09/09/2008

~ nuvens de Verão

«Quando não tive nada a perder,
eu tive tudo. Quando deixei de ser quem era,
encontrei-me a mim mesma».


Era sempre ela que puxava o mundo, nunca o contrário. Criava nuvens de seda e algodão e sentava-se confortavelmente em cima delas, obrigando-as a voar por cima de outras tantas nuvens fofas e suaves. Depois, quando finalmente conseguia estar quase a chegar ao topo dos céus, inclinava-se para baixo e caía. Sempre tinha sido assim e mesmo à segunda ou até à terceira tentativa, ela nunca aprendia a lição. Caía, magoava-se, chorava e desejava nunca mais voar tão alto mas, mais tarde ou mais cedo, acabava sempre por trepar nuvem acima pensado que “daquela seria de vez”. Não era felicidade ilusória, como mais tarde pensou tratar-se. Chegava mesmo a acreditar que um dia iria tocar o inalcançável e atingir o impossível e todos os dias para ela eram ‘um dia’.
Uma vez a queda foi tão grande, tão assustadora, que lhe fez doer o corpo todo. Sentiu o coração esmagado contra o peito durante meses e não conseguia conter as lágrimas à noite. Jurou que nunca mais tentaria e assim foi. Passou a nunca criar expectativas em torno de nada que mais tarde a pudesse vir a afectar. Mantinha-se à distância de todas as nuvens – até mesmo daquelas mais aliciantes – como se a própria aproximação lhe relembrasse de todos os tombos dados até então. Aprendeu a ficar quieta no seu cantinho, a não se mexer quando tinha mais curiosidade jogando sempre pelo seguro.
Passado algum tempo, alguém reparou nela. Alguém capacitado o suficiente para a fazer voar tão alto como das outras vezes sem que embarcasse nesses voos sozinha. Alguém com a sua própria nuvem azul-bebé, que também não esperava dela planos a longo prazo e que se deixava levar pelas linhas traçadas pelo destino. A partir daí, ela deixou-se ir, decidiu arriscar “só para ver no que dava”, atirar-se de cabeça sem hesitar, sem nunca ficar de pé atrás e não se importar com meios-termos. Não sabia como iria ser no dia a seguir (como nunca acontecera das outras vezes) e isso excitava-a. Deixava-se guiar, deixava que a vida se encarregasse da sua felicidade e serviu-se disso p’ra se testar a si própria. Muitas vezes dava consigo a pensar no que é que estaria a fazer e por outras chegava mesmo a não reconhecer o seu reflexo no espelho. Desfez-se completamente da ‘batata quente’ que lhe esquentava nas mãos e envolveu-se com uma facilidade tal que se surpreendeu a si própria sem sequer fazer por isso. Chegou até a recear por si e a duvidar de todo o bem-estar que tais sensações lhe causavam mas logo de seguida o ‘pensamento de não pensar’ aparecia e impedia-a de ter medo. Só o simples facto de ele querer voar com ela, de lhe dar mundos e fundos sem promessas, conseguiu conquistá-la sem que ela desse por nada. Quando se apercebeu do que estava a viver, fez uma retrospectiva de tudo e sentiu-se melhor que nunca e feliz, sem qualquer ponta de arrependimento.
Dessa vez, foi o mundo que puxou por ela.

* * *

Quando se deixaram levar - depois de uns mergulhos no mar e beijos entre ondas - na parte mais baixa das dunas de areia fina, ele afastou-lhe uma madeixa de cabelo da cara fazendo-a perguntar: «alga?» ao que ele respondeu: «cabelo». Foi nesse instante que ela soube que era possível conseguir interpretar alguém em apenas três dias. Foi nesse preciso momento em que deu consigo a pensar: “quem inventou que os amores de Verão se enterram na areia?”.


[10.16pm]

5 comentários:

teresinha ferraz. disse...

ai ai ai, LINDO LINDO LINDO :|
essas metaforas lindamente usadas tornam o texto tão rico em sentimento!
sabes o que acho sobre isso, continua a atirar-te de cabeça, so assim se vive... senao quando olharmos para trás deixamos tudo pelo meio termo, tudo pelo 'assim-assim' como eu gosto de dizer.
estou sempre aqui!

pumpkin <3

Catas disse...

está lindo ! e nota-se q tens uma enorme força dentro de ti, uma enorme vivacidade, fantastico :) *

David Pimenta disse...

historia de amor de Verão. Sente-se a força deste amor.
Parabéns. (:

Diogo Silva disse...

realmente e não destuando dos comentarios feitos é incrivel a forma como te expressas rico em retórica escrita, rico em vocabulo, rico em coração...peço desculpa pela intromissão. cumprimentos.

Emma disse...

a medida que se lê sente-se tanto aquilo que escreves, tão bonito! adorei (: