22/08/2009

~ (d)outros tempos

"You know I'm not that kind for leave it all behind (...). Now all I have are just memories, time is what we used to have. Memories, love we shared in our past. Memories, days you used to hold me tight. Memories, memories...".

Hoje desconheço os motivos, talvez esses não existam. Se os há, há muito tempo que os abandonei num deserto perdido algures nas memórias mais tristes que guardo.
Só sei que te escrevo, não para ti, sei que me conheceste o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, que não sou do tipo de correr atrás e fazer valer – embora muitas das vezes saiba que, se corresse, valeria a pena o esforço, mas não. Hoje sei que te escrevo a ti, na medida em que te moldo os recantos para fazer durar o pouco encanto que, com dificuldade, ainda te vou conseguindo espremer.
Sabes, eu gostava de ti. Não o conjugo no pretérito perfeito porque não me deste tempo para que o estudasse. Sei que me conheceste o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, mas não me interpretes mal, gosto de me fazer entender. Arrisco-me com um “conheceste” porque há muito que deixaste de o fazer. Não que eu tenha mudado, continuo a mesma de sempre à excepção de ter crescido, de me ter tornado menos ingénua, mais madura, a bem dizer. Tu é que já não me reconheces, deixaste que o meio corrompido em que te encontras, como se de tinta diluente se tratasse, te corroesse a cabeça e estagnasse esse teu lado que costumava ter tanto de genuíno como de racional que eu tanto apreciava em ti. Quase tanto quanto admirava o teu cabelo. Tu é que já nem ao trabalho te dás de deambular por entre as nossas escassas recordações, porque o que foi teve de ser e já lá vai e o que ficou pelo caminho não era para ser e tu não te queres lembrar daqueles momentos que tivemos juntos, os mesmos que estão agora distantes, que são doutros tempos, daqueles em que as torneiras eram ainda individuais e nos obrigavam a descobrir a fórmula perfeita para temperar a água que nos escorria pelo corpo, o equilíbrio exacto entre o quente e o frio, e que tinham respectivamente um Q e um F cuidadosamente desenhados.
Pois é, tu vives rodeado de batotas, de armadilhas que colocaram estrategicamente no nosso campo já minado. Porém, conheceste-me o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, que não sou do tipo de correr atrás e fazer valer ainda que já me tenha tentado fazer ouvir, fazer-te ouvires-me para ser mais concreta, só por respeito e consideração porque justificações nunca as devi a ninguém, muito menos a ti. Tentei correr atrás, é verdade, mas apenas por uma questão de princípios, que sempre os tive, mas, de tanto correr, acabei por ficar sem pernas. Tu subsistes do postiço e é assim que queres continuar e, muito sinceramente, eu em nada tenho a ver com as tuas opções, por isso há quase tanto tempo quanto aquele em que abandonei as nossas recordações que me deixei de preocupar com as tuas vontades enganosas.
Só espero que saibas que, ao contrário do que possas julgar, eu sei valorizar alguém, bem demais até, tal como sei “o significado da palavra amigo e da expressão ‘estou aqui para o que precisares’”, pois eu estive sempre do teu lado enquanto foste meu amigo, ou enquanto eu te senti como tal, se assim o preferires, da mesma maneira que tu nunca me falhaste, como amigo. Obrigada por isso, ainda que saiba que me conheceste o suficiente para saberes de que fibra me fizeram, que não sou do tipo de correr atrás e fazer valer embora muitas das vezes também saiba que, se corresse, valeria a pena o esforço mas pernas, essas já não as tenho.
Sinto(-nos) muito.


[10.59pm]

12 comentários:

Débora disse...

poça, que gostei de ler isto. :')

Vera disse...

Tens uma maneira de escrever o que sentes, de demonstrar bem sem meias-medidas quando estas a passar bem ou mal. Só espero que possas passar por cima, e ser feliz, tal como sempre te conheci e gosto de te ver!
Força minha querida!

U disse...

e eu também conheço esse sentir. não sei se é se há o mesmo sentir do outro lado.
Beijinho grande, Qel *

Poppins disse...

Não é fácil, nada fácil... *

Anónimo disse...

estou a usar calmiderme... só pra comichão mesmo. porque a alergia ja ma trataram no hospital com a pica :$ senão a menina marta tinha um ataque :X

C. disse...

é o mal das pessoas, esquecerem-se que ja nos conheceram e fingirem que nos e que mudamos...

Ana disse...

Incrível como os sentimentos conseguem ser tão partilhados. Sem saber do q escreves, compreendo-te. E tornou-se tudo mais claro. Obrigada.

*

N R disse...

Deste tudo o que podias, não tens de te culpar de nada e sabes isso, é assim que és feita. Agora tata de recuperar as pernas. :D

Inês Sousa disse...

conheçes? :O

Emma disse...

como sempre delicias-me com os teus textos!
Do fundo do coração um grande beijinho e o melhor do mundo para ti :D

AF disse...

viva a tua força.

A Coração disse...

Que saudades de te ler. Os sentimentos fluem tão bem nos teus textos.