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22/08/2009

~ (d)outros tempos

"You know I'm not that kind for leave it all behind (...). Now all I have are just memories, time is what we used to have. Memories, love we shared in our past. Memories, days you used to hold me tight. Memories, memories...".

Hoje desconheço os motivos, talvez esses não existam. Se os há, há muito tempo que os abandonei num deserto perdido algures nas memórias mais tristes que guardo.
Só sei que te escrevo, não para ti, sei que me conheceste o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, que não sou do tipo de correr atrás e fazer valer – embora muitas das vezes saiba que, se corresse, valeria a pena o esforço, mas não. Hoje sei que te escrevo a ti, na medida em que te moldo os recantos para fazer durar o pouco encanto que, com dificuldade, ainda te vou conseguindo espremer.
Sabes, eu gostava de ti. Não o conjugo no pretérito perfeito porque não me deste tempo para que o estudasse. Sei que me conheceste o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, mas não me interpretes mal, gosto de me fazer entender. Arrisco-me com um “conheceste” porque há muito que deixaste de o fazer. Não que eu tenha mudado, continuo a mesma de sempre à excepção de ter crescido, de me ter tornado menos ingénua, mais madura, a bem dizer. Tu é que já não me reconheces, deixaste que o meio corrompido em que te encontras, como se de tinta diluente se tratasse, te corroesse a cabeça e estagnasse esse teu lado que costumava ter tanto de genuíno como de racional que eu tanto apreciava em ti. Quase tanto quanto admirava o teu cabelo. Tu é que já nem ao trabalho te dás de deambular por entre as nossas escassas recordações, porque o que foi teve de ser e já lá vai e o que ficou pelo caminho não era para ser e tu não te queres lembrar daqueles momentos que tivemos juntos, os mesmos que estão agora distantes, que são doutros tempos, daqueles em que as torneiras eram ainda individuais e nos obrigavam a descobrir a fórmula perfeita para temperar a água que nos escorria pelo corpo, o equilíbrio exacto entre o quente e o frio, e que tinham respectivamente um Q e um F cuidadosamente desenhados.
Pois é, tu vives rodeado de batotas, de armadilhas que colocaram estrategicamente no nosso campo já minado. Porém, conheceste-me o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, que não sou do tipo de correr atrás e fazer valer ainda que já me tenha tentado fazer ouvir, fazer-te ouvires-me para ser mais concreta, só por respeito e consideração porque justificações nunca as devi a ninguém, muito menos a ti. Tentei correr atrás, é verdade, mas apenas por uma questão de princípios, que sempre os tive, mas, de tanto correr, acabei por ficar sem pernas. Tu subsistes do postiço e é assim que queres continuar e, muito sinceramente, eu em nada tenho a ver com as tuas opções, por isso há quase tanto tempo quanto aquele em que abandonei as nossas recordações que me deixei de preocupar com as tuas vontades enganosas.
Só espero que saibas que, ao contrário do que possas julgar, eu sei valorizar alguém, bem demais até, tal como sei “o significado da palavra amigo e da expressão ‘estou aqui para o que precisares’”, pois eu estive sempre do teu lado enquanto foste meu amigo, ou enquanto eu te senti como tal, se assim o preferires, da mesma maneira que tu nunca me falhaste, como amigo. Obrigada por isso, ainda que saiba que me conheceste o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, que não sou do tipo de correr atrás e fazer valer embora muitas das vezes também saiba que, se corresse, valeria a pena o esforço mas pernas, essas já não as tenho.
Sinto(-nos) muito.


[10.59pm]

01/04/2009

~ cientificamente (com)provado

"now and again we try
maybe we'll turn it around
'cause it's (...) never too late"

