19/07/2009

~ a tua palheta azul

"Chega de saudade, a realidade é que sem ele não há paz, não há beleza é só tristeza (...) mas se ele voltar (...), que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca. Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços: apertado assim, colado assim, calado assim; abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim, que é para acabar com esse negócio de você viver sem mim".

Meu amor, ainda não partiste e eu já a sinto, à sede de te ter aconchegado no meu colo, à falta que a sensação da tua barba áspera provoca contra o meu peito deixando-o vermelho, tal como tu dizes que os meus lábios ficam de cada vez que a tua boca me prova.
Ainda não estás a quilómetros de mim e eu já quase que imploro pela tua habilidade em me eriçares os pêlos dos braços, em me arrepiares o corpo fazendo-me ficar com "pele de galinha" como tu tanto gostas de referir em jeito de troça com um especial orgulho nas sensações que me provocas, sabes? Claro que sabes, eu faço uma birrinha mas não consigo manter a postura por muito tempo, torna-se difícil segurar o papel a representar, o de menina mimada e amuadinha, e continuar o teatrinho quando me atacas em constantes investidas de cócegas.
O teu hábito irritante de olhar para o relógio de dez em dez minutos em busca das horas quase que já não me enerva, também sei que ultimamente te tenho feito esqueceres-te do tempo, tal como tu me fazes com os problemas.
Aqui sem ti ao meu lado, com os braços à volta da minha anca e a cabeça adormecida no encaixe do meu ombro, ainda sinto a tua respiração no meu pescoço, e é aí que tu costumas dizer que cheiro a mim. Aqui sem os teus xis apertados que quase me esmagam os ossos, sem as tuas legendas para as minhas expressões que não são mais do que provas do quão tão bem me consegues decifrar, eu já tenho saudades tuas.
De qualquer maneira, guardo as tuas melodias na cabeça, aquelas que compuseste só para mim, feitas de sonhos e dos nossos planos futurísticos, e o teu acessório imprescindível na carteira, a tua palheta que é do mesmo azul que o céu para onde eu vou olhar sempre que te pensar que, de tão velhinha e preciosa, no meio de tantas outras transparentes ou decoradas com padrões de quadradinhos, é a tua preferida. Dela foi feita a nossa história, a partir dela tocaste músicas inspiradas em nós e só o simples facto de eu a saber aqui, comigo, chega a aparentar conforto de te ter longe.
E tu, meu querido, tu guardas-me no coração e na bolsinha de fora da capa da tua outra menina, a única com quem eu até nem me importo de te partilhar, a guitarra, em formato de papel especial de fotografia com recomendações no verso. No fundo, também eu te escrevo uma espécie de frases de pertença já que não te fiz a tão recomendada marca no pescoço (há maneiras e maneiras de o dar a entender e a confiança que ambos sabemos possuir um no outro também ajuda).
Contudo, há coisas que nem a distância consegue afastar e não tarda muito é contigo com quem eu vou estar, contigo e com mais ninguém, a cantarolar-me canções de amor ao ouvido para eu adivinhar e a escrever-me as tais tão tipicamente tuas frases de pertença na minha mão esquerda, que é a do lado do coração, como quem marca território, com códigos da nossa intimidade por descodificar à mistura para que todo o mundo repare, se assim o quiser, que a árvore que há semanas plantamos começou a dar frutos e que esses mesmos frutos, na nossa singularidade despercebida, ao nosso jeito bem discreto, se tornam já maduros.
E apesar de eu hoje me ter deixado comprar pela tua insistência em passarmos o dia juntos, o tempo ao teu lado soube-me a pouco, bem sei que sempre é assim nas despedidas temporárias, naquelas com o horizonte à vista que nem despedidas dignas desse nome são, mas nem por isso custa menos.
Ainda assim, já começo a ter saudades e só quero que voltes depressa pois tu ainda não partiste, meu amor, e eu já a sinto, aquela sede que me seca a garganta e que não se cala com outra água que não a minha, que és tu.
Porém, quando regressares, a minha já rotineira pergunta ser-te-á mais uma vez colocada, questionar-te-ei sobre o teu conhecimento quanto ao tamanho do meu amor por ti. E tu, na tua tão já sabida resposta que se esconde na ponta da língua, não hesitarás em dizer: "é maior que os peixes que há no mar e mais alto do que a lua".

[10.35pm]

16 comentários:

teresinha ferraz. disse...

"Ainda assim, já começo a ter saudades e só quero que voltes depressa pois tu ainda não partiste, meu amor, e eu já a sinto, aquela sede que me seca a garganta e que não se cala com outra água que não a minha, que és tu."
melhores amigos, melhores amigos, é istooo

Mariana Neves disse...

que coisa mais linda, Raquel.
Estou com as lágrimas nos olhos e já li 2vezes.
Adorei, espantas-me rapariga.

felicidades (:

Anónimo disse...

Sabes quando ficamos sem palavras?

Afonso Arribança disse...

No blogger o que mais se vê são declarações e tentativas vulgares de exprimir sentimentos. Tu foges a isso na perfeição. Adorei Qel. :)

Mara disse...

« tu ainda não partiste, meu amor, e eu já a sinto, aquela sede que me seca a garganta e que não se cala com outra água que não a minha, que és tu.»

ao menos ele volta Quel
escreves imensamente bem*

C disse...

eu queria muito comentar isto, dizer qualquer coisa. mas não sei o quê. está tão sincero, tão ternurento e tão bem escrito :)

Matilde Cê disse...

há saudades que nos matam.
é bom saber que a tua não é comprada na boutique C.

Um beijinho *

AF disse...

no coliseu, ouvi dizer, que foi melhor, até porque foi maior o concerto.

mas sim foi um mundo.

Margarida C' disse...

Este texto está tão bonito, sentido e ternurento, que nem sei o que dizer :')
Beijinhos*

Ana Moreira disse...

Melhores amigos? É óptimo saber que há histórias assim que ainda acabam bem :)
O texto está do mais ternurento que há, gostei :)

David Pimenta disse...

digo e repito que encantas-me com a tua sinceridade. pelo menos é o que eu sinto depois de ler um dos teus textos.

as velas ardem ate ao fim disse...

Uma ternura!

bjo

N R disse...

"é maior que os peixes que há no mar e mais alto do que a lua"." - que grande resposta.
O texto está incrível. Lio-o de sorriso nos lábios, parabéns.

Sofia disse...

nao li o texto todo :/ acordei agora e tou de mau humor, sem paciencia nenhuma. Mas depois volto aqui e leio tudinho :)

pelo que li deu para ver que ta lindo! E os amigos são tudo, nao ha palavras.

beijinho

Sofia disse...

ahhh bem me parecia! mas cm nao tinha a certeza, achei melhor dizer amigo :)

escreves tao bem *.*

A Coração disse...

Que emocionante. Que belo. Que doce.


Há magia nestas palavras. Amei.