01/01/2009

~ vontade (foste tu quem mexeu no meu queijo)

"vontade de bater na tua porta e te dizer:
você me faz feliz demais,
o tempo parece parar quando a gente ta junto (...)"

Não estava com saudades nem tão-pouco sentia a sua falta, apenas lhe apetecia estar com ele (pelo menos assim pensava ela). Abraçá-lo, sentir-lhe o calor da respiração fundir-se com a dela, aquelas mãos grandes e quentes enfiadas nos bolsos de trás das suas calças, senti-lo por perto.
Sabia que talvez seria dar demasiado (mais do que o que devia, com certeza) se caísse na tentação de lhe dizer que queria estar com ele. Ele não merecia o valor que lhe dava e isso já ela sabia de cor e salteado e de trás para a frente desde ‘aquele final de dia’. Dizer-lhe “quero estar contigo” – que traduzido queria dizer “tenho morrido de saudades tuas, por favor diz-me que também queres estar comigo” – seria dar-lhe a faca e o queijo para a mão e ela sabia, mais uma vez, que dotes culinários não eram, de todo, o seu forte (nem nunca poderia, sequer, ser chefe de cozinha); ele não merecia. E, como toda a gente sabe, quer a faca caia no queijo ou o queijo na faca, o queijo vai sofrer. Além disso, questionar-lhe se queria estar com ela seria arriscar aquilo que não queria, ao que preferiu fazer orelhas moucas. Com ele era tudo sempre assim, tão imprevisível como ver um pirilampo de dia.
De qualquer maneira, nestas coisas quando a vontade é grande, tem por norma falar sempre mais alto e por vezes torna-se muito difícil calar tamanha tagarela. Assim sendo, perguntou-lhe se não queria “cometer uma loucura”. Para sua surpresa, ligou-se uma nesga de luz e ele pediu-lhe que definisse ‘loucura’. Detestava quando ele usava as suas próprias falas como forma de contra-resposta. Contudo, a reacção de como quem reconsidera uma sugestão era a confirmação de que ela precisava. Por outras palavras, o pirilampo acendeu a luz. Atraída pela luminosidade, pediu-lhe que viesse ter com ela independentemente das horas tardias e “sem perguntas”. Ele não havia perguntado nada, é verdade, mas a sua objecção era isso mesmo, uma pergunta em forma de disfarce.
Desde cedo que foram aprendendo a funcionar assim, sem pôr em causa, acreditando, só. Deixando-se levar, aceitando a incerteza, sempre às cegas, confiando aos poucos. Na realidade, se “tudo merece confiança para ser merecido”, confiar está na base de tudo o que à partida se conquista.
Foi então que ele foi até ao início da rua, em plena madrugada, na primeira noite – ou seria dia? – do ano e que ela, com a sua velha sweat enfiada à pressa e o cabelo desgrenhado, foi ter com ele ao cimo da sua rua e que se abraçaram.
Não queria ter-se dado logo, afinal de contas ele não merecia. Mas o que é que se pode fazer quando a vontade adora longas conversas e fala mais alto do que uma qualquer vozinha interior dona da razão? Às vezes é assim, há que saber ceder e quando não se consegue controlar o coração, não adianta contrariar. Ainda para mais quando nos aquecem as mãos – e, sem saberem, o coração – e nos chamam pelo diminutivo com aquele jeito que só quem nos aquece por dentro sabe ter.
Por enquanto não foi desta que a faca caiu no queijo apesar de já ser tarde para que o queijo esteja intacto visto que o primeiro pedaço já foi retirado do frigorífico e cortado. Ainda bem que há queijo que não se come, que só serve para se deixar na beira do prato. Ainda assim, vai uma fatia?

[05.03am]

5 comentários:

Marianinha disse...

adorei, estou até sem palavras!

Dizer-lhe “quero estar contigo” – que traduzido queria dizer “tenho morrido de saudades tuas, por favor diz-me que também queres estar comigo” – seria dar-lhe a faca e o queijo para a mão
eu acabei por dar a faca e o queijo para a mão tambem, com o maior medo do queijo acabar, e acabar tragicamente.

Não queria ter-se dado logo, afinal de contas ele não merecia. Mas o que é que se pode fazer quando a vontade adora longas conversas e fala mais alto do que uma qualquer vozinha interior dona da razão? Às vezes é assim, há que saber ceder e quando não se consegue controlar o coração, não adianta contrariar. Ainda para mais quando nos aquecem as mãos – e, sem saberem, o coração – e nos chamam pelo diminutivo com aquele jeito que só quem nos aquece por dentro sabe ter.
isso é bem verdade, eu também não controlei, e cedi, e desta vez, a faca nao chegou a cair no queijo.

beijnho *

C disse...

já andava para o ler à algum tempo, e acabaram por me oferecer no natal :D. estou a gostar imenso. mas eu tenho uma "paixão" pelos livros da margarida rebelo pinto!

quanto ao texto, devo dizer que ADOREI, está fantástico!

um grande beijinho *

Mia wallace disse...

Tenho mesmo de ler esse livro. É fantástico. Explica de uma forma simples e honesta as coisas. Não vale a pena sermos racionais se isso não nos faz feliz. Mas afinal de contas, o que é que nos faz feliz? Se mesmo sabendo que havendo sempre um pedaço de queijo que fica por comer somos capazes de oferece-lo em caso de emergência e que mesmo sentindo-nos em segurança há sempre uma estrada, uma linha de comboio, uma arma, uma queda, um ataque cardíaco que escolhe aleatoriamente as vitimas.

Gostei muito. bjo

David Pimenta disse...

adorei a alusão à faca e ao queijo Qel. Este texto está cativante, na minha opinião e com um final muito bom.
Divinal * ;)
beijinho

Rui Fartura. disse...

brinca com as palavras na realidade da vida.

achei muito muito bom o texto!! frases que me criaram imagens na mente.

bom ano 2009 **