Utopia da espiral dos meus sentimentos.
És confuso, uma mistura entre liberdade e bom senso, impulsividade e racionalidade. És o querer e não dever e ainda assim consegues conjugar o verbo ‘vencer’ num português tão exacto que chega a magoar só de ouvir. Não percebo o porquê de não entenderes as minhas atitudes visto serem apenas reacções às tuas conjugações perfeitas. Já não me tentas descodificar, a lei do menor esforço é o teu princípio mais básico. Sorte a minha que aprendi isso a tempo, contigo, enquanto te observava pequenino, qual rato de laboratório, com a minha lupa como todos os grandes cientistas possuem. Mas sabes, és um ratinho esperto que, com as suas próprias aventuras por entre labirintos, acabou por me substituir as ideias mais claras e simples por problemas insanos e falácias circulares com ciclos infinitos de erros irremediáveis.
Não me queres ver fora da tua vida, do outro lado da redoma de vidro, mas eu ainda tenho amostras por analisar e outras tantas por colher. Ainda não cheguei à minha conclusão final, ainda não te testei o suficiente – não como o excelente rato de laboratório que és mas sim como a pessoa persuasiva e um tanto quanto manipuladora que te tens vindo a revelar. Pode até parecer contradição, isto das duas características juntas coexistirem numa só personalidade, mas a verdade é que sempre te enquadraste na categoria de ‘pessoa bipolar’ e as palavras que desde sempre melhor te definiram foram ‘ser contraditório’. Além disso, não compreendo se me queres mesmo ter por perto ou se só o dás a entender porque tens medo de que as substâncias que em ti injectei possam levar a melhor desse teu minúsculo e sensível organismo. Temos pena, meu puzzle mental, mas pensa em ti não como o rato posteriormente infectado em que te tornaste mas como o tratamento a que doentes inocentes e ingénuos se poderão submeter para a cura de cancros como aquele que gostaste de me causar temporariamente. A mim, que vivo entre a reabilitação de ti e os vómitos prazerosos, as náuseas minimamente suportáveis e os restantes sintomas que me vais causando. A mim, que vou tendo em conta dois talismãs, aqueles que me vão ditando a minha sorte e que trago sempre bem presentes no pensamento: no fundo, consigo resumir-te àquilo que o tempo, que até foi passando relativamente ligeirinho, me ensinou e, mais do que um amuleto espiritual, a velha frase “à primeira toda a gente cai, à segunda só cai quem quer” tornou-se num lema de vida.

[02.24am]

16/02/2009

~ supostamente

"(...) mas você facilitou, tente compreender, eu cansei de te avisar com palavras e canções (...). Tarde demais, estou bem e sentindo novas emoções"

Num flash passam-me imagens das nossas brincadeiras, imagens em que nos amamos naquele jeito só nosso de gostar, supostamente. Por quinze segundos adormeço acordada e sonho connosco, tu e eu sentados lado a lado com a insegurança e o receio de destruir tudo aquilo que ainda não construímos (nem sequer chegamos a) no nosso meio. Click.
Um pequeno gesto, um olhar malandro e a tua mão marota na minha barriga a fazer-me chorar de tanto rir com tamanha falta de jeito em fazeres-me cócegas. A minha voz de súplica entrecortada por gargalhadas e por berrinhos histéricos a implorar para que parasses. O peso do teu corpo em cima do meu, o teu olhar afundado no meu e a aproximação da tua boca à minha. Eu aconchegada em ti, o teu braço a suportar a minha cabeça pousada no teu peito enquanto a batida descompassada do teu coração supostamente apaixonado se faz ouvir e as tuas mãos me descobrem; uma no meu cabelo e a outra debaixo da camisola larga (aquela que me encobre as curvas) a causar-me arrepios na espinha e pele de galinha. O fumo invisível do cigarro que deixaste por fumar, o som mudo das palavras caladas que eu não te sussurrei. Click.
Tudo isso se desenha na minha mente por uma fracção de segundos e, por um momento, por um pequenino instante, tenho uma suposta sensação semelhante a saudade e nem a aliteração da letra S é capaz de me desconcentrar do pensamento de que tudo foi em vão; nem sequer esse mísero sentimentozinho enganador me faz vacilar perante as escolhas que tomei. Não eras tu quem me dizia que “a vida é feita de escolhas”? Pois bem, eu já fiz as minhas e estou a pô-las em prática.
Agora, que é quase primavera, vieste ‘apalpar terreno’ – neste caso ‘céu’ – na esperança, ainda que falsa, de que eu te recebesse de braços abertos quando já nem eles se lembram de te abraçar.
“Porque não aproveitaste quando devias (…)”?
Toda a trama foi muito bem ensaiada com falas metodicamente decoradas e acções previamente estudadas pela tua parte. Tudo não passou de um teatro em que só as deduções e as suposições foram o suficiente para ocupar o espaço (que supostamente era) reservado àquilo que deveriam ter sido gestos espontâneos, carícias genuínas, palavras puras e impulsos momentâneos. A peça dever-se-ia chamar “sinceridade” e nem deverias precisar de um dicionário para procurar sinónimos em busca de um conceito tão básico.

Queres voltar, passarinho? Voa para outro ninho que eu não guardo mais a tua gaiola.
Queres regressar, passarinho? Tarde piaste.

