03/06/2008

~ mundos cruzados; mundos (entre)calados

Quisera sair com o cão. Deixou-se passear por ele durante algum tempo até se aperceber aonde queria passar. Subiu a rampa de asfalto escuro e de repente viu-se rodeada de pessoas que lhe eram totalmente estranhas. Puxou mais a trela para junto de si e continuou o seu caminho. Atravessou a rua iluminada com dois candeeiros fracos e só conseguiu distinguir sombras graças às lâmpadas fluorescentes e ofuscantes das roulotes estacionadas à sorte e apinhadas de gente que mais parecia formigas a lutarem pelo mesmo pedacinho de açúcar. Quando chegou ao chão com aquele símbolo de bússola desenhado no qual já se tinha sentado inúmeras vezes, parou. O cão puxara-a incentivando-a a avançar e a continuar a caminhada. Decidiu seguir em frente mas quando se deparou com a porta de vidro mobilizou o corpo uma vez mais. Ele estava lá dentro, estavam todos, tal como previra. Noutras circunstancias teria entrado e ficado um pouco à conversa mas não queria perturbar aquele quadro. Além disso a entrada a cães era proibida. Parou de arranjar desculpas para, na realidade, não ter que se deparar de perto com os tristes vícios que o estava a consumir; que os estavam a consumir. Já tinha assistido àquilo uma vez e havia chorado sem dizer o que quer que fosse. Não queria ver novamente aquela cena. Se aquele era o mundo deles, aqueles que eles haviam escolhido, então não era daquele mundo que ela queria fazer parte. Não era aquele tipo de experiências que ela queria partilhar (com eles). Não pertencia ali; não permaneceria mais naquele lugar que subitamente se tornara desconhecido. Desviou o cão e rodou nos calcanhares. Virou costas e voltou para trás. Passou pelas roulotes agora vazias, desimpedidas da agitação que se fizera sentir meia hora antes. Pagou cinco e veio a comer uma delas pelo caminho com o saco quente das farturas numa mão e a trela do cão que pedinchava por comida na outra. Com a boca ainda enfarinhada e as mãos gordurosas, tirou as chaves do bolso das velhas calças de ganga largas e encaixou-as na fechadura. Era ali aonde queria ficar; era daquele mundo do qual sentia fazer parte.

[03.13am]

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