Não sabia que me guardavas esse ódio todo. Desconhecia essa tua carência em desacreditar aquilo que outrora tivemos em plena praça pública. Sempre soube que eras orgulhoso, característica que eu sempre fiz questão de frisar porque desde o início me prendeu, via-o como um orgulho bom, quase que me dava gosto em apreciar... Mas não te sabia com tamanha necessidade de expor essa superação toda. Não te conhecia tão grande rancor por aquilo que durante dois anos e meio fomos juntos.
Será mesmo que a alcançaste, a essa superação que tanto queres aparentar? Será que te ergueste tanto assim que não o consegues conter e que precises de transgredir a privacidade que estas matérias do coração deveriam respeitar?
Sinceramente acho que a ignorância, nestas questões do (des)amor, é realmente uma bênção. Se não vires não lembras, se não procuras não atormenta, se não revisitares não sentes falta, passa tudo ao lado. Há tanta coisa que te queria dizer; partilhar contigo... E no entanto não posso porque ignorância é tudo o que tenho tido e tem sido o melhor bálsamo para a alma. Não me posso dar ao luxo de procurar saber.
E ainda assim não alinho quando os teus amigos me elogiam, ainda assim te honro respeito, se é que se pode honrar um sentimento de si já tão nobre, quando me dizem, a medo, que eu estou demasiado fora da tua liga. Aí fico sem reacção, nunca sei se mantenha a postura ou agradeça porque, apesar e acima de todas as nossas batalhas em guerras perdidas, eu gostei muito de ti.
E é também por isso que tenho a maior pena quando me dizem que, nos dias de hoje, nos descreves como condenados. Se nos achavas assim tão impossíveis de durar, por que é que prolongaste a felicidade disfarçada? Se não tinhas esperança em nós, por que é que não tiveste coragem de te impor e terminar logo com algo em que, afinal de contas, não acreditavas? Por que é que me deixaste nas mãos a enorme responsabilidade de nos inventar um fim? Fomos assim tão desprovidos de fé, aos teus olhos?
Sabes, eu pensei que ias adoptar o mesmo método que eu, não em relação à tal tão abençoada ignorância mas ao nível da visão do quadro geral. Achei que nos ias guardar como uma recordação boa, uma etapa que, ainda que com alguma turbulência, tenha sido positiva de se viver porque, no final de tudo, até conseguimos ser mais do que cordiais na hora da despedida – ou será que também não a sentiste desta maneira?
Chama-me inocente mas, sinceramente, não sei de onde surgiu esse ressentimento todo. Esse era o tipo de reacção que eu tinha com 17 anos quando, enraivecida, escrevia (a)os meus desamores – e ainda assim sempre com cuidado para não difamar aos sete ventos, sempre permitindo acesso somente a um círculo muito restrito. Arrisco-me até a dizer que me faz ficar... triste. – Não sei se é este o termo correcto mas faz esquina com a rua da tristeza, bem perto do cruzamento com o lamento, a reacção que a tua amargura desperta em mim.
Apenas gostava que não tivesses aprendido a odiar-me porque quando não se preza só se odeia o que está à nossa altura ou a nós nos é superior, tudo o resto nos é indiferente quando realmente (já) não nos diz muito e tu optaste por desrespeitar os valores que sempre fizemos questão de zelar perante terceiros ao invés de deixar as provocações das lojas dos trezentos e as alfinetadas de lado e, verdadeiramente, seguir em frente. Antigo amor, lamento muito.
[04.13am]

1 comentário:
Muito bom, muito bom mesmo :)
Depois de ler isto e apesar de não estar minimamente dentro do assunto, não posso deixar de dizer: mantém-te firme Qel, mesmo que terceiros não o façam. :)
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