[09.03 pm]

06/02/2009

~ "morte de padre, sinal de peixe"

"A cada dia peixe,
amarga o caldo"


Hoje libertei-te de mim e, com um triplo perfeito, encestei-te no caixote do lixo, meu pescador. Eu, que pensei tratar-me da tua sereia, não fui mais do que um peixe que mordeu o isco e que te ficou preso no anzol. Eu, que sempre acreditei que me escaparia das malhas da tua rede e que não me preocupei por pensar que só apanhavas os peixes maiores – aqueles que só se deixavam apanhar por quererem e não por curiosidade – fui puxada pela tua cana de pesca. Aparentemente, o animal que a curiosidade matou não foi só o gato.
Sempre ouvi dizer que não se deve dar o peixe mas sim ensinar a pescar e talvez tenha sido por isso que tenha caído no erro de te alimentar demasiado bem para que nunca me ocorresse que o teu ideal pudesse ser agir em função de “tudo o que vem à rede é peixe”. Mas, meu amor, não faz mal até porque na verdade nunca conheci o teu pai e como já dizia o outro, “filho de peixe sabe nadar”.
Sabes, é verdade que “pela boca morre o peixe”, por isso agora posso confessar-te que sou um peixe feliz sabendo que te engasgaste com as minhas próprias espinhas com a pressa de me comeres. Assim, com um pedaço meu entalado – não no coração mas sim – na garganta, pode ser que fiques tão ou mais aflito quanto eu fiquei quando, sem respirar durante aqueles cinco minutos em que me tiraste da água – o único mundo no qual me era permitido respirar –, me pousaste no balde e me observaste serena e lentamente a asfixiar com a tranquilidade e a indiferença que só os cépticos e os índios nos seus rituais conseguem ter.
Hoje sou eu quem te atira para um balde no início dum jogo de basketball. Hoje, não sou eu quem cai nas malhas de uma rede mas sim tu que perfuras por uma de um cesto preso à tabela para caíres redondo e com determinação no fundo do balde do lixo.
Sereia, eu? Não. Hoje tornei-me numa jogadora nata pois “há muito peixe no mar” e, para além do mais, já devias ter o dever de saber que quando o peixe é fresco, come-se cedo e congela-se o resto.

[01.29am]

02/02/2009

~ o sorriso da minha ilusão perceptiva

Ontem lembrei-me de ti como se de um fantasma sem rosto te tratasses. A culpa não foi minha, meu querido, a tua imagem distorcida invadiu-me o espírito mesmo antes de eu poder ter tempo de não pensar em ti. Enquanto comparava sorrisos deste ou daquele numa daquelas conversas típicas de um grupo de adolescentes cheio de amores e desamores, paixões e amizades – também elas já tão tradicionais mais da fase das descobertas mútuas do que propriamente da das espinhas tardias – ocorreu-me o teu nome e uma constatação: não me lembro do teu sorriso.
Acredita em mim quanto to confesso, ando desde ontem a tentar, mas não me consigo lembrar dos teus lábios meio finos meio grossos alargados numa expressão de alegria contagiante. Não me lembro dos teus dentes brancos alinhados numa harmonia perfeita ou talvez com uma pequena falha quase imperceptível. Não me lembro se se desenha um pequeno traço na tua bochecha esquerda, ou na direita, ou se calhar nas duas ou até em nenhuma delas. Não me recordo sequer se fazes covinhas quando sorris. Só do teu sinal em círculo perfeito confortavelmente instalado do lado esquerdo acima do lábio.
Devo ter ficado tão surpreendida com esta realidade triste que talvez tenha sido a minha expressão atónita a denunciar-me perante as minhas fiéis companheiras de tricot. Foi por isso que, quando o meu divagar e a estupefacção se decidiram, por fim, a abandonar-me, a minha boca, quase como que involuntariamente, articulou: “não me lembro do sorriso dele”. Fiquei chocada – agora tenho a certeza –, assustada e depois com pena. De seguida, surgiu-me logo um segundo pensamento:
Será possível que nunca te tenha visto sorrir com vontade, minha realidade turva?
A ti, que outrora desejaste dar-me a conhecer o paraíso e que agora não passas da minha ilusão perceptiva na medida em que te designas por “falsa imagem da realidade, criada pelos nossos sentidos” em termos filosóficos. A minha visão cegou-me de ti, a audição não quis escutar a voz da razão racionalmente consciencializada, o meu provar saboreou-te em exagero e o meu sentir criou-te no seu mais profundo ser.
Talvez esta seja a certeza disfarçada de que precisava; a resposta no tipo interrogativo para a minha eterna dúvida um tanto quanto retórica. Aparentemente não, nem por um segundo que tenha sido, eu não te fiz feliz.

