"No tears had ever been as wet as ours the day that we parted. The pain cut so deep worse then if we never started (...)".O coração pesou-me assim que te vi especado à porta de casa. O silêncio incomodou-me por, mesmo sabendo não ser bem-vindo, ter decidido sentar-se à cadeira da tua secretária. Segui-lhe as pisadas e a ti os passos, sentando-me no outro lado da cama que não o teu, qual espectadora do filme da minha própria vida e da vida alheia também, estudando-te os gestos agitados e rotineiros, vendo-te atarefado nessa vida cuja minha presença, de certa maneira – mas não da maneira mais certa –, deixaria de, numa questão de minutos, fazer parte.
Entravas e saías do quarto, davas aquele toque simpático e que, dadas as circunstancias, até era oportuno, misturavas aquele laivo de preocupação como se a minha alimentação te importasse, ao perguntar-me se a maçã que trazia como companhia era o meu almoço. Acenei-te com a cabeça, que sim porque as pipocas ficam-me caras especialmente em dias de estreias. Pediste-me para esperar, algo que nunca suportei fazer, para passado um bocado voltares a aparecer e atirares mais algumas palavras para o ar no teu monólogo cuidado e dirigiste-te para a porta. Aí olhei para trás e, mentalmente, tirei uma fotografia daquelas quatro paredes cobertas de história, sorri quando o meu olhar se encontrou com o teu relógio meticulosamente acertado, ironicamente para te situares sempre no tempo – supostamente naquele que não sabes aproveitar e que, por isso, me queres oferecer de mão beijada – e despedi-me em segredo daquela divisão, do lenço vermelho pelo qual tens tanta estima e carinho atado na ponta da cama, do teu placar que te denuncia o perfil psicológico e da parede branca que um dia sonhei em vestir.
Da porta de entrada lancei um "adeus" envolto num sorriso triste a uma das tuas manas (acho que até sei a qual delas, ao longo dos tempos vamos adquirindo conhecimentos que nos ajudam a aprender a distinguir as particularidades de cada um de nós). Mal adivinhava ela, meu amor.
O silêncio seguiu-nos, tendo entrado connosco na pequeneza do teu elevador e aliando-se ao ambiente constrangedor que me pesou mais ainda o coração. Foi presságio, a minha maçã no lixo quando abandonamos o teu prédio? Foi presságio o dia pertencer à tua mãe tal como o 25, o nosso querido 25, também constar na data de nascimento da minha? Foi presságio o nosso cantinho encontrar-se restrito logo nesta última vez em que o procuramos? Foi presságio teres perdido a tua pulseira? Foi presságio a capicua no dia em que a crise se instalou para ficar e foi presságio ter passado exactamente um ano desde o dia em que me condecoraste a miúda da tua vida? Foi presságio eu ter-te devolvido a palheta azul?
Não sei se isto foram tudo sinais que, de tão distraídos que estávamos, ignoramos sem querer, mas o que é certo é que já são coincidências a mais para quem nelas não crê, como eu, por exemplo. Sabes, também não compreendo muito bem o porquê de contigo tornar-se mais difícil controlar as lágrimas e fazer com que a voz fique audível, nem o porquê de o peso do meu coração ser tanto assim e custar tanto a suportar, e doer também. Muito. Não percebo também o porquê de te ter afastado com tanta destreza e tão rapidamente de mim se o que mais queria era abraçar-te e ficar assim para sempre e muito menos conheço o porquê das tuas próprias lágrimas. Contudo, sei que provavelmente nunca mais será igual connosco, que se ultrapassa mas não se esquece ou que se esquece totalmente mas que de quando em vez se lembra. Sei que o que mais desejo é a minha e a tua felicidades, mesmo que uma não implique necessariamente a chegada da outra e mesmo que, para te ver feliz, eu tenha também de ver outra pessoa que não eu ao teu lado, mesmo que o teu sorriso só se compre com mais uma das minhas dores na loja dos 300.
