06/02/2009

~ "morte de padre, sinal de peixe"

"A cada dia peixe,
amarga o caldo"


Hoje libertei-te de mim e, com um triplo perfeito, encestei-te no caixote do lixo, meu pescador. Eu, que pensei tratar-me da tua sereia, não fui mais do que um peixe que mordeu o isco e que te ficou preso no anzol. Eu, que sempre acreditei que me escaparia das malhas da tua rede e que não me preocupei por pensar que só apanhavas os peixes maiores – aqueles que só se deixavam apanhar por quererem e não por curiosidade – fui puxada pela tua cana de pesca. Aparentemente, o animal que a curiosidade matou não foi só o gato.
Sempre ouvi dizer que não se deve dar o peixe mas sim ensinar a pescar e talvez tenha sido por isso que tenha caído no erro de te alimentar demasiado bem para que nunca me ocorresse que o teu ideal pudesse ser agir em função de “tudo o que vem à rede é peixe”. Mas, meu amor, não faz mal até porque na verdade nunca conheci o teu pai e como já dizia o outro, “filho de peixe sabe nadar”.
Sabes, é verdade que “pela boca morre o peixe”, por isso agora posso confessar-te que sou um peixe feliz sabendo que te engasgaste com as minhas próprias espinhas com a pressa de me comeres. Assim, com um pedaço meu entalado – não no coração mas sim – na garganta, pode ser que fiques tão ou mais aflito quanto eu fiquei quando, sem respirar durante aqueles cinco minutos em que me tiraste da água – o único mundo no qual me era permitido respirar –, me pousaste no balde e me observaste serena e lentamente a asfixiar com a tranquilidade e a indiferença que só os cépticos e os índios nos seus rituais conseguem ter.
Hoje sou eu quem te atira para um balde no início dum jogo de basketball. Hoje, não sou eu quem cai nas malhas de uma rede mas sim tu que perfuras por uma de um cesto preso à tabela para caíres redondo e com determinação no fundo do balde do lixo.
Sereia, eu? Não. Hoje tornei-me numa jogadora nata pois “há muito peixe no mar” e, para além do mais, já devias ter o dever de saber que quando o peixe é fresco, come-se cedo e congela-se o resto.

[01.29am]

15 comentários:

Anónimo disse...

Acho que dizer que está bonito, já não basta. Escreves mesmo tão, tão bem! Adoro a forma como o fazes; envolvo-me nas tuas palavras.

Rui Fartura. disse...

sabes, adorei a analogia que fizeste neste post. achei de veras interessante a forma como deste a volta às palavras mas ao mesmo tempo escrevendo e transmitindo algo real, algo teu. tiveste uma lição de vida, e mais importante e levantares a cabeça, olhares para ti, e dares-te valor pois eu sei que sabes que tu própria tens energia e coragem para seguir em frente.

( acabei de acordar, li-te e fiquei sem falar ) talvez mais tarde passe por aqui e te comente como mereces. dsc

maria miguel disse...

Adorei a última frase que escreveste. Não tenho lido todos os teus textos, mas sempre que calha vir aqui, gosto de cada palavra que dizes. E em todas elas passas um sentimento preciso mas, ao mesmo tempo, difícil de perceber por ser tão teu.
beijinho, vou seguir *

maria miguel disse...

e apercebi-me, agora, que realmente a tua cara não me era estranha. conheço um amigo teu, o senhor Rui Cruz.
e espero não me estar a enganar x) *

Nuno Florenço disse...

"Pela boca morre o peixe"? Pela luz se traça o destino. ;)
O texto é decididamente pessoal, mas não é intrasmissível de todo. :)
(Pode não ser a melhor aproximação, mas a gostei bastante da tua foto :$)
Beijinho. *

Filipa Teles disse...

"Hoje tornei-me numa jogadora nata pois “há muito peixe no mar” e, para além do mais, já devias ter o dever de saber que quando o peixe é fresco, come-se cedo e congela-se o resto."


Exacto. Vai lá marcar triplos que eu já marquei os meus. Neste momento do jogo precisamos de pontos, nigga conto contigo ;p


amo-te

Catas disse...

adoro a forma como comparas a tua situação com situações do quotidiano, por vezes engraçadas até!
"Hoje tornei-me numa jogadora nata pois “há muito peixe no mar” e, para além do mais, já devias ter o dever de saber que quando o peixe é fresco, come-se cedo e congela-se o resto." fantástico!

um beijinho Qel :)

C disse...

és capaz de me deixar de boca aberta ao ler os teus textos, a sério !
está muito bonito.
beijinhos*

teresinha ferraz. disse...

LOOOOOOOOOOOL a historia dos peixes dos 90min de comedia xD
dribla e pesca muito

loveyou honey bunch

Pssst disse...

a serio que gosto da tua maneira de escrever.... gosto mesmo!
e sim, há muito peixe no mar.

David Pimenta disse...

(...)já devias ter o dever de saber que quando o peixe é fresco, come-se cedo e congela-se o resto.
está excelente Qel. gostei mesmo :)

Wilson disse...

[Quem é vivo sempre aparece]

Sem palavras.
ESTÁ ESPECTACULAR! ;D

Anónimo disse...

Peixei peixe peixe.
Prefiro carne mas as comparações e metáforas estão do melhor quelzinha.
Como gosto de te ler.
Mesmo por maus motivos como este... É pena haver tantos pescadores desses por aí, e ainda pior haver tantos peixes que se deixam pescar e depois asfixiam, morrem e ficam amanhados, fritinhos e com o garfo espetado na espinha.
Mas ninguém manda nestas coisas, e os peixes às vezes são muito burros. (Somos todos uma vez pelo menos, um dia.)

Beijinho *

as velas ardem ate ao fim disse...

Um post excelente.

Concordo plenamente que não se deve dar o peixe mas sim ensinar a pescar.

bjo

Anónimo disse...

e eu que nem gosto muito de peixe... fiquei adorar... quando fores muito conhecida sou a tua agente! certo??
beijinho minha pita maluca doce como chocolate! Gosto de ti