16/02/2009

~ supostamente

"(...) mas você facilitou, tente compreender, eu cansei de te avisar com palavras e canções (...). Tarde demais, estou bem e sentindo novas emoções"

Num flash passam-me imagens das nossas brincadeiras, imagens em que nos amamos naquele jeito só nosso de gostar, supostamente. Por quinze segundos adormeço acordada e sonho connosco, tu e eu sentados lado a lado com a insegurança e o receio de destruir tudo aquilo que ainda não construímos (nem sequer chegamos a) no nosso meio. Click.
Um pequeno gesto, um olhar malandro e a tua mão marota na minha barriga a fazer-me chorar de tanto rir com tamanha falta de jeito em fazeres-me cócegas. A minha voz de súplica entrecortada por gargalhadas e por berrinhos histéricos a implorar para que parasses. O peso do teu corpo em cima do meu, o teu olhar afundado no meu e a aproximação da tua boca à minha. Eu aconchegada em ti, o teu braço a suportar a minha cabeça pousada no teu peito enquanto a batida descompassada do teu coração supostamente apaixonado se faz ouvir e as tuas mãos me descobrem; uma no meu cabelo e a outra debaixo da camisola larga (aquela que me encobre as curvas) a causar-me arrepios na espinha e pele de galinha. O fumo invisível do cigarro que deixaste por fumar, o som mudo das palavras caladas que eu não te sussurrei. Click.
Tudo isso se desenha na minha mente por uma fracção de segundos e, por um momento, por um pequenino instante, tenho uma suposta sensação semelhante a saudade e nem a aliteração da letra S é capaz de me desconcentrar do pensamento de que tudo foi em vão; nem sequer esse mísero sentimentozinho enganador me faz vacilar perante as escolhas que tomei. Não eras tu quem me dizia que “a vida é feita de escolhas”? Pois bem, eu já fiz as minhas e estou a pô-las em prática.
Agora, que é quase primavera, vieste ‘apalpar terreno’ – neste caso ‘céu’ – na esperança, ainda que falsa, de que eu te recebesse de braços abertos quando já nem eles se lembram de te abraçar.
“Porque não aproveitaste quando devias (…)”?
Toda a trama foi muito bem ensaiada com falas metodicamente decoradas e acções previamente estudadas pela tua parte. Tudo não passou de um teatro em que só as deduções e as suposições foram o suficiente para ocupar o espaço (que supostamente era) reservado àquilo que deveriam ter sido gestos espontâneos, carícias genuínas, palavras puras e impulsos momentâneos. A peça dever-se-ia chamar “sinceridade” e nem deverias precisar de um dicionário para procurar sinónimos em busca de um conceito tão básico.

Queres voltar, passarinho? Voa para outro ninho que eu não guardo mais a tua gaiola.
Queres regressar, passarinho? Tarde piaste.

[09.03 pm]

9 comentários:

Ana Moreira disse...

Este final fascinou-me! ;)

David Pimenta disse...

A tua história. Este final surpreendeu-me. :)
beijinho :*

Anónimo disse...

Também disse: tarde demais.

C disse...

gostei muito, especialmente do final!
beijinhos *

Marianinha disse...

Adorei! fantástico, e revi-me de alguma forma, principalmente no final! :)
um beijinho QUel, *

Anónimo disse...

Estou quase sem palavras. Obrigada pelo texto, pelo detalhe. Revi-me imenso nele.

Beijinhos.

as velas ardem ate ao fim disse...

Gostei muito.

E parece me tarde demais.

um bjo

Anónimo disse...

(..) amores que moem.

Joana M. disse...

Tarde piaste.

Adorável Quel.
Tenho um novo cantinho, onde vou adicionar este :)