01/06/2009

~ sorrio por dentro e desejo poder controlar o tempo

"We were supposed to grow old".

Há tanta coisa que tenho por te escrever que nem sei por onde começar. Se te ouvisse, tenho a certeza de que me responderias para começar pelo início, sempre te deu prazer ver a minha cara de irritada mal disfarçada, imediatamente denunciada por aquela típica gargalhada exageradamente incontrolável e traiçoeira que jamais me permitiu ficar séria perante a tua expressão de menino maroto.
Ias gostar bastante de saber que pessoas é que, acidentalmente, fizeste com que se reaproximassem de mim durante estas últimas semanas. Não sei se ias ficar surpreendido até, tal como eu fiquei, mas sabes, se tivesse de abdicar destas relações que tenho vindo a reatar, em parte, por tua causa em prol de te ter outra vez aqui comigo, a abraçar-me deitado numa cama a ver uma qualquer série de humor estúpido num portátil e a falar da vida, ao meu lado, acredita que não pensaria duas vezes.

E, sem pensar duas vezes, imagens nossas invadem-me a alma, imagens longínquas doutros tempos que me fazem sorrir por dentro e desejar poder controlar o tempo. Se o pudesse fazer, rodaria os ponteiros do relógio para trás e pará-los-ia com toda a minha força.
Sorrio por dentro e desejo poder controlar o tempo de cada vez que me lembro de quando me chamavas lá no colégio, quando eu era pequenina, mesmo quando estavas rodeado de amigos, só para me ajeitares as caneleiras fluorescentes que eu trazia esticadas ao longo das minhas pernas esguias no tempo das modas excêntricas e ridículas.
Sorrio por dentro quando me recordo de uma cara, já bastante apagada pelo tempo das memórias, que me pergunta: "és a Raquel Cascarejo?" quando eu estava triste e me dá um embrulho com um marcador de livros com o meu nome e o seu significado e me diz que foi da tua parte.
Desejo poder controlar o tempo quando dou por mim ao ver-te entrar pela sala, sempre descalço, com uma barrinha de chocolate branco (o teu favorito) e quando me revejo a esmagar-te com mimos, carinhos, beijinhos e abraços que recebes com uma cara de obrigação – também ela mal disfarçada.
Sorrio por dentro quando penso no quão orgulhosa eu ficava, há uns anos, quando me davas a mão para que eu pudesse entrar contigo nas discotecas e misturávamos os teus movimentos de danças de salão com os meus de ballet e uma pitada de samba.
Desejo poder controlar o tempo quando me pedes a minha opinião sobre a t-shirt que mais te favorece quando estás prestes a sair e me pedes para que não feche as janelas da página dos sábados à noite, aquela do teu jogo de estratégia preferido, aquele em que estás já viciado no qual constróis cidades e lutas por alianças e que te faz ficar horas em volta do computador, meu zetavegeta.
Sorrio por dentro quando dou por mim a recriar as vezes em que te esquecias de ligar as luzes do carro quando saíamos os dois e só te lembravas a meio do percurso.
Desejo poder controlar o tempo quando prometes que me sacas todas as temporadas das séries que eu quiser e até mesmo quando dou por mim a pensar em ti a estalares-me os dedos das mãos, um a um e como tanto gozo isso te dá.
Sorrio por dentro quando me chamas de doce e de pita e quando me explicas as coisas com toda a calma que sempre conseguiste absorver do mundo seguidamente do adjectivo "pequenina" ou "menina" ou até "princesa".
Desejo poder controlar o tempo para te poder ver a comer os ovos-moles horríveis que a minha mãe traz de Aveiro mas com os quais tu tanto te delicias.
Sorrio por dentro quando me lembro da paciência que desde sempre tiveste para comigo, da capacidade ilimitada que sempre possuíste em me aturar.
Desejo poder controlar o tempo até quando era pequenina e te pedi para casares comigo, na minha mais pura inocência de criança ingénua, e tu brincaste ao faz de conta e fingiste um casamento com um padre inventado fazendo-me chorar porque eu estava, realmente, a falar a sério.
Sorrio por dentro de quando me recordo de que foste tu quem me ensinou, há alguns anos, a enviar cartões de visita.
Desejo poder controlar o tempo sempre que relembro o dia em que fomos ao rock in rio, a tamanha felicidade que nos encheu o peito e transbordou cá para fora, como um balão que rebenta, sempre de mãos dadas.
Sorrio por dentro quando te observo a descobrires que sem antena a televisão da cozinha funciona melhor.
Desejo poder controlar o tempo quando te vejo com os boxers com cheirinho a chocolate, ou a pipocas, a passar por trás da webcam ou até de toalha enrolada na cintura depois de saíres do banho sempre demorado.
Sorrio por dentro quando te chamo de sol e tu dizes que eu sou a tua lua e que, quando não estou bem, estou enublada.
Desejo poder controlar o tempo até que te reencontre sentado na esquina do café do costume, rodeado dos da tua idade, e te cumprimento com um abraço, como sempre faço quando se trata de ti.
Sorrio por dentro e desejo poder controlar o tempo até há altura em que confias em mim e decides abrir-me o teu coração e desabafar comigo ou até simplesmente quando me perguntas como é que me vai vida.
Se fosse hoje, dir-te-ia que não vai, que a minha vida estagnou no dia em que te esqueceste de me levares contigo; no primeiro e único dia em que não te preocupaste com mais ninguém a não ser contigo, em que não te importaste com o muito que ainda tinhas para viver, com a viagem surpresa que te iam oferecer a Londres, com o jantar de família ao qual não chegaste a ir, com a anedota que eu deixei por te contar mais tarde, com os sobrinhos que nunca verás nascer, com o sofrimento que nos estás a causar e o luto em que nos deixaste eternamente mergulhados, com os meus primeiros passos na idade adulta que nunca poderás acompanhar, com o lugar na mesa que deixaste vago, com todos os Natais tristes e incompletos e com todas aquelas sobremesas da avó por acabar.
Nunca ninguém disse que a vida era justa, e tu, se calhar mais do que ninguém e à custa da força das circunstâncias, aprendeste isso. A vida não é nem nunca foi, efectivamente, feita de justiça. Nada que valha a pena é fácil, há que lutar para atingir os nossos objectivos, para cortar as nossas metas e (pelo menos tentar) alcançar a nossa noção da suposta felicidade que idealizámos e, se mesmo assim isso não resultar, só significa que teremos de tentar outra vez, contornando as dificuldades que, depois, tornar-se-ão familiares e fazer-nos-ão tentar seguir por outro rumo. A vida é feita de muitos caminhos, João e nós só temos de adquirir a capacidade de conseguir escolher um deles.
Não existe um mundo perfeito, só aquele que inevitavelmente criamos na nossa própria ilusão a par de pessoas de imperfeições irreconhecíveis perante os nossos olhos cegos de quem vê a realidade distorcida e a interpreta da maneira que quer ou de quem simplesmente se recusa a ver a mais pura de todas as verdades.
Agora, a mim, restam-me as vestes negras que a cada dia se vão tornando mais leves de suportar com o apoio de todos aqueles que me querem bem, com a solidariedade da Joana (sim, também ela carrega o luto da tua ausência) e com aquela esperança que só morrerá daqui por muitos anos, quem sabe depois de me vires buscar, porque quem regressa não partiu para sempre e, apesar de te teres ido embora, eu sei que continuas aqui, ao pé de mim.

