Surreal. Não era eu naquele dia, sentada numa cama encostada algures a uma daquelas quatro paredes. Era uma terceira pessoa.
Ela nunca tinha feito sexo antes. Não, ela nunca tinha feito amor, isso sim. De facto, nunca o fez. Quando queria muito, conseguia sempre ser assim, desligada de sentimentos, de moralismos ou de princípios e naquela loucura momentânea, com a alma anestesiada, foi apenas corpo. Corpo esse já treinado anteriormente, como se de uma máquina temporizada se tratasse. O problema foi que a máquina se estragou e a avaria percorreu-lhe os sentidos e inquietou-se-lhe até às entranhas, agitando-lhe a mente e abalando-lhe com o coração. Fez curto-circuito, paralisando-lhe os movimentos e permitindo que um turbilhão de sensações a invadisse. Sempre soubera como deixá-los loucos, aos homens das máquinas, completamente desnorteados, mesmo àqueles que se faziam guiar por bússolas que geralmente apontavam para norte.
Não lhe retirou a sua Franklin & Marshall devagar ao mesmo tempo que lhe soprava a barriga e lhe beijava o peito, não lhe mordiscou o lábio inferior, nem as orelhas, nem sequer lhe cravou as unhas na pele morena das costas. Não lhe puxou o cabelo para trás nem tão pouco chegou a percorrer o seu corpo definido de cima a baixo com o cubo de gelo do copo de coca-cola que assistia aos vinte minutos de fama de dois adolescentes precoces – no amor, não no sexo – testemunhando um dos (provavelmente muitos) segredos que aquela divisão aconchegava em si.
Os pensamentos dela estavam distantes, vagueavam por outros espaços que não aquele mas era o seu corpo que, lentamente, se deixava descobrir e difundir-se num outro, deambulando e respirando aquele ambiente que, a pouco e pouco, se ia tornando familiar no balanço de um impulso com tanto de envolvente quanto de perigoso. Quanto a ele… bem, ele não gostava dela, nunca gostara aliás, e ela sabia-o perfeitamente. Era do seu corpo de que ele tinha sede, fazendo dela uma miragem ali mesmo, no seu quarto, em cima da sua colcha, qual oásis no meio do deserto seco escaldado pelo sol abrasador do meio-dia.
Desengane-se quem pensar que eram namorados ou qualquer coisa desse tipo. Estavam longe disso, ainda mais do que já alguma vez haviam estado. Mas, mesmo assim, a máquina continuava a deixar-se comandar por ele, tendo os seus instantes de glória quando ele a afinou sem medo ou pudor. Foi uma espécie de stockholm syndrome, o que a fez ‘avançar passivamente’, como sempre acontecera com ele: teve a sua violação voluntária por parte do raptor com o qual simpatizou e passou um bom bocado que podia ter sido bem melhor se ela se tivesse precavido para a eventualidade, se a probabilidade dessa mesma existência não tivesse sido maior do que a possibilidade, se eles tivessem dado, desde logo, uma ‘continuidade contínua’ – e não esporádica – à história que, sem querer, foram escrevendo juntos. Ela havia de ter gostado de saber quantas outras Marias teria ele trazido para o seu refúgio, com quantas outras Aninhas teria ele partilhado, além do seu vício gasificado, a sua intimidade, e ele havia de não ter percebido a ausência de sentimentos raros nela ou até a permanência de desgostos travestidos enterrados até ao seu mais profundo ser.
«Ao menos foi bom, ainda que estranho», era a reflexão que o seu rosto deixava transparecer. Ao menos poder-se-á repetir, quem sabe, cortando os bloopers e acrescentando cenas à curta-metragem, apesar de não se poder fazer rewind.
Pelo menos ela não se esqueceu da sua referência, não é a sua “imagem de marca” mas antes a marca da sua imagem nele, como que um carimbo numa das poucas folhas que haviam deixado fotocópias em si. A ele, perguntar-lhe-ão sobre a temporária tatuagem de improviso que traz no pescoço. Assim, não se esquecerá tão cedo da secura de deserto que o atacou e que não foi morta pela coca-cola e lembrar-se-á de que os vampiros, além de poderem assumir diversas personagens e de não saírem só à noite, também têm sede e sentem a necessidade de a saciar.
