"Hopeless love, why did you carve your home in me? This broken heart is too weak to hold your weight. And now I regret the day we met (...)"Eu tentei, juro que sim. Mas espetaste-me demasiados pioneses no meu coração de cortiça para que eu conseguisse aguentar.
Foram tantas as coisas que por dizer ficaram… É impressionante como me acontece sempre isto! Acho que a mítica frase da Willa Carther nunca fez tanto sentido ("só há duas ou três histórias na vida dos seres humanos e repetem-se cruelmente, como se nunca tivessem acontecido").
Nunca te decifrei na totalidade, nunca te soube ler na perfeição (e mesmo assim fizeste-me tentar, meu Deus!). Já desde algum tempo para cá que me fartei de te descodificar, cansei-me de alimentar a minha crença inocente como quem tira o ticket e vai para o fim da fila esperançado de que, mesmo estando a quarenta números atrás, irá ser atendido ainda nesse mesmo dia. O pior, é que há sempre quem nos passe à frente e, quer seja numa fila de um talho qualquer quer seja para chegar a ti, a vida é demasiado curta para se fazer dela uma espera eterna, aprendi isso contigo no meio de tantos ensinamentos e lições. Quase tantos quanto as dúvidas que em mim criaste, deixando-mas em forma de problemas cujas soluções eu não consigo encontrar (se calhar não é a mim que me compete). Dúvidas, essas, como por exemplo, como é que foste capaz de um dia te teres queixado que “vivemos a dez minutos e nunca estamos juntos” enquanto que, uns dias depois, quando eu te pedi para vires ter comigo, me respondias que não valia a pena uma vez que demoravas “meia hora a chegar”. Mudaste de casa? Para a próxima atenta nas desculpas que dás e cose-lhes as bainhas, são demasiado esfarrapadas. Foram tantas as coisas que por dizer ficaram… É impressionante como me acontece sempre isto! Acho que a mítica frase da Willa Carther nunca fez tanto sentido ("só há duas ou três histórias na vida dos seres humanos e repetem-se cruelmente, como se nunca tivessem acontecido").
Tenho mais questões que aqui dentro carrego. Tento perceber como podes ter mudado em tão curto espaço de tempo. Faço por entender se foi (apenas) isso ou se já trazias os teus textos empoleirados na ponta da língua, previamente ensaiados de maneira a fazeres-me acreditar que, apesar de “estranha”, eu era “única” e conseguia “não ser igual a todas”. Sabes, se tivessem sido só palavras, era-me mais fácil de aceitar mas tu não te ficaste por aí. Interrogo-me se será possível que todos os teus gestos tenham sido estudados antes, se todos os teus supostos esforços tenham sido planeados…
Tu eras o mais sincero, o que me tratava como uma princesa quando o meu papel era o de vilã. Chamavas-me nomes carinhosos que só em mim se encaixavam e prometias-me mundos e fundos repletos de juras revestidas de sonhos e expectativas. “Um dia levo-te lá”, dizias-me tu. Mas “um dia” é uma expressão muito vaga que não combina com uma frase com (tão breve) prazo de validade. Disseste-me “não te gozo, nunca nem por nada” e o primeiro comentário a ser disparado da tua boca mal me viste, foi perguntar pela enorme espinha que uns dias antes me ilustrara a testa. “Apetecia-me gozar contigo”, admitiste. A sinceridade é uma qualidade que pode ser tão cruel como descongeladora de corações (e a tua sempre teve um especial jeitinho para os dois lados). Mais um pionés.
Já que és tão sincero, explica-me, honestamente, como é que me enchias a cabeça com finais de contos de fada – felizes, por sinal – e, passado pouco tempo, conseguiste tornar a nossa história num drama merecedor de um óscar? Porque é que insististe tanto quando eu não queria? Se o objectivo era este, era escusado. Mas parabéns, pelos vistos conseguiste cumprir com os teus esquemas moldados conforme as pessoas que vais querendo coleccionar (resta saber é onde).
Todo tu eras “violinos e borboletas”, beicinhos de menino mimado que amua quando os papás não lhe dão o carrinho vermelho exposto na mais bela das montras e olhinhos de cachorrinho abandonado na berma da estrada e, mesmo quando eu (ainda) não me interessava, tu seguias-me sempre, sem nunca me perderes o rasto, e fazias questão em me deslumbrares ainda com mais histórias da carochinha e supostos desabafos patéticos como se de uma pessoa prestes a apaixonar-se – e com perfeita consciência disso – te tratasses. Chegaste a dizer a adultos, com todas as letras, que te estavas “a fazer a mim” (ou então o teu discurso indirecto foi mais que exagerado e distorcido como os mitos, as lendas e os boatos que passam de boca em boca e vão mudando de registo consoante o gosto de cada um). Se calhar fazia parte da tua encenação... Seja como for, és dos bons. Deves ser o actor do ano, nem sei como ainda és amador.
