18/07/2010

~ espera por mim

«Michael O'Neill: Kimmy says if you love someone you say it, you say it right then, out loud. Otherwise the moment just...
Julianne Potter: Passes you by...
Michael O'Neill: Passes you by...».

Custa. Custa saber que nunca mais verei a tua letra longa e apertada e que, muito pior, nunca mais ouvirei o som da tua voz. A tua calculadora ainda tem fórmulas nela coladas e eu ainda continuo a achar que groselha combina melhor com água do que com leite.
Penso em ti quando como chocolate branco e na maneira como os teus olhos brilhantes se arregalavam e os cantos da tua boca se inclinavam para cima quando saboreavas um desses pedacinhos de céu, que sempre foram a nossa perdição, como se não houvesse amanhã. Agora não há, nem amanhã nem o dia a seguir nem o que vem depois desse ou o posterior. Agora simplesmente não há depois, o amanhã é vazio, oco. Nunca mais acontecerá. E é com esta realidade que eu arrisco dizer que já me tenho vindo a conformar. Dizem que a última fase do luto é a resignação. Não é que não me custe, porque acredita que continua a ser horrível encarar a perda assim que me levanto e pouso os pés no chão todas as manhãs, só eu sei o quanto dói não te ter aqui comigo, só que agora é diferente, talvez penoso de uma outra maneira, da mais tolerável que possa haver neste tipo de situações. Difícil é de explicar, mais ainda de saber gerir.
Continuo a visitar-te e a pensar em ti, faço-o todos os dias, mas agora é diferente. Ainda te tento adivinhar a expressão que te terá atravessado o rosto no último instante. Muitas vezes me pergunto como terás escolhido partir. Eu, pessoalmente, espero que não tenhas partido com a cabeça concentrada nas coisas más e consumido pelo vazio que se tinha vindo a apoderar de ti nos últimos tempos. Faz-me confusão não saber se choraste e se não te lembraste de mim, se calhar é o egoísmo a falar mais alto, mas pensaste em nós, os de sangue? Ou inspiraste fundo naquele que terá sido o momento mais decisivo da tua curta vida e simplesmente sorriste por pensar que, finalmente, irias ter paz? Espero que tenhas conseguido alcançar a paz de espírito que não encontraste cá em baixo e por que tanto ansiavas, a mesma que certamente te atormentava. Espero e acredito que o tenhas feito.
Não vou mentir, saber que te despediste de mim com tanta subtileza, sem sequer me teres dado tempo, o mesmo que eu precisava para que me apercebesse do que estarias prestes a fazer, ainda me irrita. O facto de não te ter dito aquilo que achava e que tu tanto precisavas de ouvir revolta-me ainda mais e é o meu maior arrependimento. Se ao menos eu pudesse voltar atrás no tempo... Julguei que, ao não aprofundar certos assuntos, te estaria a poupar. Desculpa ter-me enganado, afinal de contas julguei mal. Podia ter-te dado a minha opinião mais sincera que, coincidência ou não, sei que era o que terias gostado de ouvir, mas não te quis martirizar e preferi distrair-te. Perdoa-me por isso.
Sabes João, cresci muito à custa de tudo isto. Aprendi a não guardar palavras, mesmo que mais tarde as escreva, e muito menos sentimentos. Agora quando sinto digo e pronto. Não economizo nos vocábulos nem escolho momentos certos porque esses, não existem. Tão-pouco evito falar quando, por vezes, ainda vacilo. Mas não existe o dia perfeito, a hora H é aquela e o tempo adequado é ali, quando e onde se sente. Existe, sim, a opinião, o sentimento e a vontade. E isso basta. A oportunidade é vã e a vida não espera. Somos nós quem tem de a acompanhar e não o contrário e esta foi uma entre as muitas outras coisas que tu me ensinaste. Ensinaste-me a dizer o quão gosto das pessoas na altura porque, se gostamos, mesmo que tenhamos as maiores certezas do mundo em como elas ficarão connosco até ao fim, nem isso é certo nesta vida e poucas são as coisas permanentes. Não convém omitir nem há por que deixar para depois. Depois podemos já cá não estar. Depois O momento, o ali, que é quando e onde se sente, esquiva-se-nos por entre os dedos e só nos vemos tentados a agarrá-lo quando já há muito o perdemos.
Se ao menos tivesses sido um bocadinho mais explícito, eu ter-te-ia correspondido de uma outra maneira, de uma forma mil vezes melhor, mas tu sempre me conseguiste dar a volta e fizeste mais do que tudo para não levantar a mínima suspeita. Nisso sempre fomos parecidos, podemos demorar a fazer planos, mas quando os concretizamos é a valer. João, se algum de nós tivesse desconfiado, tu não terias tido coragem, pois não?
Só te tenho a dizer que lamento, mais do que já alguma vez lamentei o que quer que fosse, que a tua ausência é das maiores dores que já me dilaceraram o peito e que a tua perda, irreversível como O momento, vai assombrar-me pela minha vida fora. As saudades que tenho tuas ultrapassam oceanos e eu juro terem a força para mover montanhas. É como diz a música, “a saudade é do tamanho de um prédio” e, sem ti, a vida é um tédio.
Apenas espero, um dia, encontrar-te tal como tu acreditavas ser possível – e como eu, estúpida, não percebi logo – e, quando isso acontecer, sei que as minhas perguntas vão cessar e não vou querer saber de mais nada que não seja abraçar-te e encher-te de beijos até levar à exaustão. Vou dizer-te, todos os dias, o quão é que te adoro e vou seguir-te para todo o lado, como sempre fiz até que não mais me foi permitido, até ao derradeiro dia.
Não te esqueças nunca. E espera por mim.


[04.02pm]
17 meses *

6 comentários:

Ana' disse...

é dificil sim senhora... posso dar-te um pedaçinho da minha força se precisares (:

C disse...

lidar com a morte obriga-nos a crescer. força! muita força *

Diogo Silva disse...

Mais um texto em que tu pões adorável atrás de cada expressão...mais um texto em que posso ficar de olhos arregalados até ao final...sempre muito muito bom de se ler =D beijinho

AF disse...

amo a música.

Mariana Neves disse...

o reencontro vai saber bem. leva-lhe chocolates brancos. :')

Anónimo disse...

Estava cheia de saudades de ler um texto teu Qel. Pena ter matado as saudades num texto tão belo mas, ao mesmo tempo, tão triste.
A morte é difícil, sim. Mas eu gosto de pensar que são umas férias prolongadas de tudo e de todos. Há pessoas que precisam de férias, mais umas que outras. E a vida é assim mesmo: cansaço e depois precisa-se de férias.
Adorei a tua mestria, tens de me ensinar umas coisas, porque acho que ja lhe perdi o jeito... devo estar a precisar de férias também :)
Beijinho.