"(...) na alma a mágoa enorme, intensa, aguda. (...)
E a vida não é existir sem mais nada, a vida não é dia sim, dia não.
É feita em cada entrega alucinada para receber daquilo que aumenta o coração".
E como tirar o máximo partido de algo que deveria acontecer devagar, com tempo e calma? Como não nos precipitarmos quando sabemos ter uma data-limite que não chega nem para começar algo que nós nem temos a certeza do que seja?
Em todo este tempo de amizade tinha de ser agora, meu fiel companheiro de kizomba, a pouco mais de um mês de me ir embora que isto tinha de (não) nos acontecer? Parecemos saídos de uma obra do Sparks, com todo o peso que um romance digno dos dele suportaria, ou não tivéssemos todas as probabilidades e mais algumas contra nós. Uma amizade que se transforma em algo mais sem que consiga sequer ter espaço para crescer ou certeza para ser, a uns 32 dias de a protagonista se mudar, de malas e bagagens, para o outro lado do mundo. Um algo que, antes de o ser, já se adivinhava ter prazo de validade. Como se o vive?
Deixando todo o drama dentro da gaveta; é assim que temos escolhido viver o nosso mês. O fantasma da efemeridade é uma presença constante, qual vulto que sabemos esperar-nos pacientemente do fundo da sala e que, de vez em quando, decide assombrar-nos. No entanto, a nossa doce felicidade é leve e cheira a fresco, tem gargalhadas, conchinhas (e "conchinhas!"), meiguices e maluqueiras dignas de adolescentes. – Ainda que já não o sejamos, a nossa condição temporária obriga-nos a passar os dias assim, às escondidas, quais mini-adultos curiosos em dias de primavera.
Se calhar se eu não estivesse de malas aviadas não teria "quase acontecido", provavelmente não iríamos chegar até aqui onde a amizade se confunde com mimos e tesão e tem mais carícias e cumplicidade à mistura. Nunca o saberemos. Ainda que seja algo condenado; ainda que possa ser algo considerado tardio, é como nós costumamos dizer: as coisas aconteceram quando tinham de acontecer e ninguém nos tem de julgar ou recriminar por isso (nem mesmo nós próprios).
E, aconteça o que acontecer, uma coisa é certa: teremos sempre a nossa amizade no final do dia (ou do mês, ou até da vida!). – E à nossa improbabilidade (in)finita também, sempre que a soubermos aproveitar. Meu parceiro de dança, obrigada por a teres feito acontecer.
[12.09am]

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