17/10/2009

~ leva tempo

"(...) light up as if you have a choice even if you cannot hear my voice I'll be right beside you dear. (...). And we'll run for our lives I can hardly speak I understand why you can't raise your voice to say. To think I might not see those eyes makes it so hard not to cry and as we say our long goodbye I nearly do. (...) Have heart my dear we're bound to be afraid even if it's just for a few days making up for all this mess".

Naquela tarde não te perguntei tudo. Não levei a razão atrelada e o coração, esse, não ia no sítio certo (eu nunca soube agarrar corações nas mãos, quanto mais o meu).
Naquela tarde eu senti-me na pele de outra pessoa e vi-me forçada a acabar com a minha felicidade, que eras tu. Não sei se foi a melhor decisão que havia a tomar mas como dizia o outro, a vida é feita de escolhas e essa foi frase que me ficou até porque eu prefiro não adiar o inevitável, morrer logo com um tiro certeiro do que provar uma morte lenta e dolorosa numa qualquer cama de hospital com a palavra 'coma' escrita em jeito de título num qualquer diagnóstico pendurado aos pés dessa mesma cama.
Não penses que fiz o que fiz de ânimo leve, bem sabes que não suporto longas esperas e chegadas tardias. Tu conheces a minha impulsividade, és íntimo do meu orgulho também, sabes que prefiro sair magoada mas com certezas do que aparentemente bem mas arrastando dúvidas como sombra atrás de mim.
Não é que eu não tenha querido lutar por ti e ultrapassar isto contigo, nem se trata de cobardia ou tão-pouco de egoísmo. É só que me preocupo comigo antes de mais alguém, antes de ti até, e que sofro de um medo tremendo de ser abandonada e sair mais magoada ainda com todas as falsas expectativas alimentadas, na ânsia de te ver regressar, até ao limite do fim. Por isso, antecipei-o.
Não fui eu nem foste tu, fomos nós.
Só me culpo da ingenuidade, essa puta que não me deixa em paz durante um pouco mais do que três meses, que sempre me leva a fazer das palavras dos outros verdadeiras doutrinas, como fiz das tuas. A inocência leva-me a crer piamente nas pessoas, a confiar demais nelas e a dar-lhes tudo. Leva-me a depositar fielmente todos os meus medos e receios sem sequer pensar duas vezes, dando-me uma hipócrita sensação de segurança e conforto incríveis.
Lições que a vida me tenta a todo o custo incutir à força à parte, eu até que estou a reagir (não sei se bem ou mal, mas reagir já é um começo, não é?). Ainda vou chorando nesta manhã ou naquela noite, ainda vou tendo os olhos inchados – aqueles nos quais eras capaz de ficar tempos infinitos vidrado se eu não te interrompesse –, ainda vou adormecendo em almofadas salgadas. Mas sabes, já não encaro isto tudo somente como a tristeza que todos os dias carrego no peito. Gosto de pensar que tudo não passou de uma fase boa da qual nenhum de nós se arrepende, como me disseste, que foi uma daquelas experiências que se calhar até tínhamos necessariamente que passar para, no final de tudo, sabermos reconhecer que a nossa relação já atingiu todos os estádios possíveis e impossíveis de alcançar, que agora já conhecemos todas as facetas e mais algumas um do outro. Agora sei que não mais te vou perder porque já te perdi de todas as maneiras que havia a perder, porque já nos afastamos noutras vezes mas sempre continuamos juntos, apesar de tudo. Agora não há forma de não seres meu, de uma maneira ou de outra ter-te-ei sempre comigo, tal como tu me prometeste.
