Não me podes continuar a fazer isto. Não me podes pedir para mexer nas memórias a preto e branco, em todas as cartas de amor que nunca te cheguei a entregar, em todos os sonhos que não te contei. Não tens esse direito. Um dia prometi entregar-te, numa caixinha, todas as nossas recordações e tudo aquilo que me lembra de ti. Não o fiz porque, na verdade, ainda vou escrevendo umas linhas sobre aquilo que nunca chegamos a ser, ou que fomos sendo ao longo do tempo, se preferires. No fundo, sempre soube que haveria incessantemente mais uma carta por escrever, tal como sempre houve algo por resolver contigo.
Não sei ao certo quando é que começamos com esta roda-viva que é a maneira como nos tratamos, sempre inconstante e de extremos. Não me atrevo a chamar-lhe de relação, nunca arrisquei dizer que tivesse uma dessas contigo mas a ligação, ainda que feita de fio de néon, mais frágil do que o meu coração quando o destroçavas, chegou a existir, ou não tivéssemos nós guardado todos os pequenos instantes e permanecido não muito longe um do outro. Nem muito de perto, nem demasiado afastados. Tu e eu somos assim-assim.
E só de pensar que nunca te cheguei a provar os lábios… Nunca fomos amantes mas tivemos as nossas músicas. Às vezes não nos apetecia assumir mas chegamos a confirmar que, do amor ao ódio há realmente uma linha muito ténue, tal como a nossa ligação, e sempre fomos teimosos demais para admitir que até gostávamos disso, da pimenta em cima do mísero fio feito da teia que insistíamos em manter inteira e por terminar, ou que até nem nos importávamos. – Peço-te, lê-me nas entrelinhas, já tiveste a prática em tempos.
Sempre nos deu um gozo bestial brincar com o fogo, a ti e a mim. O perigo fascina-nos. Sabes, eu já te tive como um amor correspondido e incorrespondido também, já te tive durante cinco segundos e por vezes tenho a sensação de que sempre te terei, de uma maneira ou de outra, ao longo da vida. Já te tive como uma paixoneta, essa coisa feita do amor louco e adolescente, já te tive como melhor amigo e já te julguei, imagina, o amor da minha vida. Nunca me foste indiferente e, confesso, nem sequer eu quero que o sejas. Aliás, jamais vais pertencer às pessoas por quem eu não lute até ao fim do mundo, por quem eu não mova montanhas, por quem eu não prometa mundos e fundos, a quem eu não ofereço respeito, àquelas pessoas pelas quais eu não meto as mãos no fogo (ainda que o perigo me fascine) com a certeza de não me sair queimada. Jamais te darei como garantido, meu querido, não me julgues mal. Por acaso és a pessoa mais complexa que eu conheço ou se calhar sou eu que apenas não te sei ler na tua simplicidade. De qualquer forma, eu sempre me importei em saber de ti, sempre te quererei ter debaixo de olho, nem que seja para, pelo menos, te observar apenas do canto, o que, compreende(-me), ainda difere bastante de te querer na minha mira ou no fundo do meu bolso. Apesar de tudo, o teu bem-estar, o teu conforto e a tua felicidade serão sempre do meu interesse. Não lhes chamo de prioridades porque tu facilmente me apanhavas se mentisse. E o passado não deixa de ser o teu lugar na minha vida. Não o estou a escrever para me convencer a mim mesma com palavras nem tão-pouco para te desafiar, pelo perigo também te fascinar a ti. É só porque guardo um enorme carinho por ti que não me cabe cá dentro. Tu conheces-me, ou pelo menos costumavas e, se não perguntasses por mim às pessoas erradas provavelmente hoje ainda me saberias reconhecer nas minhas atitudes. Se me tivesses em boa conta, não deixavas a consideração que habitualmente tinhas por mim à mercê de terceiros que pouco ou nada sabem da minha vida, que nunca chegaram perto de me conhecer tão bem quanto tu chegaste a conhecer – e eu gosto de acreditar que ainda conheces. Chama-me inocente, recorda-me como uma ingénua mas deixa-me ao menos pensar que ainda me conheces o suficiente para saberes onde paro todos os sábados à noite, o quão gosto de chocolate ou em que medida é que me rego pelos meus princípios e os chego a concretizar. Lembra-te de mim como achas mesmo que eu sou, por respeito a todas as homenagens que te dediquei outrora e àquilo que em tempos quase chegamos a ser. Lembra-te de mim por ti, por mérito próprio e pelo teu coração porque a tua cabeça, essa, já está feita e tem como base juízos de valor mal calculados e deduções traiçoeiras. As palavras que te disseram são fictícias e vêm de discursos envenenados, aposto! E tu sabes, ou costumavas saber, que as apostas são o meu forte, tal como eu pensava que a tua personalidade também era. Mas não. Para meu grande desgosto, a tua personalidade não é das fortes, antes pelo contrário, pertence ao grupo das influenciáveis. E pensar que me protegerias sempre, que me defenderias não só das situações da vida, ou do final dela, como das pessoas más também, daquelas que só me querem ver pelas costas mas que ainda me observam todos os dias, que vão espreitando de quando em vez à espera do dia da minha desgraça. Tenho pena e sinto mágoa também.