[06.52pm]

20/01/2009

~ contrariedades contracenadas

"Hopeless love, why did you carve your home in me? This broken heart is too weak to hold your weight. And now I regret the day we met (...)"

Eu tentei, juro que sim. Mas espetaste-me demasiados pioneses no meu coração de cortiça para que eu conseguisse aguentar.
Foram tantas as coisas que por dizer ficaram… É impressionante como me acontece sempre isto! Acho que a mítica frase da Willa Carther nunca fez tanto sentido ("só há duas ou três histórias na vida dos seres humanos e repetem-se cruelmente, como se nunca tivessem acontecido").
Nunca te decifrei na totalidade, nunca te soube ler na perfeição (e mesmo assim fizeste-me tentar, meu Deus!). Já desde algum tempo para cá que me fartei de te descodificar, cansei-me de alimentar a minha crença inocente como quem tira o ticket e vai para o fim da fila esperançado de que, mesmo estando a quarenta números atrás, irá ser atendido ainda nesse mesmo dia. O pior, é que há sempre quem nos passe à frente e, quer seja numa fila de um talho qualquer quer seja para chegar a ti, a vida é demasiado curta para se fazer dela uma espera eterna, aprendi isso contigo no meio de tantos ensinamentos e lições. Quase tantos quanto as dúvidas que em mim criaste, deixando-mas em forma de problemas cujas soluções eu não consigo encontrar (se calhar não é a mim que me compete). Dúvidas, essas, como por exemplo, como é que foste capaz de um dia te teres queixado que “vivemos a dez minutos e nunca estamos juntos” enquanto que, uns dias depois, quando eu te pedi para vires ter comigo, me respondias que não valia a pena uma vez que demoravas “meia hora a chegar”. Mudaste de casa? Para a próxima atenta nas desculpas que dás e cose-lhes as bainhas, são demasiado esfarrapadas.
Tenho mais questões que aqui dentro carrego. Tento perceber como podes ter mudado em tão curto espaço de tempo. Faço por entender se foi (apenas) isso ou se já trazias os teus textos empoleirados na ponta da língua, previamente ensaiados de maneira a fazeres-me acreditar que, apesar de “estranha”, eu era “única” e conseguia “não ser igual a todas”. Sabes, se tivessem sido só palavras, era-me mais fácil de aceitar mas tu não te ficaste por aí. Interrogo-me se será possível que todos os teus gestos tenham sido estudados antes, se todos os teus supostos esforços tenham sido planeados…
Tu eras o mais sincero, o que me tratava como uma princesa quando o meu papel era o de vilã.
Chamavas-me nomes carinhosos que só em mim se encaixavam e prometias-me mundos e fundos repletos de juras revestidas de sonhos e expectativas. “Um dia levo-te lá”, dizias-me tu. Mas “um dia” é uma expressão muito vaga que não combina com uma frase com (tão breve) prazo de validade. Disseste-me “não te gozo, nunca nem por nada” e o primeiro comentário a ser disparado da tua boca mal me viste, foi perguntar pela enorme espinha que uns dias antes me ilustrara a testa. “Apetecia-me gozar contigo”, admitiste. A sinceridade é uma qualidade que pode ser tão cruel como descongeladora de corações (e a tua sempre teve um especial jeitinho para os dois lados). Mais um pionés.
Já que és tão sincero, explica-me, honestamente, como é que me enchias a cabeça com finais de contos de fada – felizes, por sinal – e, passado pouco tempo, conseguiste tornar a nossa história num drama merecedor de um óscar? Porque é que insististe tanto quando eu não queria? Se o objectivo era este, era escusado. Mas parabéns, pelos vistos conseguiste cumprir com os teus esquemas moldados conforme as pessoas que vais querendo coleccionar (resta saber é onde).
Todo tu eras “violinos e borboletas”
, beicinhos de menino mimado que amua quando os papás não lhe dão o carrinho vermelho exposto na mais bela das montras e olhinhos de cachorrinho abandonado na berma da estrada e, mesmo quando eu (ainda) não me interessava, tu seguias-me sempre, sem nunca me perderes o rasto, e fazias questão em me deslumbrares ainda com mais histórias da carochinha e supostos desabafos patéticos como se de uma pessoa prestes a apaixonar-se – e com perfeita consciência disso – te tratasses. Chegaste a dizer a adultos, com todas as letras, que te estavas “a fazer a mim” (ou então o teu discurso indirecto foi mais que exagerado e distorcido como os mitos, as lendas e os boatos que passam de boca em boca e vão mudando de registo consoante o gosto de cada um). Se calhar fazia parte da tua encenação... Seja como for, és dos bons. Deves ser o actor do ano, nem sei como ainda és amador.