Miúdo, eu só te quero bem por isso trata de te manteres de bem com a vida que eu prometo esforçar-me um bocadinho mais para te tentar acompanhar, porque se tu estiveres bem então eu já tenho um motivo para conseguir seguir em frente e sorrir, até porque dores não me faltam para comprar um sorriso para mim também, mesmo que seja um dos mais baratos.
Só te peço que não mais me faças promessas e que me abraces quando nos encontrarmos porque, para além de me ajudar a aguentar as saudades, eu vou precisar dele, desse teu abraço forte e apertado que tantas vezes, especialmente nas mais difíceis, me sossegou. Mas transmite-mo com esses teus olhos expressivos, porque de longe talvez doa menos do que te ter por perto sem te ter por completo.
Foste a melhor coisa que me aconteceu este ano. - E disto já te fiz saber por isso podes acrescentar às últimas páginas do nosso livro, a caneta permanente, se couber de tanta história que fomos escrevendo. Independentemente de tudo sei que nada suficientemente poderoso irá acontecer para que deixes de me significar tanto quanto significas e que, apesar de tudo, as palavras nunca me irão chegar para que eu te consiga mostrar toda essa significância.
Não vou mudar nada, alterar cadernos ou fotografias, modificar horários ou rotinas, mexer em hábitos ou calar expressões que de ti adoptei sem que desse conta, apenas e somente o essencial porque, no final de tudo, tu continuas a ser a mesma pessoa que eu conheci há três anos atrás, aquele que já, de qualquer forma, preenchia parte da minha vida olhando para mim todos os dias do alto das colagens das paredes do meu quarto, por exemplo. Vou limitar-me a arrastar-te um pouco mais para o lado neste teu espacinho cá dentro, vou só chegar-te um pouco mais para o lado direito, que é para não correr riscos. Mentalizar-me-ei também de que este é o melhor desfecho para nós, que é o que tem de ser feito e de que não me posso permitir a ter-te de outra maneira, que é do jeito que não me magoo mais, está bem? Ah, e já agora, vê se me guardas aí dentro, nem que seja no compartimento mais pequeno que tiveres. Pronto, depois de me confrontar com a realidade vou conformar-me com a certeza de tu e ela não são efectivamente a mesma coisa.
Faz-me só um favor já que referiste isto da última vez, faz com que tudo tenha valido a pena, com que a nossa amizade supere e com que, um dia, nos possamos sentar no chão de um qualquer passeio sem nos importarmos com nada nem ninguém à nossa volta, sem máscaras a ocultar sentimentos, sem segundas intenções disfarçadas nem ressentimentos, a rir às gargalhadas de tudo isto que nos aconteceu. "Eu vou estar sempre contigo", faz-me acreditar nisso e não me cedas muito mais do tempo que possuis para que eu não possa duvidar da tua presença na minha vida. E desculpa-me as cartas todas iguais, eu bem te avisei que as palavras nunca me chegariam.
Please be gentle I'm still learning ("it's times like these you learn to live again").
[07.16pm]
10 comentários:
nunca pensaste levar os teus textos a alguma editora?
porque não? tentar não custa :) e se gostas tanto de escrever...
se eu fosse editora (lol) acho que podia fazer um livro de crónicas. se a mrp pode, porque não?
gostei.
Consegues sem dúvida alguma tocar no mais fundo de qualquer pessoa. Adorei o texto, muito bom mesmo. E olha a rapariga tem razão, a editora acho que só ficava a ganhar :)
Beijinho Qel :)
estou quase a chorar, tens noção?!
Consegues sempre tocar bem lá no fundo :'/
Distingui-te no meu blog, Qel. Não precisas colar selo, nem fazer nenhum jogo. És simplesmente uma merecedora de distinção :)
Palavras que tocam..
Um beijinho mt grande querida
Apaixonante.
Nós, que lemos, ficamos com aquela vontade de ajudar, de fazer alguma coisa. Mas não podemos e eu desejo-te toda a sorte e força do mundo*
este tocou-me. mesmo.
Estou com a Mara ... força *
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