Sei que vou sempre ser a miúda da tua vida e que já há três anos que o tenho vindo a ser. É isso, independentemente das pessoas que tanto eu como tu viremos a ter ao longo das nossas vidas, tu serás sempre uma constante e eu serei permanente em ti, faremos sempre parte da história um do outro porque sempre nos ajudaremos a escreve-las. Do mesmo modo que eu sei isto, também sei que nunca irá existir outro M. na minha vida, que posso rotular alguém que ainda há-de vir de 'melhor amigo' e que até posso vir a ver um outro alguém como meu namorado mas nunca conseguirei comparar alguém a ti na qualidade da pessoa que representas. És um termo indefinido que nem o melhor escritor de sempre se lembrou de inventar e de uma coisa podes estar certo: farás sempre parte de mim, seja da maneira que for e, garanto-te, nunca terás ou sequer precisarás de outra Raquel na tua vida porque eu nunca te vou falhar. E eu não posso vir a ser a mãe, como durante algum tempo chegamos a imaginar que poderia vir a ser, mas serei com certeza a tia preferida dos teus filhos, um dia, porque eu sei que vou ser a Robin da tua vida, Mosby.
Já começo a reconhecer que isto não passou de um deslize e não penses que o escrevo no sentido pejorativo da palavra. Não, nós criámos o outro sentido, o outro lado e, sem querer estar a ser a drama queen, nós inventamos o final quase feliz dos nossos trágicos episódios, even the best fall down sometimes, não é verdade? Um dia vamos sentar-nos a rir disto tudo, acabamos uma fase a chorar mas vamos recomeçar uma outra a rir da anterior e a dar continuidade àquilo que temos vindo a construir para ficarmos, realmente, mais fortes que nunca. O que nos vale é a força da nossa amizade ser maior do que qualquer outro tipo de força, uma nova espécie de amor a roçar o incondicional especialmente criada por nós.
Deixa a poeira assentar e a calma se instalar, por agora. O que me vale é que és tu e não outro qualquer como tu tão bem me alertaste, o que me vale é que até nem é muito difícil imaginar que sempre te terei ao meu lado porque, sinceramente, tu sabes que não seria a mesma coisa sem ti e eu sem ti não sei ser. É difícil de explicar mas eu sei que me compreendes e é só isso que eu te peço neste momento, que me entendas e que percebas que te tenho forrado como papel autocolante ao coração, como se de uma cicatriz de uma doce memória de infância te tratasses, daquelas que outrora doeu mas que se olha e o sorriso surge automaticamente por transbordar recordações tão boas. Só que agora preciso de ti como dantes, para me ajudares a sarar as feridas que me fizeste.
Mas deixa a poeira assentar e a calma se instalar, assim aprenderei a avisar-te para limpares o canto da boca em vez de ir lá limpar, a mudar o lugar dos meus beijinhos espontâneos um bocadinho mais para o lado, se ainda tos conseguir dar, a contar-te da pestana pendurada no olho ao invés de a tirar com as minhas próprias mãos, as tais que não sabem segurar em corações, e a controlar os meus instintos de passar essas mesmas mãos pelo teu cabelo ou até mesmo pelo teu nariz tristonho no lugar de te dar um lenço, como ia acontecendo naquela tarde. Agora tenho de aprender a controlar os meus dedos para que não te desenhem as feições, tenho de reaprender as cores do meu sofá que em nada combina com o teu, aprender que não mais poderei experimentar aquela sensação que me causavas de cada vez que me arrepiavas quando respiravas no meu pescoço e saber dizer-te que te amo sem que lhe dê dois sentidos, se to voltar a dizer. Tenho de recuperar depressa, tu precisas do meu ombro, do amigo, entenda-se.
Mas sabes, leva tempo, meu pequeno, leva tempo
a reparar que as limonadas já passaram do prazo de validade e que já se estragaram. Leva tempo a saber reconhecer que está na altura de passarmos a consumir outra bebida, leva tempo a adaptarmo-nos a outros rostos com diferentes traços, a admitirmos que não são só os nossos tão bem feitos cornetos de chocolate – que eu tirava do teu queixo por barbear como quem rouba narizes às crianças com o velho truque do polegar – que existem, que se procurarmos bem, poderemos vir a descobrir que até gostamos de outro sabor.
Mas sabes, naquela tarde não te perguntei tudo, esqueci-me do mais importante: amas-me?