Enganaste-me melhor do que ninguém. Abriste-me o coração como se fosse uma caixinha de fechadura enferrujada pelo tempo e quebrada a precisar de conserto. Confessaste-me os teus medos e partilhaste os teus segredos comigo sem pedir nada em troca. Sem exigir uma compensação ou qualquer devolução. E deve ter sido por isso que eu caí, que me deixei levar pela música que cantava aos meus ouvidos quando imploravas “por tudo” para que não te deixasse. Quando me pedias para te abrir uma excepção e dizias que, depois, eu veria o porquê. E não é que vi? Para me magoares, como a maior parte das pessoas com quem mais julgamos estar em sintonia. Agora compreendo o que querias dizer quando, já mais recentemente, me cantaste a ‘naive’. Finalmente consigo distinguir a tua “mudança radical” que tanto aos sete ventos anunciaste. Tens razão, fui inocente quando confiei em ti, fui ingénua quanto te entreguei o meu mundo quase de mão beijada, em cima de uma bandeja, e te dei acesso privilegiado a ele, fui-o quando desperdicei conselhos ao investir em ti com tanto afinco e alguma dedicação. E tu que me desiludiste tanto…
Não consigo deixar de me culpar, estava bem no início, quando fugia e corria com a certeza de por ti não querer ser apanhada. Estava bem quieta no meu canto a viver a minha vida até então estabilizada, com os meus hábitos e rotinas e as minhas músicas de “pessoas que cortam os pulsos” como tu gostavas de dizer. Estava bem quando usava as minhas camisolas justas e saltos altos com o barulho irritante dos tacões que tanto te incomodavam. Era feliz com as minhas expressões às quais tantas vezes apontaste o dedo, vivia com os pés mais próximos do chão quando me fazia de desentendida e tu percebias e pedias-me que te desse atenção. Era bem mais inteligente quando te fazia dizer “tu e os teus foras, miúda” e me mantinha intacta, inquebrável dentro do meu casulo a viver uma vida bem mais valiosa ao lado de alguém com muito menos truques e trunfos na manga. Uma vida da qual não fazias parte, completamente paralela à tua. Era bem mais segura de mim quando sorria sem saber que, para ti, o meu sorriso era viciante e a melhor imagem para se guardar de uma madrugada em que me viste com a lua como pano de fundo – quem sabe se de mais uma cena de diegese pura – a par do tal sorriso que te fazia brilhares dos olhos.
Só gostava de saber o porquê de tudo isto. Porquê, pequeno? Porque é que me estás a fazer isto? Qual é a sensação? Onde estão a piada e o prazer? Foram tantas as dúvidas que ficaram… Volto a perguntar, desta vez por escrito: afinal de contas, “o que é que queres de mim”? E, por favor, não refutes os teus próprios pensamentos dizendo que me queres “do teu lado, contigo”. Se assim for, prefiro não saber, acho que não suportaria mais violinos desafinados e borboletas na fase de bicho-de-conta. És o ser mais contrariante à face da terra, sabias disso? Cá para mim, vens de Sedna ou de outro planeta ou sítio qualquer o qual ainda não se tenham lembrado de inventar. Mas também, não deve haver problema, tu deves saber donde vens. Afinal esses teus dialectos tão… ‘teus’ e as tuas atitudes imaturas de criança de quatro anos que não tem atenção e cria companhias (tu deves saber do que falo, os bons actores costumam saber interpretar estas deixas), de algum lado tinham de vir. Mas, se ainda ninguém inventou esse lugar estranho donde deves ter vindo, não faz mal. Consegues resolver isso com uma perna às costas ou não residisse a tua elasticidade de artista de circo nesse teu jeito para inventar personagens perfeitas, histórias encantadas, sentimentos duvidosos e futuros que contêm tanto de incerteza quanto de fantasia.
Realmente, inventar é mesmo contigo, não é?