No final de tudo ainda és capaz de, quer de uma maneira quer de outra, fazer doer. Só gostava que te lembrasses de mim como eu realmente sou; que nunca te esquecesses de mim como eu sempre fui. Só gostava que entendesses que, quanto mais te fores aproximando trazendo-me um pouco de nós, mais cartas eu escreverei sobre ti.
Não sei ao certo quando é que começamos com esta roda-viva que é a maneira como nos tratamos, sempre inconstante e de extremos. Não me atrevo a chamar-lhe de relação, nunca arrisquei dizer que tivesse uma dessas contigo mas a ligação, ainda que feita de fio de néon, mais frágil do que o meu coração quando o destroçavas, chegou a existir, ou não tivéssemos nós guardado todos os pequenos instantes e permanecido não muito longe um do outro. Nem muito de perto, nem demasiado afastados. Tu e eu somos assim-assim.
E só de pensar que nunca te cheguei a provar os lábios… Nunca fomos amantes mas tivemos as nossas músicas. Às vezes não nos apetecia assumir mas chegamos a confirmar que, do amor ao ódio há realmente uma linha muito ténue, tal como a nossa ligação, e sempre fomos teimosos demais para admitir que até gostávamos disso, da pimenta em cima do mísero fio feito da teia que insistíamos em manter inteira e por terminar, ou que até nem nos importávamos. – Peço-te, lê-me nas entrelinhas, já tiveste a prática em tempos.
Sempre nos deu um gozo bestial brincar com o fogo, a ti e a mim. O perigo fascina-nos. Sabes, eu já te tive como um amor correspondido e incorrespondido também, já te tive durante cinco segundos e por vezes tenho a sensação de que sempre te terei, de uma maneira ou de outra, ao longo da vida. Já te tive como uma paixoneta, essa coisa feita do amor louco e adolescente, já te tive como melhor amigo e já te julguei, imagina, o amor da minha vida. Nunca me foste indiferente e, confesso, nem sequer eu quero que o sejas. Aliás, jamais vais pertencer às pessoas por quem eu não lute até ao fim do mundo, por quem eu não mova montanhas, por quem eu não prometa mundos e fundos, a quem eu não ofereço respeito, àquelas pessoas pelas quais eu não meto as mãos no fogo (ainda que o perigo me fascine) com a certeza de não me sair queimada. Jamais te darei como garantido, meu querido, não me julgues mal. Por acaso és a pessoa mais complexa que eu conheço ou se calhar sou eu que apenas não te sei ler na tua simplicidade. De qualquer forma, eu sempre me importei em saber de ti, sempre te quererei ter debaixo de olho, nem que seja para, pelo menos, te observar apenas do canto, o que, compreende(-me), ainda difere bastante de te querer na minha mira ou no fundo do meu bolso. Apesar de tudo, o teu bem-estar, o teu conforto e a tua felicidade serão sempre do meu interesse. Não lhes chamo de prioridades porque tu facilmente me apanhavas se mentisse. E o passado não deixa de ser o teu lugar na minha vida. Não o estou a escrever para me convencer a mim mesma com palavras nem tão-pouco para te desafiar, pelo perigo também te fascinar a ti. É só porque guardo um enorme carinho por ti que não me cabe cá dentro. Tu conheces-me, ou pelo menos costumavas e, se não perguntasses por mim às pessoas erradas provavelmente hoje ainda me saberias reconhecer nas minhas atitudes. Se me tivesses em boa conta, não deixavas a consideração que habitualmente tinhas por mim à