Ele fá-la-á saber que quer, mais uma vez, desta feita a sério, com tudo a que o doce pecado dos mortais dá direito, os dois vestidos de nada entrelaçados nos lençóis, ele com a experiência, ela com os truques. E quando ele a fizer saber, ela fá-lo-á acontecer. E aí, deixarão de ser virgens no simples acto de fazer amor, embora não o sintam na sua plenitude, ainda que a dita ‘pureza’ os tenha abandonado há já muito tempo atrás, numa outra vida com outros nomes, máquinas e outras bebidas magistralmente recatadas nos seus copos de vidro imperiosamente instalados em cima da secretária.
Um dia, farão o remake e realizar-se-á o filme.
* * *
Ela nunca tinha feito sexo antes. Não, ela nunca tinha feito amor, isso sim. De facto, nunca o fez. Quando queria muito, conseguia sempre ser assim, desligada de sentimentos, de moralismos ou de princípios e naquela loucura momentânea, com a alma anestesiada, foi apenas corpo. Corpo esse já treinado anteriormente, como se de uma máquina temporizada se tratasse. O problema foi que a máquina se estragou e a avaria percorreu-lhe os sentidos e inquietou-se-lhe até às entranhas, agitando-lhe a mente e abalando-lhe com o coração. Fez curto-circuito, paralisando-lhe os movimentos e permitindo que um turbilhão de sensações a invadisse. Sempre soubera como deixá-los loucos, aos homens das máquinas, completamente desnorteados, mesmo àqueles que se faziam guiar por bússolas que geralmente apontavam para norte.
Não lhe retirou a sua Franklin & Marshall devagar ao mesmo tempo que lhe soprava a barriga e lhe beijava o peito, não lhe mordiscou o lábio inferior, nem as orelhas, nem sequer lhe cravou as unhas na pele morena das costas. Não lhe puxou o cabelo para trás nem tão pouco chegou a percorrer o seu corpo definido de cima a baixo com o cubo de gelo do copo de coca-cola que assistia aos vinte minutos de fama de dois adolescentes precoces – no amor, não no sexo – testemunhando um dos (provavelmente muitos) segredos que aquela divisão aconchegava em si.
Os pensamentos dela estavam distantes, vagueavam por outros espaços que não aquele mas era o seu corpo que, lentamente, se deixava descobrir e difundir-se num outro, deambulando e respirando aquele ambiente que, a pouco e pouco, se ia tornando familiar no balanço de um impulso com tanto de envolvente quanto de perigoso. Quanto a ele… bem, ele não gostava dela, nunca gostara aliás, e ela sabia-o perfeitamente. Era do seu corpo de que ele tinha sede, fazendo dela uma miragem ali mesmo, no seu quarto, em cima da sua colcha, qual oásis no meio do deserto seco escaldado pelo sol abrasador do meio-dia.
Desengane-se quem pensar que eram namorados ou qualquer coisa desse tipo. Estavam longe disso, ainda mais do que já alguma vez haviam estado. Mas, mesmo assim, a máquina continuava a deixar-se comandar por ele, tendo os seus instantes de glória quando ele a afinou sem medo ou pudor. Foi uma espécie de stockholm syndrome, o que a fez ‘avançar passivamente’, como sempre acontecera com ele: teve a sua violação voluntária por parte do raptor com o qual simpatizou e passou um bom bocado que podia ter sido bem melhor se ela se tivesse precavido para a eventualidade, se a probabilidade dessa mesma existência não tivesse sido maior do que a possibilidade, se eles tivessem dado, desde logo, uma ‘continuidade contínua’ – e não esporádica – à história que, sem querer, foram escrevendo juntos. Ela havia de ter gostado de saber quantas outras Marias teria ele trazido para o seu refúgio, com quantas outras Aninhas teria ele partilhado, além do seu vício gasificado, a sua intimidade, e ele havia de não ter percebido a ausência de sentimentos raros nela ou até a permanência de desgostos travestidos enterrados até ao seu mais profundo ser.
