Se não for este o processo natural das coisas, como é que me explicas o nosso inesperado reencontro? Exactamente seis meses foi o tempo que passou desde a última vez que te vi até virmos aqui parar, ao mesmo sítio, à mesma hora. À mesma mesa de jantar. Avisaram-me uns quinze minutos antes de entrares em cena, e foi precisamente esse o quarto de hora que levei para digerir a informação, para acalmar a alma e sossegar o coração, para perceber que, afinal, já lá ia algum tempo desde que eu trancara o ressentimento a sete chaves e preservara o pouco que de bom nós tivéramos. Foi então que, como quase sempre acontecia contigo, vinda de não sei donde, tu apareceste. E caíste de pára-quedas, por ironia do destino ou por uma mera coincidência trocista, mesmo que eu não acredite em coincidências, na cadeira vaga ao meu lado. Vi-me forçada a alugar uma nova morada para a minha mala e para o meu casaco para que te instalasses, passados um ano e uma semana de te ter conhecido, a uns escassos centímetros de mim.
Foi assim, sem dó nem piedade que te atravessaram uma vez mais no meu caminho sem me pedirem licença ou sequer me perguntarem se eu me importava. Foram as regras básicas da boa educação que me levaram a cumprimentar-te, logo de seguida ao misto de incredulidade e de outra expressão qualquer que não consegui sacar do teu rosto, a par daquilo a que se assemelha o respeito, um dos poucos sentimentos que, durante aqueles angustiantes quinze minutos após te terem anunciado, eu percebi que sempre nutriria por ti. Foi então que me colocaste a mesma pergunta que me fizeste da primeira vez que te ouvi falar. Agora que me foste apresentado pela segunda vez, sei que a tua primeiríssima introdução quando conheces alguém se baseia num “olá, tudo bem?” e desta vez atiraste-a do alto da tua lucidez; da tua sobriedade.
Fiquei embaraçada ao reconhecer o seu tom, já me tinha esquecido do quão bem colocado é o som da tua voz e de como o teu sotaque anasalado faz soar as palavras que dizes, dando-te um certo charme ou algo parecido com isso, ainda não encontrei o termo correcto. O ambiente ficou constrangedor e confesso que, se não te tivessem mudado de lugar tão rapidamente, não sei do que teria sido acompanhado o meu jantar, se de batatas e desconforto ou se de batatas e conversas de ocasião o que, afinal de contas, não diferenciam muito uma hipótese da outra.
Quando, por força das circunstancias, te viste obrigada a mover-te dois lugares de distância de mim numa espécie de diagonal mal feita, fui automaticamente inundada por um alívio instantâneo, porém por um ligeiro sentimento de pena ou algo do género por saber que não iria conseguir iniciar mais qualquer tipo de diálogo contigo durante o resto da noite. Responder-te-ia de bom grado, não me leves a mal, mas o meu problema de comunicação verbal não me deixaria ir muito mais além disso. E de olhares mal disfarçados pelo canto do olho.
Continuavas elegante, com o mesmo porte que tinhas da última vez. Estavas um pouco mais morena, tal como eu e, apesar de envergares um blazer daqueles todos pipis com botões de punho, não me pareceste tão bonita como quando te deixei num daqueles que foram dos dias mais estranhos que já vivi, a uns metros depois da tua porta. Estavas toda catita, no teu habitat natural com os da tua espécie. Só eu continuava deslocada, os jantares entediantes insistem em requerer a minha presença só para eu manter a postura enquanto a vida me renega, apontando-me o dedo e rindo-se de mim e à minha custa.
A anedota continuou, as conversas cruzadas faziam-se ouvir e as passagens obrigatórias para as habituais idas à casa-de-banho ou para a escapadela rápida até ao hall de entrada para o indispensável cigarrinho no final da refeição, faziam-me desviar um bocado da minha atenção para ti e, julgo, os teus olhos – os tais cor de azeitona – na direcção dos meus cor de amêndoa, de quando em vez.