mercê de terceiros que pouco ou nada sabem da minha vida, que nunca chegaram perto de me conhecer tão bem quanto tu chegaste a conhecer – e eu gosto de acreditar que ainda conheces. Chama-me inocente, recorda-me como uma ingénua mas deixa-me ao menos pensar que ainda me conheces o suficiente para saberes onde paro todos os sábados à noite, o quão gosto de chocolate ou em que medida é que me rego pelos meus princípios e os chego a concretizar. Lembra-te de mim como achas mesmo que eu sou, por respeito a todas as homenagens que te dediquei outrora e àquilo que em tempos quase chegamos a ser. Lembra-te de mim por ti, por mérito próprio e pelo teu coração porque a tua cabeça, essa, já está feita e tem como base juízos de valor mal calculados e deduções traiçoeiras. As palavras que te disseram são fictícias e vêm de discursos envenenados, aposto! E tu sabes, ou costumavas saber, que as apostas são o meu forte, tal como eu pensava que a tua personalidade também era. Mas não. Para meu grande desgosto, a tua personalidade não é das fortes, antes pelo contrário, pertence ao grupo das influenciáveis. E pensar que me protegerias sempre, que me defenderias não só das situações da vida, ou do final dela, como das pessoas más também, daquelas que só me querem ver pelas costas mas que ainda me observam todos os dias, que vão espreitando de quando em vez à espera do dia da minha desgraça. Tenho pena e sinto mágoa também.
No final de tudo ainda és capaz de, quer de uma maneira quer de outra, fazer doer. Só gostava que te lembrasses de mim como eu realmente sou; que nunca te esquecesses de mim como eu sempre fui. Só gostava que entendesses que, quanto mais te fores aproximando trazendo-me um pouco de nós, mais cartas eu escreverei sobre ti.
[02.34pm]
9 comentários:
Acho este texto maravilhoso.
« E o passado não deixa de ser o teu lugar na minha vida. »
Está perfeito, e foi uma das poucas vezes que me emocionei a ler um texto*
Como é que me descreves tão bem com essa ultima frase Quel? :)
Identifico-me imenso com este texto, até faz impressão - passo por semelhante :b
Aquela nossa pequenez de não nos cabermos a nós mesmos, ou será grandeza de alma? ;)
Um beijinho*
P.S.: Só agora consegui aceder ao teu blog nao sei porquê :b
Eu queria não ter vivido cada frase deste texto. Mesmo.
«Sempre nos deu um gozo bestial brincar com o fogo, a ti e a mim. O perigo fascina-nos. Sabes, eu já te tive como um amor correspondido e incorrespondido também, já te tive durante cinco segundos e por vezes tenho a sensação de que sempre te terei, de uma maneira ou de outra, ao longo da vida. Já te tive como uma paixoneta, essa coisa feita do amor louco e adolescente, já te tive como melhor amigo e já te julguei, imagina, o amor da minha vida. Nunca me foste indiferente e, confesso, nem sequer eu quero que o sejas. »
Sabes quel. Este trouxe-me uma saudade que quase já existe. Vejo-me a assinar por baixo daqui a uns tempos e dói deixar para trás alguém que "não nos cabe cá dentro".
Eu ainda não sei deixar.
beijinho e obrigado pelos teus textos sempre tão maravilhosos e tocantes.
fiquei agarrada, completamente!
Ah Quel , é fantástica a forma como me prendes , da primeira à última palavra .
Os teus textos são mágicos. Tão simples, tão bons, tão doces.
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