04/06/2008

~ tonalidades mortas

São sombras desfocadas, de contrastes cinzentos que se confundem na escuridão, que passam. Névoas que vêm e vão. Têm um frenético vaguear, tão rotineiro que já quase não as sinto. Perseguem, tocam, acompanham, guiam-me. Fazem a escuridão parecer mais clara. Mas, depois, ela regressa impávida e serena na sua cor enigmaticamente negra. A minha realidade torna-se lenta, preciso de tempo e a vida lá fora não espera. O ritmo é já o mesmo de sempre, a Terra gira habitualmente enquanto só consigo cumprir uma meia volta. É tudo tão ordinariamente vulgar! Os olhos não mexem, bem sei. Esse paralelismo às vezes assusta-as levando-as para bem longe; afugenta-as de mim. Será por isso que se fazem desvanecer tão rapidamente quanto surgem? Não enxergo e a minha vista são contornos mal desenhados num fundo monotonamente preto. Diz-se que «os olhos são o espelho da alma». Eu tenho alma, – e que bem os meus olhos a espelham! – mas está permanentemente vazia; sempre tão recheada de nada. Canso-me constantemente deste indefinido abstracto que me consome e corrói por dentro. Vivo na cegueira. No entanto, os meus sons são feitos de cores.

[10.18pm]

2 comentários:

Rui Caetano disse...

Sinestesias inquietas que nos fazem ver para além do som e da cor.

Anónimo disse...

Eu às vezes tambem me sinto isso ... Olha gostei desta parte "os meus sons são feitos de cores" não sei porquê mas gostei :D


Beijinho