Não achas irónica a maneira como sempre acabamos por nos encontrar? Eu cá cheguei a achar um eufemismo estar sentada contigo ao lado, qual o casal tímido que nunca chegamos a ser, com um pequeno prato de croquetes, imagine-se, espetado à frente dos nossos narizes. O que vale é que eu não lhes acho graça nem tu te lembraste de lhes pegar. Pois tenho a dizer-te, minha querida, que continuas a fazer jus à fama que manténs, que possuis o mesmo carisma e a mesma maneira de falar por olhares, mesmo quando te desvias no derradeiro instante da recolhida, não sei se para guardares a minha imagem com pressa de que a antiga se resuma a uma memória poeirenta, se para analisares os meus traços uma última vez porque sabes que eu não tenho a lata de te convidar para um café se da última vez te mandei foder e porque sabes não te vir a apetecer, tão brevemente, ter dois dedos de conversa e manter o contacto comigo, não sabendo assim, como sempre acontecia connosco, se haverá próxima vez em que colocar-me-ás essa vista ‘azeitonada’ em cima.
Tentei despedir-me de ti adequadamente, com dois beijinhos um pouco mais ao lado do sítio que há muito deixara de ter o direito de beijar mas, mais uma vez, a vida e as situações que esta implica quiseram manter-nos naquele perímetro de distância segura com o qual fomos ficando cada vez mais familiarizadas fazendo com que, tão fugazmente como me apareceste à frente, ou ao lado, não tivéssemos oportunidade para nos despedirmosem condições. Por isso limitei-me a lançar-te um ‘tchau’ ao jeito de calão como se de um boomerang se tratasse que tu imediatamente fizeste questão de me retribuir, tu e os outros que não entenderam que as minhas despedidas são todas feitas no singular, ainda que não deixem de fazer sentido para múltiplas pessoas.
E foi desta maneira que a vida, ou o destino, ou o karma, por silenciosamente te ter invocado tantas vezes no passado, ou outra coisa qualquer, me veio abalar um bocadinho mais, mexer nas pontas dos laços mal atados que inevitavelmente vou acumulando ao longo dos anos para me lembrar que “estabilidade” e “tranquilidade” são palavras temporárias que nunca se dão por garantidas na minha vida, que não passam de palavras de ordem cujo significado não pode, por mim, ser proferido muitas vezes, como se o seu conteúdo perdesse validade a cada vez que eu as pronunciasse.
E foi este o modo que a vida, o destino, o karma ou outra qualquer coisa que vai alterando o meu percurso e modificando as minhas ligações com as pessoas arranjou para nos lembrar de que o xadrez é, essencialmente, um jogo de estratégia que se pode utilizar mais do que uma vez e que, embora seja improvável, é possível fazer-se xeque-mate duas vezes ainda que seja imprescindível conjugar-se uma série de condições que, tanto eu como tu não nos querermos dar ao trabalho de reunir.
Foi esta a forma com que a vida, o destino, o karma ou essa outra coisa qualquer nos fez estar, novamente, lado a lado, foi essa a maneira que encontrou para me recordar que tu, sedutora como sempre, nunca passaste da minha foda de quinze minutos, curiosamente o tempo que eu aguardei para te conhecer uma segunda vez.
E não sei se és tu que o és, se a vida, o karma ou se a tal outra possível razão desconhecida que o é mas, se um destes motivos não fosse previsível, eu não apostaria um movimento tão arriscado no nosso jogo de tabuleiro ao afirmar que tu estás, com certeza, aqui, a ler os meus devaneios auto-biográficos. - Há muito mais do que quinze minutos, diria eu.
Foi assim, sem dó nem piedade que te atravessaram uma vez mais no meu caminho sem me pedirem licença ou sequer me perguntarem se eu me importava. Foram as regras básicas da boa educação que me levaram a cumprimentar-te, logo de seguida ao misto de incredulidade e de outra expressão qualquer que não consegui sacar do teu rosto, a par daquilo a que se assemelha o respeito, um dos poucos sentimentos que, durante aqueles angustiantes quinze minutos após te terem anunciado, eu percebi que sempre nutriria por ti. Foi então que me colocaste a mesma pergunta que me fizeste da primeira vez que te ouvi falar. Agora que me foste apresentado pela segunda vez, sei que a tua primeiríssima introdução quando conheces alguém se baseia num “olá, tudo bem?” e desta vez atiraste-a do alto da tua lucidez; da tua sobriedade.
