21/11/2009

~ falta(s)-me

"We'll do it all, everything, on our own. We don't need anything or anyone. (...) If I just lay here would you lay with me and just forget the world? I don't quite know how to say, how I feel. (...) I need your grace to remind me to find my own".

Sabes aquela sensação de teres uma folha à frente e quereres escrever a outra pessoa sem que, contudo, saibas muito bem como dizer o que até nem sabes o quê? Pois, não sabes, mas deve ser mais ou menos a mesma coisa que te assola a alma quando pegas numa guitarra e precisas de compor simplesmente porque sim. Eu passo a explicar, quero falar-te sobre tudo e sobre nada. Ou melhor, não quero querer mas sinto vontade. Vontade de te contar da minha vida, de te pôr a par dos meus planos e até de te incluir nalguns deles, como dantes.
Não é que ainda pense constantemente em ti, porque felizmente já o deixei de fazer, mas quando me vêm parar às mãos convites ou quando me sugerem eventos, as minhas duas velhas opções, tu sabes que sempre foste uma delas, surgem-me na cabeça mesmo antes de eu ter tempo sequer de raciocinar.
São ideias como estas que me despertam a necessidade de te escrever. Antigamente quando a vida me virava as costas, tu pegavas em mim e vinhas comigo apalpar-lhe o rabo. Antigamente, quando eu parecia uma mosca no sentido em que toda a merda me atraía, quando me metia num ou outro sarilho mais grave e me magoava com uma ou outra pessoa menos séria, tu juntavas-te a mim e, depois de falarmos sobre todas as banalidades e insultarmos indirectamente mais umas quantas vezes a mãe da vida, fazias-me rir e era tudo bem mais fácil. Nesses dias éramos só nós os quatro no mundo: eu, o português suave azul, tu e o marlboro. Mas agora não convém tirar umas horas da minha semana para estar com vocês, simplesmente porque deixei de conseguir confiar em ti, isso era antes de eu saber que há uma diferença entre o que dizes e o que fazes, e ainda há relativamente pouco tempo fizeste parte das tais pessoas menos sérias que me magoaram.
Sabes, eu recuperei as minhas gargalhadas mas falta-lhes o eco, que eram as tuas. É este o paradoxo, faltas-me tu para dizer mal do sacana que há uns tempos me deixou na merda: tu. Faltas-me tu e provavelmente vais-me faltar de cada vez que me derem dois bilhetes para um qualquer concerto, duas entradas para uma qualquer exposição, dois vouchers do tipo “pague um leve dois” porque, nestas coisas, nós costumávamos funcionar como siameses mas agora conjugar-nos na primeira pessoa do plural soa-me mal.
Falta-me a – deverei chamar-lhe – coragem(?) para ir ter contigo ao nosso refúgio, ao primeiro de todos que é o único que agora ainda pode importar, no nosso dia, encostar-me a ti costas com costas, nem precisava de te olhar nos olhos ou ler expressões, saber só que estavas ali, comigo, sentir-te por perto era o suficiente. Tu levavas um dos teus tu-sabes-o-quê-bob e acabávamos com ele em dois tempos, naquele que querias e eu não te dei e naquele que eu levei para te esquecer. Só precisavas que te explicassem como é que as coisas funcionam, que o normal é primeiro estranhar-se, depois entranhar-se, tal como aconteceu comigo, e não o contrário.
Aí, podias aproveitar para me contares dos teus segredos, daqueles que eu sempre soube e que, no fundo, tu bem sabes que eu conheço. Aí, terias a oportunidade ideal e o local certo e ter-me-ias a mim, a morada dos teus calmantes, o remetente de sempre de todos os teus medos e angústias. Aí, eu confessar-te-ia as minhas dúvidas, as que advêm daquelas que me transmitiste. Não sei se te convide, agora, para o meu aniversário que se aproxima, por exemplo. E se eu morresse, irias ao meu funeral e chorarias a perda? Mas qual perda, se já me perdeste? Oh, não te sei explicar a confusão que para aqui vai hoje, miúdo, por isso vou-me ficando assim, mantendo-te debaixo de olho e simultaneamente alheia ao teu mundo.
Espero que entendas o que te tento dizer sem que fique dito, continuo a esquecer-me de mudar de passeio e virar à esquerda naquela passadeira. Perdoa-me a incoerência, também segui para a frente com os episódios da série que deixámos a meio.

«I didn't want to wake you, because I knew I couldn't stay. I'm looking forward to looking back on these days. And I'm fine, but I'm not okay».

[09.15pm]

6 comentários:

disse...

existem presenças que de tão presentes são mais notadas que a própria da ausência. É estúpido não é?

(des)fundamentos disse...

Ouve o teu coração, e se ele diser mais do que uma coisa ao mesmo tempo, deixa-o falar até decidir dizer um só coisa. Essa será a tua verdade*

Kate disse...

"Não sei se te convide, agora, para o meu aniversário que se aproxima, por exemplo. E se eu morresse, irias ao meu funeral e chorarias a perda? Mas qual perda, se já me perdeste?"

Fiquei pasmada quando li isto, como se tivesses adivinhado o que já me veio á cabeça.
Também não sei se gaste latim em convidar (alguém) para o meu aniversário como também gostava de saber se (alguém) choraria se eu morresse.
É estranho como a droga é a mesma, o que muda é a embalagem.

um beijinho*

p.s: quando souberes se vais convidar ou não, por favor , diz-me Qel.

Anónimo disse...

[]

A Coração disse...

É como se perdêssemos uma parte de nós. E, no fundo, perdemos mesmo.

C disse...

"Sabes, eu recuperei as minhas gargalhadas mas falta-lhes o eco, que eram as tuas. É este o paradoxo, faltas-me tu para dizer mal do sacana que há uns tempos me deixou na merda: tu."

Como eu entendo esta parte...

grande beijinho Qel :*