04/08/2008

~ mudos sinais

Por um segundo desvio o meu olhar paralisante da multidão para procurar o isqueiro desorientado no meio da confusão da mala. Enquanto lhe dou uso, reparo na bebida que já só tem o suficiente para um gole e depressa deixo o copo vazio. Ao pousá-lo, encontro-te através do vidro, entre meio limão semi-espremido e cubos de gelo picado. Subo o olhar, em toque despercebido e, subitamente, vejo que reparas em mim. Finjo-me, então, distraída, como que absorvida pela multidão que te rodeia; como se o cruzar dos nossos olhos se tivesse dissolvido no ar a par da névoa de fumo que rodeia a minha boca e me tivesse passado ao lado. Disfarçadamente ajeito o meu brinco com missangas da Índia e brinco com uma madeixa enrolando-a no dedo e soltando-a, ficando com um caracol a mais no cabelo descuidado. Noto que observaste com algum detalhe o deambular das minhas unhas-escarlate que batem contra o tampo da mesa num ritmo calmo mas inquietante. Olho em redor, já chega de centrar a minha atenção toda em ti. Puxo mais uma vez do cigarro e, sem querer, enquanto desfaço os pedaços de gelo que se sobrepõem desde o fundo do copo até meio com duas pequenas palhinhas pretas, ouço fragmentos de conversas de pessoas que passam, uma gargalhada exagerada – porém ocasional – de alguém da mesa de trás, um bater frenético de pulseiras num pulso agitado de alguém excessivamente entusiasmado que se encontra por perto (…). Levanto a cabeça e, nesse instante, lanças-me um olhar demasiado confiante e brindas-me com um sorriso triunfante de orelha-a-orelha. “Já foste”, pensas. Olho-te fixamente num sobrolho desalinhado e, como se de telepatia se tratasse, transmito-te com a expressão do olhar: “querido, não me dês como garantida”. Depois de sentir o forte e reconfortante sabor do último travo, esmago a ponta do cigarro no centro do cinzeiro que parece brilhar com os candeeiros nocturnos da esplanada nele reflectidos. Pego na minha bolsa e arrasto a cadeira, pondo-me de pé. Mentalmente, faço-te compreender: “Demoraste demasiado tempo a aproximares-te da minha mesa e avaliaste-me pela caipirinha nela pousada. Quem te diz que há dois dias atrás não estiveram dois shots diante de mim? (a experiência de ler pessoas que julgas ter, talvez…)”. Pressinto que recebeste a mensagem pelo que permaneceste estático, o que veio deitar por terra a tua postura de rei. “Retraíste-te com o meu olhar reprovador de quem não é isco fácil. Não devias.

[03.20am]

6 comentários:

Anónimo disse...

bem li o texto e ... chorei! xD

muito bom mesmo *.*

beijinho

Rosa Maria Anselmo disse...

Ola
Li e reli "mudos sinais", muito interessante, uma descrição perfeita de quem acha que o outro (neste caso a outra)é isco fácil! Uma linguagem entendível e de fascinante leitura.
jinhos
Rosa


*** Em relação ao Livro no Escritartes, não precisas de postar 20 textos, basta que faças alguns comentários a textos ou poemas dos colegas e que o somatório destes e dos teus textos seja pelo menos 20, percebes? qualquer coisa telefone se tiveres dúvidas.

O Profeta disse...

Errantes sentires percorrem
Este corpo nu de calor
Queda-se a vontade ao vento
Neste deserto de verde amor

Ai este grito contido
É lava rubra em minha garganta
Pio de pássaro preso às penas
Uma reza a fugir de alma santa


Boas férias


Mágico beijo

Anónimo disse...

Oh Qel , a tua escrita é simplesmente fenomenal (:

David Pimenta disse...

Escrita fenomenál. Parabéns

David Pimenta disse...

*fenomenal. enganei-me