[02.48am]

09/01/2009

~ olhar, ver, reparar

"se podes olhar, vê. Se podes ver, repara"

Este é provavelmente o último desabafo que sobre ti escrevo. Se não fosse a constante necessidade e a sensação de alívio que se instala quando te transcrevo para o papel, nem valerias a atenção de aqui estares impresso sob a forma de palavras.
Defini limites e tracei novos objectivos e – adivinha – não constas nos meus planos. Muito foi aquilo que por dizer ficou mas dar-te mais do que o demasiado sempre foi mais do que o suficiente e tu nem uma insignificante parte de mim mereces. De facto, nunca mereceste.
Fazendo uma retrospectiva de tudo, que de muito teve pouco, consigo abrir os olhos e ver – sim, ver – o quão bem me cegaste. Com a facilidade com que (não) se faz batota num jogo de cabra cega e o profissionalismo da rotina de quem tem como hábito ofuscar a visão de outrem que, por si só, já não consegue – ou sequer quer – enxergar a realidade.
Contigo fiquei temporariamente míope. Agora, olho de lince com visão de águia, tenho que reaprender a distinguir cores, identificar rostos e associar gestos para não mais permitir que me fechem os meus olhos cor-de-avelã.
Já me cegaste e de ti os meus olhos já se queixaram. Pedi-te que não me fizesses promessas quando não as poderias vir a cumprir mas mesmo assim garantiste-me que de tudo farias para não me magoar. E ontem doeu.
Ontem, porque hoje já consigo olhar com olhos de ver. Hoje já consigo ver como gente grande. Hoje já sou capaz de reparar na cegueira que me causaste.

[10.04am]

08/01/2009

~ diálogos tardios

"(...) eu chamo feio
a tudo o que é mau"
-Sócrates.

(...)
"Não dormes hoje, miúda?"
"Não."
"Porquê?"
"Porque não me apetece sonhar contigo".

04/01/2009

~ mais vale um pássaro no ar

"só pode voar quem arriscar cair, só se pode dar quem arriscar sentir"

Há um velho ditado que diz que “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Não é que goste de clichés nem que ache que frases feitas sirvam para justificar o que quer que queiramos exprimir mas, a verdade, é que às vezes ajudam-nos a fazer entender aquilo que queremos dizer mas que não sabemos muito bem como. O que eu quero realmente dizer com isto é que, na minha maneira de ver as coisas, é preferível ver dois pássaros a voar a prender um na mão.
Para quê agarrar e aprisionar-te numa gaiola quando podes voar livremente com outro da tua espécie, passarinho? Os humanos ficam com os humanos e os pássaros estão destinados a ficar com os pássaros.
Andas à deriva, voas sem rumo, sem mapa ou bússola para te guiar. Deixas ao vento o teu destino por traçar na esperança de que ele o decalque e decida por ti por que trilhos irás parar da próxima vez. E eu não te quero privar da liberdade a que tens direito nem tão-pouco afastar-te das tuas companhias de voo com que te cruzas todos os dias no infinito azul do céu. Não sei se estarei a generalizar, mas se gostas de seguir acompanhado nas tuas aventuras aéreas, quem sou eu para te julgar e te obrigar a abdicar delas? Sei muito bem colocar-me no meu lugar e o meu lugar é o mesmo de sempre, onde me foste buscar e trazer. É como diz a música “(…) não tem revolta não, eu só quero que você se encontre (…)”, e eu só gostava que te encontrasses, a ti e ao que realmente queres; que definisses o teu caminho. Longe de mim pressionar-te a adoptar escolhas, só te estou a tentar fazer ver que não precisas da permissão de ninguém para teres certezas quanto às opções que ainda poderás vir a tomar.
Além do mais tens asas e sabes muito bem como as usar, ou não tivesses tu cantado no parapeito da minha janela tantas vezes… (porém – e se calhar – não as suficientes). Já palraste na soleira da minha porta, portanto suponho que ainda saibas onde me encontrar.
Tens asas e sabes voar por isso voa mas voa alto e para longe. Não te quero apanhar se não queres ser apanhado, não te preocupes se a minha mão ficar vazia e cheia de nada.
Se te fartares de cruzar os céus, se te enjoares de altos voos, se um dia quiseres vir, vem que eu estarei cá em baixo, como sempre estive.
Não te estou a pedir nada, apenas te estou a abrir portas e janelas, para o caso de, um dia, te apetecer voltar. “(…) a esperança é um dom que eu tenho em mim, eu tenho sim”.
Só nunca te esqueças, com essa tua memória de pássaro, que os humanos são eternos terráqueos, tal como seria de esperar, e que eu não mudo por ninguém, como tu tão bem já deves ter decorado. Simplesmente quero que saibas que não me importava nada de ter asas e que me ensinasses a voar.
Se quiseres, regressa, mas só se quiseres. Volta passarinho, volta para mim mas volta sozinho.

[04.09pm]

31/12/2008

~ my hopeless love

"So tell me, what happens next? it's out of my hands, I guess...
just don't know what to belive, why don't you tell me to believe?".

You know, it isn't a choice but is, however, made of choices (and mine is from the inside out).
Once you said that I was different from the others but now you make me feel like I'm one of them.
I swear I try but I just don't understand (you).