Enganaste-me melhor do que ninguém. Abriste-me o coração como se fosse uma caixinha de fechadura enferrujada pelo tempo e quebrada a precisar de conserto. Confessaste-me os teus medos e partilhaste os teus segredos comigo sem pedir nada
Não consigo deixar de me culpar, estava bem no início, quando fugia e corria com a certeza de por ti não querer ser apanhada. Estava bem quieta no meu canto a viver a minha vida até então estabilizada, com os meus hábitos e rotinas e as minhas músicas de “pessoas que cortam os pulsos” como tu gostavas de dizer. Estava bem quando usava as minhas camisolas justas e saltos altos com o barulho irritante dos tacões que tanto te incomodavam. Era feliz com as minhas expressões às quais tantas vezes apontaste o dedo, vivia com os pés mais próximos do chão quando me fazia de desentendida e tu percebias e pedias-me que te desse atenção. Era bem mais inteligente quando te fazia dizer “tu e os teus foras, miúda” e me mantinha intacta, inquebrável dentro do meu casulo a viver uma vida bem mais valiosa ao lado de alguém com muito menos truques e trunfos na manga. Uma vida da qual não fazias parte, completamente paralela à tua. Era bem mais segura de mim quando sorria sem saber que, para ti, o meu sorriso era viciante e a melhor imagem para se guardar de uma madrugada em que me viste com a lua como pano de fundo – quem sabe se de mais uma cena de diegese pura – a par do tal sorriso que te fazia brilhares dos olhos.
Só gostava de saber o porquê de tudo isto. Porquê, pequeno? Porque é que me estás a fazer isto? Qual é a sensação? Onde estão a piada e o prazer? Foram tantas as dúvidas que ficaram… Volto a perguntar, desta vez por escrito: afinal de contas, “o que é que queres de mim”? E, por favor, não refutes os teus próprios pensamentos dizendo que me queres “do teu lado, contigo”. Se assim for, prefiro não saber, acho que não suportaria mais violinos desafinados e borboletas na fase de bicho-de-conta. És o ser mais contrariante à face da terra, sabias disso? Cá para mim, vens de Sedna ou de outro planeta ou sítio qualquer o qual ainda não se tenham lembrado de inventar. Mas também, não deve haver problema, tu deves saber donde vens. Afinal esses teus dialectos tão… ‘teus’ e as tuas atitudes imaturas de criança de quatro anos que não tem atenção e cria companhias (tu deves saber do que falo, os bons actores costumam saber interpretar estas deixas), de algum lado tinham de vir. Mas, se ainda ninguém inventou esse lugar estranho donde deves ter vindo, não faz mal. Consegues resolver isso com uma perna às costas ou não residisse a tua elasticidade de artista de circo nesse teu jeito para inventar personagens perfeitas, histórias encantadas, sentimentos duvidosos e futuros que contêm tanto de incerteza quanto de fantasia.
Realmente, inventar é mesmo contigo, não é?
[02.48am]
9 comentários:
o texto está fenomenal! as metáforas deixaram-me a colar o queixo, quel!
PARABÉNS!
Adorei este texto. Completamente.
Foi um 'logo se vê', para cada um ter o final que mais agradar.
Adorei o texto, Qel. Só não gosto é do tema/conteúdo em si. É triste quando isto acontece.
Beijinho ;)
a maneira como escreves é fantástica. quanto a este texto, já realmente fenomenal. adorei *.*
um beijinho *
pergunto-me a mim mesma se sabes que vai ler isto?
espero bem que leia e se arme em cavaleiro andante e resolva tudo de uma vez por todas vindo cá e dando-te um big beijo (é só ma sugestão, se ler isto ;p)
e quanto ao otário do texto, sim porque qualquer outro nome que lhe chame deve ser bem pior, é cagar nele!
Mais escuso de dizer porque sabes bem que estarei SEMPRE aqui!
amo-te.
triste, obsessivo na visão dramática do teu real, interessante na maneira como está descrito, como o vives em palavras.
é como os chocolates, há os doces, so amargos.
Todos lindos e tão sedutores, no fundo são todos bons... Mas, há os que custam mais, os que arrepiam.
Voltas sempre a esperimentá-los não é? No fundo pensas que mudará o sabor, ou que passarás a gostar... :S
está incrivel!
escreves cada vez melhor, parabens qel ;) *
eu tenho que comentar este texto, qel. devo dizer-te que, leio-te há já dois anos (penso eu) e com toda a certeza digo, a tua escrita evoluiu MILHÕES!
mas não é só isso, além da escrita, também a experiência.
agora, com certeza, já és mais exigente e não tão ingénua.
o texto encaixa em quem nós bem sabemos. parabéns, merecidos! *
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