-se no mesmo compasso com que outrora eu te ouvia entrar com um passo em marcha lenta em que as tuas habituais solas de borracha gemiam contra a tijoleira do chão.
Cá dentro é tudo frio. Sempre foi assim ou estarei eu só agora a aperceber-me de que estas paredes são feitas de papel vegetal? A tua ausência deixou esta casa vazia... oh, espera! Era a tua presença que a aquecia?
Lamento só agora estar a entender esta atmosfera toda que me envolve. O que eu não dava por não estar a assistir a isto com estes meus olhos secos e vidrados. Agora, não me consigo mexer. Demorei muito meu amor, é tarde demais. O frio, ao contrário de ti, veio para ficar. E o meu coração? Será que ainda o tenho ou… meu Deus, será que durante este tempo todo tive sempre um bloco de gelo incrustado no lugar do coração? Já não sinto nada, o gelo consumiu-me até às entranhas.
Não posso fazer muito mais; não posso fazer mais nada, aliás.
Lamento (muito), meu amor.

01/09/2008

~ no mundo és mais que o mundo

Já viajei para sítios que nem sei apontar no globo, lugares que nem no mapa eu sabia existirem. Já pisei terras tropicais com altas e majestosas palmeiras – daquelas com cocos pendentes no cimo – a decorar as mais exóticas paisagens mas nunca me senti tão bem como quando estás por perto. Já senti coisas que nunca pensei que poderia vir a sentir. Sentimentos que nunca imaginei que me desconcentrassem tanto e me deixassem à deriva invadiram-me com uma força brutal mas nenhum deles se assemelharam aos que me fazes sentir, que são mil vezes piores (ou deverei dizer melhores?). Já respirei ambientes mais abafados e quentes do que o próprio café fumegante que sai directamente da cafeteira ainda a escaldar mas nenhuma temperatura é capaz de superar aquela que, se tivesse um, atingiria o termómetro quando estou contigo. Nunca ninguém me despertou demasiada atenção porque nunca ninguém foi, para mim, demasiado importante para tal (mas depois apareceste tu…). Também nunca me dediquei a cem por cento a algo que não valesse realmente o esforço (excepto à nossa relação). Acredita, molhei a ponta dos pés no Atlântico e no Índico e outrora senti os ventos mais fortes e violentos soprarem-me no pescoço e sussurrarem-me ao ouvido mas nenhum deles me conseguiu provocar um arrepio maior do que aquele que entra sem pedir licença e me percorre a espinha quando me tocas. E, quando me olhas nos olhos, consegues ter ainda mais brilho do que pirilampos a dançar aconchegados pela lua cheia. Quando chego perto o suficiente para me ver na íris dos teus olhos e, assim, te penetro a alma, garanto-te que tens os olhos mais cintilantes do que as luzes das ruas de Nova Iorque à noite.
Acho que por mais maravilhas com que me encham os olhos, por mais emoções que me queiram proporcionar e por mais sujeita a situações indescritíveis a que eu esteja, nada se iguala às sensações que me provocas. Por mais mínimo que o sentimento possa parecer, é sempre mais grandioso aquilo que me fazes sentir. Numa frase posso afirmar: tudo se resume a ti. Numa palavra consigo dizer tudo o que me importa agora mais do que qualquer outra coisa: tu.

[11.58pm]

13/08/2008

~ decora-me por todo

"(...) one thing got left to do,
discover me discovering you. (...)
your body is a wonder(land)
where I lose my hands"


Contorna-o com a ponta dos dedos e vai cantando, baixinho, a nossa canção. Delina-o; desenha-o, sente. Sente-me viva nele.
Sentes o meu corpo respirar o teu?
Sentes o teu corpo a transpirar colado ao meu?

Agora pousa a quadrícula de chocolate nos teus lábios que eu vou lá, de mansinho, roubar-ta com os meus. Deixa-a derreter no meio do calor das nossas bocas fundidas. Deixa-a desaparecer na forma abstracta do vermelho que dá cor ao nosso beijo.
Vem deitar-te aqui. Puxa a almofada e chega-te para mim. Enrosca-te e adormece comigo. Mas antes, antes de tudo, sente a essência de mim; sente do que sou feita, sente-te a ti.