«Ao menos foi bom, ainda que estranho», era a reflexão que o seu rosto deixava transparecer. Ao menos poder-se-á repetir, quem sabe, cortando os bloopers e acrescentando cenas à curta-metragem, apesar de não se poder fazer rewind.
Pelo menos ela não se esqueceu da sua referência, não é a sua “imagem de marca” mas antes a marca da sua imagem nele, como que um carimbo numa das poucas folhas que haviam deixado fotocópias em si. A ele, perguntar-lhe-ão sobre a temporária tatuagem de improviso que traz no pescoço. Assim, não se esquecerá tão cedo da secura de deserto que o atacou e que não foi morta pela coca-cola e lembrar-se-á de que os vampiros, além de poderem assumir diversas personagens e de não saírem só à noite, também têm sede e sentem a necessidade de a saciar.
Ele fá-la-á saber que quer, mais uma vez, desta feita a sério, com tudo a que o doce pecado dos mortais dá direito, os dois vestidos de nada entrelaçados nos lençóis, ele com a experiência, ela com os truques. E quando ele a fizer saber, ela fá-lo-á acontecer. E aí, deixarão de ser virgens no simples acto de fazer amor, embora não o sintam na sua plenitude, ainda que a dita ‘pureza’ os tenha abandonado há já muito tempo atrás, numa outra vida com outros nomes, máquinas e outras bebidas magistralmente recatadas nos seus copos de vidro imperiosamente instalados em cima da secretária.
Um dia, farão o remake e realizar-se-á o filme.
"You're (...) the first thing I'd choose, the last thing I need".
[01.35am]
[01.35am]
13 comentários:
"Quando queria muito, conseguia sempre ser assim, desligada de sentimentos, de moralismos ou de princípios e naquela loucura momentânea, com a alma anestesiada, foi apenas corpo." O corpo separa-se tantas vezes do coração.
adorei qel *
Sexo e amor é sempre confusão pela certa.
Apaixonei-me com este texto! E por incrivel que pareça estava a ouvir a música que transcreveste no início quando aqui entrei!
Concordo com a cê, o corpo separa-se tantas vezes do coração!
beijinho Quel *
«não é a sua “imagem de marca” mas antes a marca da sua imagem nele, como que um carimbo numa das poucas folhas que haviam deixado fotocópias em si»
vou contar-te um segredo: antes de ter criado o meu blog comecei a ler o teu (já não sei como) e adorava. Vinha todos os dias aqui.
beijinho Quel.
O texto está fantástico.
Ainda bem que estamos em sintonia, é bom saber que alguem partilha da nossa vivência.
Este é, sem dúvida, um dos mais bestiais textos que li nos últimos tempos!
http://laranjinha.blogspot.com
Se calhar a resposta está nos equinócios e não nos solstícios. Quem sabe (;
ly.
Está bastante pessoal e concordo com a Joana.
Ai, que nunca mais te apanho para falarmos :p vê se te pões em casa!
*
Engraçado que também escrevi, em parte, sobre esta confusão do amor e sexo.
O sexo não impede o amor, por vezes, o amor é que impede o sexo.
É assim que o nada passa a ser tudo e que se perde tudo o que outrora tinhamos ganho... ou ao contrário...
Espero que tudo corra pelo melhor!
beijinho Qel *
Concordo com a Joana , é mesmo confusão : /
Sexo, palavra feia...fazer amor gosto mais. Momento de entrega maxima e que cada vez seja mais especial ke a anterior =D não tem nada de mal nada de censuravel se não houver intenções, se houver paixao delirante, amor que é pau pa toda a colher =0) Fantastico adorei =D
Desde que a personagem principal dessa tua história sejas tu, e que tenha um final feliz qualquer coisa que se passe é bom e faz crescer. E sempre, sempre, sempre terás as de sempre (e a para sempre) para te apoiar.
Ly
comentário aos comentários e não ao texto: LOL
beijinho sweetheart :p
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