Fiquei embaraçada ao reconhecer o seu tom, já me tinha esquecido do quão bem colocado é o som da tua voz e de como o teu sotaque anasalado faz soar as palavras que dizes, dando-te um certo charme ou algo parecido com isso, ainda não encontrei o termo correcto. O ambiente ficou constrangedor e confesso que, se não te tivessem mudado de lugar tão rapidamente, não sei do que teria sido acompanhado o meu jantar, se de batatas e desconforto ou se de batatas e conversas de ocasião o que, afinal de contas, não diferenciam muito uma hipótese da outra.
Quando, por força das circunstancias, te viste obrigada a mover-te dois lugares de distância de mim numa espécie de diagonal mal feita, fui automaticamente inundada por um alívio instantâneo, porém por um ligeiro sentimento de pena ou algo do género por saber que não iria conseguir iniciar mais qualquer tipo de diálogo contigo durante o resto da noite. Responder-te-ia de bom grado, não me leves a mal, mas o meu problema de comunicação verbal não me deixaria ir muito mais além disso. E de olhares mal disfarçados pelo canto do olho.
Continuavas elegante, com o mesmo porte que tinhas da última vez. Estavas um pouco mais morena, tal como eu e, apesar de envergares um blazer daqueles todos pipis com botões de punho, não me pareceste tão bonita como quando te deixei num daqueles que foram dos dias mais estranhos que já vivi, a uns metros depois da tua porta. Estavas toda catita, no teu habitat natural com os da tua espécie. Só eu continuava deslocada, os jantares entediantes insistem em requerer a minha presença só para eu manter a postura enquanto a vida me renega, apontando-me o dedo e rindo-se de mim e à minha custa.
A anedota continuou, as conversas cruzadas faziam-se ouvir e as passagens obrigatórias para as habituais idas à casa-de-banho ou para a escapadela rápida até ao hall de entrada para o indispensável cigarrinho no final da refeição, faziam-me desviar um bocado da minha atenção para ti e, julgo, os teus olhos – os tais cor de azeitona – na direcção dos meus cor de amêndoa, de quando em vez.
Não achas irónica a maneira como sempre acabamos por nos encontrar? Eu cá cheguei a achar um eufemismo estar sentada contigo ao lado, qual o casal tímido que nunca chegamos a ser, com um pequeno prato de croquetes, imagine-se, espetado à frente dos nossos narizes. O que vale é que eu não lhes acho graça nem tu te lembraste de lhes pegar. Pois tenho a dizer-te, minha querida, que continuas a fazer jus à fama que manténs, que possuis o mesmo carisma e a mesma maneira de falar por olhares, mesmo quando te desvias no derradeiro instante da recolhida, não sei se para guardares a minha imagem com pressa de que a antiga se resuma a uma memória poeirenta, se para analisares os meus traços uma última vez porque sabes que eu não tenho a lata de te convidar para um café se da última vez te mandei foder e porque sabes não te vir a apetecer, tão brevemente, ter dois dedos de conversa e manter o contacto comigo, não sabendo assim, como sempre acontecia connosco, se haverá próxima vez em que colocar-me-ás essa vista ‘azeitonada’ em cima.
Tentei despedir-me de ti adequadamente, com dois beijinhos um pouco mais ao lado do sítio que há muito deixara de ter o direito de beijar mas, mais uma vez, a vida e as situações que esta implica quiseram manter-nos naquele perímetro de distância segura com o qual fomos ficando cada vez mais familiarizadas fazendo com que, tão fugazmente como me apareceste à frente, ou ao lado, não tivéssemos oportunidade para nos despedirmos
E foi desta maneira que a vida, ou o destino, ou o karma, por silenciosamente te ter invocado tantas vezes no passado, ou outra coisa qualquer, me veio abalar um bocadinho mais, mexer nas pontas dos laços mal atados que inevitavelmente vou acumulando ao longo dos anos para me lembrar que “estabilidade” e “tranquilidade” são palavras temporárias que nunca se dão por garantidas na minha vida, que não passam de palavras de ordem cujo significado não pode, por mim, ser proferido muitas vezes, como se o seu conteúdo perdesse validade a cada vez que eu as pronunciasse.