26/12/2008

~ ucal & bolacha XL

"Vem fazer de conta, eu acredito em ti (...)".

Ia chamar-te de amor mas só agora reparei que não o devia fazer. Após tantas cartas escritas sobre ti nas quais eu te dirigia um “meu amor” retirado do fundo do coração… não te posso tratar por tal. Amor é o que uma pessoa que ama outra lhe chama. Não és o meu amor porque nem tu me amas nem eu te amo a ti. Não é amor, aquilo que sentimos um pelo o outro. O que é, afinal? O que é que sentes por mim, meu amor? Oh desculpa, voltei a fazê-lo. É do hábito, não ligues. Desculpa duas vezes: pelo “amor” e pelo “meu”. Nem sequer meu és e muito menos eu tua sou. Desculpa as minhas desculpas, desculpa pedir desculpa. Ninguém é de ninguém, não é verdade?
Então, parece que fico assim sem nenhum termo para te poder chamar. E tudo o que eu te queria escrever era que hoje me lembrei de ti, como tantas vezes o meu subconsciente insiste em me fazer lembrar. Durante o meu lanche, por entre uma garrafa de leite achocolatado e bolachas com recheio de chocolate, como algumas vezes chegámos a partilhar, eu lembrei-me de ti.
Vai um ucal e uma bolacha XL?


[05.58pm]

22/12/2008

~ quem me dera...

É à noite que me imagino aninhada em ti, moldada ao teu corpo e que sinto a tua falta. Debaixo dos cobertores, somente eu comigo mesma envolvida em pensamentos e deduções tentando desvendar a tua confusão e encaixar as peças soltas do teu coração em forma de puzzle. Se um lado da balança te pesa mais do que o outro, qual é a dificuldade da escolha? “Não compliques, torna as coisas simples”. Para quê a hesitação, para quê ponderar se ainda consegues distinguir a opção mais fiável, aquela que, se calhar, se encontra mesmo debaixo do teu nariz constipado que receia vir a gostar desse mesmo cheiro? Talvez não queiras brincar com o fogo ou pisar terreno desconhecido não tão seguro quanto aqueles a que estavas habituado mas, meu amor, agora já te queimaste e já é tarde para limpares a sola lamacenta das tuas sapatilhas.
Não te vou confidenciar segredos nem escrever declarações sentimentais com corações cuidadosamente desenhados nas margens ou sequer fazer juras e promessas de amor eterno mas, meu doce, posso garantir-te que te conseguia fazer feliz. Posso assegurar-te que comigo irias aprender de que é a verdadeira magia feita. Eu poderia ensinar-te a receita e alimentar-te de poções mágicas com a felicidade como condimento principal, por exemplo.
Quem me dera conseguir fazer-te ver até onde eu já vim ter, por ti. Quem me dera que reconhecesses o valor que, à partida, já te dou por me sujeitar a esta incerteza sobre o que o amanhã trará, a esta relação de corda-bamba, a esta espera desesperante que me consome a cada dia que passa que cada vez parece tornar-se mais longa e inútil fazendo-me sentir constantemente humilhada e uma tontinha crente exactamente por (ainda) acreditar. Quem me dera, miúdo.
Gostava de ter a coragem que em tempos tive para renunciar a perdas de tempo mal gastas e de me impor perante sentimentos que um outro coração – que não o meu – sente mas que a cabeça insiste em passar em revista e persiste em colocar em cima da mesa para se debruçar estudando e analisando cada detalhe até ao mais ínfimo pormenor como se pusesse em causa aquilo que por natureza já se instalou no coração sem sequer pedir licença. Gostava mesmo de acabar com todas as dúvidas de uma vez por todas.
…Por todas as noites mal passadas, por todo o sentido de oportunidade das músicas que passaram na rádio no minuto errado, por todas as saudades que tenho tuas e que me vão matando, aos pouquinhos, dia após dia, por todo este esforço – quem sabe? – em vão e reforçado por (falsas) esperanças… por tudo.
Bem, agora vou dormir e enroscar-me em mim própria, deitar-me no meu cantinho da cama arrefecida pela tua ausência. Quando – e se! – chegares, não te esqueças de encaixar a última peça, afinal só falta a derradeira e essa, não sou eu que a tenho guardada mas és tu quem a traz a suspirar pelo dia em que finalmente completará o teu puzzle no qual eu já mexi (creio que demasiadas vezes). Descansa que eu não tenciono reconstruí-lo sozinha caso te lembres de separar as peças que tanto trabalho (nos) deram a juntar. Ah! E não te esqueças de apagar a luz antes que eu te imagine aqui, fazendo cadeirinha encaixado em mim. Noite feliz, menino.