[01.27am]

04/08/2008

~ mudos sinais

Por um segundo desvio o meu olhar paralisante da multidão para procurar o isqueiro desorientado no meio da confusão da mala. Enquanto lhe dou uso, reparo na bebida que já só tem o suficiente para um gole e depressa deixo o copo vazio. Ao pousá-lo, encontro-te através do vidro, entre meio limão semi-espremido e cubos de gelo picado. Subo o olhar, em toque despercebido e, subitamente, vejo que reparas em mim. Finjo-me, então, distraída, como que absorvida pela multidão que te rodeia; como se o cruzar dos nossos olhos se tivesse dissolvido no ar a par da névoa de fumo que rodeia a minha boca e me tivesse passado ao lado. Disfarçadamente ajeito o meu brinco com missangas da Índia e brinco com uma madeixa enrolando-a no dedo e soltando-a, ficando com um caracol a mais no cabelo descuidado. Noto que observaste com algum detalhe o deambular das minhas unhas-escarlate que batem contra o tampo da mesa num ritmo calmo mas inquietante. Olho em redor, já chega de centrar a minha atenção toda em ti. Puxo mais uma vez do cigarro e, sem querer, enquanto desfaço os pedaços de gelo que se sobrepõem desde o fundo do copo até meio com duas pequenas palhinhas pretas, ouço fragmentos de conversas de pessoas que passam, uma gargalhada exagerada – porém ocasional – de alguém da mesa de trás, um bater frenético de pulseiras num pulso agitado de alguém excessivamente entusiasmado que se encontra por perto (…). Levanto a cabeça e, nesse instante, lanças-me um olhar demasiado confiante e brindas-me com um sorriso triunfante de orelha-a-orelha. “Já foste”, pensas. Olho-te fixamente num sobrolho desalinhado e, como se de telepatia se tratasse, transmito-te com a expressão do olhar: “querido, não me dês como garantida”. Depois de sentir o forte e reconfortante sabor do último travo, esmago a ponta do cigarro no centro do cinzeiro que parece brilhar com os candeeiros nocturnos da esplanada nele reflectidos. Pego na minha bolsa e arrasto a cadeira, pondo-me de pé. Mentalmente, faço-te compreender: “Demoraste demasiado tempo a aproximares-te da minha mesa e avaliaste-me pela caipirinha nela pousada. Quem te diz que há dois dias atrás não estiveram dois shots diante de mim? (a experiência de ler pessoas que julgas ter, talvez…)”. Pressinto que recebeste a mensagem pelo que permaneceste estático, o que veio deitar por terra a tua postura de rei. “Retraíste-te com o meu olhar reprovador de quem não é isco fácil. Não devias.

[03.20am]

25/07/2008

~ diferentes "céus"

Desligou o candeeiro que alimentou a luz das estrelas do seu céu artificial. Fê-lo com determinação, como se uma nova vida começasse a nascer a partir daquele mesmo instante, vindo substituir uma anterior atirada com a mesma determinação para o balde do lixo. Ir lá para fora apreciar o verdadeiro céu, com estrelas reais, seria como se estivesse a sentir algo de muito bom e a desobedecer a regras e normas rigorosas. Como tal, condicionou-se; privou-se de ficar sob um céu quase palpável capaz de fazer transportar pensamentos – até mesmo os dela, espessos e pesados – para bem longe, muito longe dali. Trocou o infinito manto azul revestido pelo ténue véu cintilante por formas imitadoras de estrelas e luas opacas com um "quase brilho temporário". Apesar de estar ciente dos poucos fascínios que aquele céu falso lhe proporcionaria, sempre foi muito crente, até com as coisas mais pequenas. Desiludiu-se, então, por ter escolhido o tecto limitado e coberto de insignificantes pontos com cinco bicos e adormeceu. Cega dos diferentes tons escuros-enigmáticos da verdadeira realidade.

