"(...) (and baby all I need for you to know is) I'm like a bird, I'll only fly away,
I don't know where my soul is, I don't know where my home is".
Uma vez quando era pequena disse, na brincadeira, que gostava de "homens com pêlo no peito e cheiro a cavalo". Sempre fui um tanto ou quanto criativa nas minhas respostas mas esta custou-me cara: ainda hoje, anos indos, as minhas amigas do coração – que são também as de infância – me gozam por causa de tamanha "confissão". A verdade é que não há verdade. Como a mais comum das mulheres, gosto de homens bem cheirosos e, claro, com pêlos qb. No entanto, hoje, com 22 anos e um bocadinho mais de sabedoria em matérias de géneros, não posso deixar de reparar que, na realidade, havia alguma ciência na frase que, por mero acaso proferida, se tornou tão célebre: chego à conclusão de que os homens com carinha de bebé e demasiadamente atenciosos me irritam. Não me interpretem mal, sou uma romântica incurável e até entro no espectro das que reconhecem que, por vezes, exigem demais mas, admito, talvez faça mesmo parte do cliché "as mulheres nunca estão bem com o que (não) têm; nunca estão satisfeitas com nada".
Chamem-me desvairada mas eu acho piada àquele compasso de espera entre o não ter a certeza mas querer adivinhar que, por exemplo, está para cair uma mensagem de bom dia no visor do telemóvel ou uma piada privada qualquer na caixa de entrada do e-mail e, admito, adoro a pequena pontada de desilusão que – oh, que pena! –, chega a seguir à falta de sinais de vida do outro lado, de quando em vez. De uma maneira simples e brejeira de me explicar, arrisco-me a dizer que gosto de não ter logo a garantia antes de adquirir o produto, sou defensora de que assim é que deve ser.
No fundo, aprecio muito o meu espaço e quem respeita as minhas inesperadas ausências e, sinceramente, enerva-me a pressão que às vezes acontece com o querer – alheio, claro – estar em contacto permanente, do tiro certeiro que nos diz que, àquela hora, vamos ter um bilhete no frigorífico pendurado à nossa espera, da disponibilidade imediata e constante, do sempre presente "como preferires, tu é que mandas", do "Estás bem? Estás confortável?" de dez em dez minutos só porque espirrei ou mudei de posição, ou até do insistente "Ohh vá lá, tens a certeza que não queres ir?". Enfim, não acho piada ao constante mel com pitadas insignificantes de pimenta à mistura.
Sei bem que muitas de nós, mulheres, davam corpo e alma para ter alguém assim por perto, pequenas declarações de amor a toda a hora, homens dispostos a roçar o ridículo só para demonstrar o quão é que nos gostam, sem medos de assumir o que sentem aos sete ventos.
Acontece que esses pequenos-grandes pormenores, que contam muito, não os subestimo, também acabam por se perder com a vulgaridade dos gestos, a repetição das palavras e a exaustão dos dias, sobretudo quando as larvas – aquelas, que começam lentamente a crescer-nos dentro da barriga – ainda não ganharam força suficiente para sair do casulo e virar borboletas e, por isso, ainda não as conseguimos sentir com as asas a bater, incessantemente, contra as paredes do estômago, chegando a assustar a mais sem-noção de sempre.
Agora, desabafo solto, só me resta dar a mão à palmatória e reconhecer que, afinal, seria bem mais fácil se as minhas únicas exigências fossem as tão simples – porém nunca tão erradas – condições requeridas de "pêlo no peito e cheiro a cavalo", de há zero homens, pouca seriedade e muitos anos atrás ditas.
[09.41pm]