[02.07am]

10/12/2008

~ falsas aparências

«(…) — Por que é que tens uma boca tão grande?
— É para te comer!».

Penso já te ter conseguido interpretar. Jogas o As e atiras a tua reputação para cima da mesa com vista a testares a minha reacção posterior perante a tua sinceridade; o teu cair da máscara. Faze-lo – julgo só agora ter percebido – já com essa segunda intenção desde o princípio manhosamente incutida. És lobo por baixo da malha de cordeiro que simulas ser como um ser vulnerável e sensível que, na realidade, não és. Acho que só te dás a esse trabalho para veres e analisares até que ponto é que consegues ir para me cegares os olhos; para melhor compreenderes até onde irá a minha perspicácia e até onde a minha suposta ingenuidade me acompanha. Pois bem, parece que não muito longe. Pelos vistos a inocência só me levou pela mão até à esquina da rua mais próxima, meu querido.
Oh, mas para quê encontrar explicações para os teus truques de meia-tigela e esquemas fatelas? Para quê tentar desculpar-te? (E, a propósito, perante quem?). Já foste descoberto, tu e as tuas jogadas confusas de números altos e naipes arriscados. Agora, não te restam mais trunfos.
És um lobo que caça para saciar a fome. A pele de cordeiro de pouco ou nada te adianta quando te aproximas demasiado das tuas presas. Permite-me que aqui o caso particular, a excepção, te elucide e te dê uma sugestão; um conselho: nunca generalizes – ou sequer subestimes – as tuas vítimas se elas forem de diferentes espécies.
Sabes que, na selva, come-se mas também se é comido.
Ninguém está a salvo e, às vezes, não existe disfarce de qualquer animal manso que nos valha. Na selva, meu pequeno predador, há de tudo.

[07.44pm]

06/12/2008

~ ervas daninhas no meu jardim

"Com muita calma, com muito amor (...)
nunca me deixes, preciso de ti".


Silencio a voz, repenso as palavras. Modero os impulsos, pondero a escrita. Por ti, contenho-me e reprimo a ansiedade juntamente com a saudade, às vezes. Nego, ainda, certezas mais do que confirmadas, exactidões mais do que certas, por ti. Por ti e por mim. Tento esconder-me das emoções mais fortes que insistem, a toda a hora, em me invadir, desta vez por mim. Faço-o por uma questão de protecção, sempre ouvi dizer que a defesa é a nossa melhor arma – e, já agora, a pergunta, a nossa melhor afirmação.
Por isso, construo uma armadura de metal e ergo um alto e forte muro de pedra à minha volta para não me permitir a sentir (mais do que o que já sinto). E, não deixar que as expectativas cresçam e se apoderem de mim, cortá-las logo pela raiz, faz parte. O pior é quando me descuido e, sem querer, deixo que as heras se fortaleçam e que se desenvolvam ervas daninhas (e a mim nunca ninguém me ensinou a arte de jardinar).
De qualquer maneira, já ando a podar o meu jardim interior e pode ser que amanhã, logo pela manhã, compre uns bolbos de uma outra qualquer planta adequada à época. Até lá, vou tentando tratar, o melhor possível, do meu pequeno e tão pouco variado quintal. Pode ser que assim a minha estufa fique mais florida...
(Vejo-te amanhã?)


[10.04am]

23/11/2008

~ mimalhices

"(...) I wanna know, wanna know, wanna know now"

Embora com um dia de atraso e cruzando com a profecia de uma nova capicua no calendário de uma semi-supersticiosa, o meu Inverno (finalmente!) chegou. A medo, lá lhe fui abrindo a porta, devagarinho. A neve já há alguns dias que me retinha a passagem pela entrada principal, dando a entender que ficaria cá em casa, comigo.
Depois de lhe pedir que passasse os pés pelo tapete do hall, brinquei com ela. Senti-lhe a sua textura fria de quem me veio arrefecer de uma maneira quente. Talvez seja difícil de compreender, mas a verdade é que este Inverno, para além de me cantar Marley em tom de sussurro, me aqueceu. Abraçou-me e beijou-me no cabelo em jeito de ternura. Foi com carinho que lhe senti envolver-me nos seus braços e, ainda com mais afecto, a sua respiração no meu pescoço.
Eu, o Inverno, duas almofadas cúmplices em mimos e uma pitada de meiguice.
Agora, ainda não sei se ele fechou a porta de casa quando saiu. Da próxima vez pergunto-lhe se não quer ficar, sem ser de visita, e quiçá possamos tomar um chá…


[10.04pm]