«Sabes uma coisa? Tens noção que por mais gajas que eu venha a ter tu vais ser sempre aquela que permanecerá sempre comigo? És a miúda da minha vida». (11/10/2008)

[07.26pm]

9 comentários:

Vera disse...

Como sempre escreves cada texto que deixa para pensar durante dias seguidos. Mesmo que não tenha nada a ver com esta história, com a vossa história, consegues-me tocar. Deixar-me sensível a imaginar certas coisas, que sinceramente, espero nunca ter de passar. Já agora, adorei este" a Robin da tua vida, Mosby.", fez-me entender ainda melhor, do início ao fim. És forte, como nunca conheci ninguém, e ainda bem, admiro-te imenso por isso sabes!

Um beijo Qel, e obrigada por esta partilha! *

Mara disse...

«Não é que eu não tenha querido lutar por ti e ultrapassar isto contigo, nem se trata de cobardia ou tão-pouco de egoísmo. É só que me preocupo comigo antes de mais alguém, antes de ti até, e que sofro de um medo tremendo de ser abandonada e sair mais magoada ainda com todas as falsas expectativas alimentadas, na ânsia de te ver regressar, até ao limite do fim. Por isso, antecipei-o.
Não fui eu nem foste tu, fomos nós.»

Relembraste-me um amor antigo, uma história bonita que já tive e que, às vezes, me faz ainda saudades. Saudades boas :)
Não sei porque o deixaste, mas certamente o fizeste porque, neste momento, é o melhor para ti.

U disse...

hoje já chorei duas vezes; mal li isto, escorreu-me outra lágrima.
é realmente incrível como te consegues (tentas?) proteger disto tudo, a maneira como (quase) te pisas e encaras o que está para vir.
«A inocência leva-me a crer piamente nas pessoas, a confiar demais nelas e a dar-lhes tudo. Leva-me a depositar fielmente todos os meus medos e receios sem sequer pensar duas vezes, dando-me uma hipócrita sensação de segurança e conforto incríveis.
Lições que a vida me tenta a todo o custo incutir à força à parte, eu até que estou a reagir (não sei se bem ou mal, mas reagir já é um começo, não é?).»
e eu também gostava de saber porque é que atrelo a inocência em mim. (talvez seja um daqueles síndromes que uma vez falaste).
Tenho quase a certeza que vais ultrapassar tudo isto, porque se eu já acreditava que és forte, ler mais um dos teus rascunhos só me faz acreditar mais.

(temos que falar outra vez, sim senhora!)

Um beijinho grande, Qel! *

Inês Sousa disse...

o teu texto está deliciosamente perfeito!

Kate disse...

Tens um selo no meu blog para ti Qel :D .

um beijinho.

joão paulo disse...

está sempre tudo igual.

Afonso Arribança disse...

E ouviste as palavras que eu também já tantas vezes ouvi. Lindo o texto. És grande Qel :')

Beijinho

cris, disse...

qel, mesmo sem ter andado a postar no meu nem a comentar blogs vinha sempre ver o teu e sabes este texto toca-me mesmo muito porque namoro à quase 2 anos e sei que quando chegar a altura de acabar, ele vai ser o homem da minha vida mesmo que o diga a outro pessoa e devo ser como tu dizes a robin da vida dele. Tal como tu.(: e como as coisas nem sempre correm bem e talvez seja o caso nesta altura revi-me imenso no texto.
acredito tbm que tenhas feito o que achaste melhor e que portanto vais ultrapassar de certeza :'D


beijinho grande :')*

( escreves sempre tão bem, que viciante vir aqui ler :$

disse...

Tu tiras-me do sério Qel Maria.
Transformas-me numa Madalena. Sua reles! :p