23/02/2015

~ à cenourinha mais viv(id)a que conheço

"Para se morrer
basta estar-se vivo".

Perdoa-me por isto mas tu sabes que numa altura destas torna-se inevitável não escrever, até porque conhecemo-nos por partilharmos da mesma paixão que é a tristeza daqueles que escrevem"temos em comum mais do que a escrita, o coração", como tão bem a Joana, também ela deste nosso mundo das palavras registadas, (a)notou, lembras-te? É à escrita que agradeço por a mim te ter trazido.
Ainda há coisa de semanas estive contigo e nem o facto de te saber tão feliz naquela altura reconforta o que quer que dê para reconfortar neste grande pesadelo por que passamos agora por ti. Por ti que, ironicamente, sempre tiveste uma maneira tão intensa de viver, com mil e um planos por traçar e uma bagagem de mão sempre pronta para descolar para onde quer que o vento te levasse.
A ti, agradeço-te agora pelo nosso último jantar, nesta inesperada visita que fizeste ao nosso Porto. Comemos divinamente, bebemos bons vinhos e encomendaste-me outros tantos do Douro e à mesa contaste-me das tuas aventuras, relembrando-me o porquê do fascínio que sempre te guardei: porque és rooteless (num bom sentido), pertences ao mundo e tens aquela forma maravilhosa de crer nas pessoas sem o mínimo esforço e a doçura de quem tenta casar características dos signos do Zodíaco com as mais improváveis personalidades.
Foste das pessoas mais aleatórias com quem eu tive o prazer de me cruzar ao longo da minha vida e não apenas na forma como nela entraste mas pela própria experiência da tua; pelo teu ritmo frenético de ser que não conhece dois dias iguais nem tão pouco a palavra 'rotina'. E eu vou sempre recordar-te como a cenourinha mais viv(id)a que conheço, cuja nacionalidade terei sempre de repensar a fim de acertar à primeira, com uma voz estranha e um coração do tamanho do mundo – e nada frágil! – que não vê maldade e nada teme.
E é também por isso, por ter esta percepção de ti, que sempre conseguiste expandir os mais medíocres horizontes, que te quero confessar que não faz mal caso prefiras partir ao invés de ficar, que provavelmente toda a gente que te conhece perceberá que com certeza serias incapaz de apenas existir neste mundo no sentido lato do verbo; de existir sem que realmente o fizesses porque isso assim não seria viver e tu sempre tentaste viver todas as vidas quantas uma vida consegue conter.
Não faz mal partires, U. – ainda que, de certa maneira, já o tenhas feito –, mas isso não quer dizer que me resigne à realidade de inferno por que estamos a passar pelo que te aconteceu ou que faça as pazes com um Deus sobre o qual tenho cada vez mais dificuldade em acreditar que exista porque, foda-se, pouca coisa poderá ser mais injusta, frustrante e revoltante do que ficares confinada a "viver" como um vegetal. (Contudo, se vires que ainda dá para lutar peço-te que o faças com quantas forças te costumas mover, está bem?). 
E, por tudo isto – pelo ser maravilhoso que foste, és e sempre serás –, obrigada por teres existido. Aliás, obrigada por teres vivido, U.

[09.05pm]

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