E foi este o modo que a vida, o destino, o karma ou outra qualquer coisa que vai alterando o meu percurso e modificando as minhas ligações com as pessoas arranjou para nos lembrar de que o xadrez é, essencialmente, um jogo de estratégia que se pode utilizar mais do que uma vez e que, embora seja improvável, é possível fazer-se xeque-mate duas vezes ainda que seja imprescindível conjugar-se uma série de condições que, tanto eu como tu não nos querermos dar ao trabalho de reunir.
Foi esta a forma com que a vida, o destino, o karma ou essa outra coisa qualquer nos fez estar, novamente, lado a lado, foi essa a maneira que encontrou para me recordar que tu, sedutora como sempre, nunca passaste da minha foda de quinze minutos, curiosamente o tempo que eu aguardei para te conhecer uma segunda vez.
* * *
E não sei se és tu que o és, se a vida, o karma ou se a tal outra possível razão desconhecida que o é mas, se um destes motivos não fosse previsível, eu não apostaria um movimento tão arriscado no nosso jogo de tabuleiro ao afirmar que tu estás, com certeza, aqui, a ler os meus devaneios auto-biográficos. - Há muito mais do que quinze minutos, diria eu.
[02.56am]
16 comentários:
Não li O Chocolate.
Estou a gostar dos Sapatos ;)
Ah :b
Claro, inex_tmg@hotmail.com (a conta do blog é igual mas da "gmail.com").
Que querida, obrigada..:) Também gosto muito do teu cantinho :)
Beijinho!*
és sempre extraordinária. não és?
Um dia vou acreditar. Um dia vou ter tantos amor bonitos como tu.
Se ela lê ou não não sei, mas olha que eu cá sou presença assídua ;)
é um gosto ler-te
Acho que não consigo escrever um comentário digno para este texto.
Digo, ainda que muito humildemente, que adoro a tua forma de escrever. És eficaz, transparente... e deliciosamente aterradora com as palavras!
:)
Acrescento, que me identifiquei verdadeiramente com este excerto:
"E foi desta maneira que a vida, ou o destino, ou o karma, (...) me veio abalar um bocadinho mais, mexer nas pontas dos laços mal atados que inevitavelmente vou acumulando ao longo dos anos para me lembrar que “estabilidade” e “tranquilidade” são palavras temporárias que nunca se dão por garantidas na minha vida, que não passam de palavras de ordem cujo significado não pode, por mim, ser proferido muitas vezes, como se o seu conteúdo perdesse validade a cada vez que eu as pronunciasse."
Nunca posso/poderei tomar as palavras 'estabilidade' e 'tranquilidade' como presenças assíduas do meu estado. Hoje estão, amanhã ou além foram-se... Tão depressa como apareceram.
Um beijinho :) *
Adorei, adorei mesmo! :)
UAU. Oh Qel este é dos teus melhores, e falar de melhores textos teus é irrisório. A fasquia é sempre alta.
*há um selinho no meu blog para ti acho que resume tudo aquilo que possa dizer.
Estou abismada com este bolas!
Acho que te portaste muito bem nessa situação, e não deve ter sido nada fácil tendo em conta tudo o que já vinha de trás. Parabéns por essa força, e continua pois parece-me que vais precisar dela se por acaso anda mesmo a ler-te.
tenho uma coisa para ti no meu espaçinho ♥
para mim, este é sem dúvida um dos melhores.
adorei :)
beijinhos Qel.
Fuck. Tou aqui de queixo caido. Muito, muito bom.
Está mesmo lindissimoO fico sempre espantado com o ke escreves tudo tão simples e tão harmonico muito bom mesmo =D beijinho =D
um dos melhores.
beijinho Raquel. :) *
sabes o que vejo? amor.
adorei, como adoro sempre que leio o que escreves :')
Enviar um comentário