[11.47am]

06/07/2008

~ (n)a rede de balanço


No quarto, com um véu de menta queimada a pairar no ar, todas as recordações pareciam dissolver-se na névoa de aromas de suaves perfumes de Verão, de relva fresca e de incenso a arder.
A rede de balanço branca com franjas pendentes, aparenta já não contar histórias de finais de tardes escaldadas pelo sol que costumava assaltar a janela como quem requer a atenção de alguém que está demasiado absolvido com "coisas sérias". Tardes, essas, acompanhadas de sons harmoniosos vindos de espanta-espíritos movidos pela brisa suave, que competia com os raios de sol para entrar pelo quarto adentro, e repletas de companhias, das que fazem doer a barriga de tão contentes que ficamos. Parecia já não lembrar os corpos que lá se uniam em Invernos rigorosos (Invernos que apareciam quase sem avisar aqueles que nem davam conta do tempo a mudar e a passar, lentamente através das vidraças já gastas daquelas janelas) e que lá trocavam cumplicidades e beijos como natas em volta das bocas que transparecem a satisfação causada pelo chocolate quente que geralmente arrefecia nas grandes canecas, outrora pousadas no soalho do chão, que ainda hoje o marcam com pequenos círculos que passam despercebidos a todos os alheios às frescas tardes de Verão e às quentes noites de Invernos – que pareciam ter trocado de lugares – vividas a dois naquele pequeno espaço de "secretos mistérios".
Agora, neste Verão sem sussurros selados ao ouvido e gargalhadas em uníssono, a rede branca ficará quieta e suspensa, envolvida pelo incenso (de menta) que reveste as paredes daquele quarto, mais sozinha e inútil do que já alguma vez ficara. Mas então, não se lembrará de todas estas maravilhosas memórias? Será que, realmente, já não as guarda?

[11.46am]

03/06/2008

~ mundos cruzados; mundos (entre)calados

Quisera sair com o cão. Deixou-se passear por ele durante algum tempo até se aperceber aonde queria passar. Subiu a rampa de asfalto escuro e de repente viu-se rodeada de pessoas que lhe eram totalmente estranhas. Puxou mais a trela para junto de si e continuou o seu caminho. Atravessou a rua iluminada com dois candeeiros fracos e só conseguiu distinguir sombras graças às lâmpadas fluorescentes e ofuscantes das roulotes estacionadas à sorte e apinhadas de gente que mais parecia formigas a lutarem pelo mesmo pedacinho de açúcar. Quando chegou ao chão com aquele símbolo de bússola desenhado no qual já se tinha sentado inúmeras vezes, parou. O cão puxara-a incentivando-a a avançar e a continuar a caminhada. Decidiu seguir em frente mas quando se deparou com a porta de vidro mobilizou o corpo uma vez mais. Ele estava lá dentro, estavam todos, tal como previra. Noutras circunstancias teria entrado e ficado um pouco à conversa mas não queria perturbar aquele quadro. Além disso a entrada a cães era proibida. Parou de arranjar desculpas para, na realidade, não ter que se deparar de perto com os tristes vícios que o estava a consumir; que os estavam a consumir. Já tinha assistido àquilo uma vez e havia chorado sem dizer o que quer que fosse. Não queria ver novamente aquela cena. Se aquele era o mundo deles, aqueles que eles haviam escolhido, então não era daquele mundo que ela queria fazer parte. Não era aquele tipo de experiências que ela queria partilhar (com eles). Não pertencia ali; não permaneceria mais naquele lugar que subitamente se tornara desconhecido. Desviou o cão e rodou nos calcanhares. Virou costas e voltou para trás. Passou pelas roulotes agora vazias, desimpedidas da agitação que se fizera sentir meia hora antes. Pagou cinco e veio a comer uma delas pelo caminho com o saco quente das farturas numa mão e a trela do cão que pedinchava por comida na outra. Com a boca ainda enfarinhada e as mãos gordurosas, tirou as chaves do bolso das velhas calças de ganga largas e encaixou-as na fechadura. Era ali aonde queria ficar; era daquele mundo do qual sentia fazer parte.

[03.13am]