[08.10pm]

18 comentários:

Anónimo disse...

Só hoje, finalmente, percebi o que se estava a passar. Guardas um segredo? Aconteceu-me algo assim, também, ao mesmo tempo que tu.

disse...

Fogo. Eu estou para aqui a chorar. Que memórias doces, que triste fim. Fim abrupto para uma história que julgavas tu estar envolta em fitas de seda...
Simplesmente nenhumas palavras tocarão nessa ferida ainda aberta e que por mais tanto tempo vai continuar exposta. Simplesmente gostas demasiado da marca que ele deixou em ti para que algo se intrometa nela. A ferida a teu ver não é feia. É só mais um pedaço vosso. E eu acho bonito (que não há-de ser bonito a palavra) que a vejas assim.
Qel, neste momento apaixonei-me por ti. és uma menina, mas uma menina daquelas com três metros: enorme!
abracinho (imagina lá um apertadinho*) em ti.

Margarida C' disse...

Este texto fez-me chorar. Não vou dizer que sei pelo que estás a passar porque a verdade é que não sei. Nunca perdi ninguém próximo, mas acho que a tua dor é bem visivel neste texto. Adorava não recorrer à palavra que mais deves ter ouvido nestes últimos tempos mas não sei o que mais dizer: Força.
Beijinhos

Mara disse...

«Se fosse hoje, dir-te-ia que não vai, que a minha vida estagnou no dia em que te esqueceste de me levares contigo;»

estou a chorar e só me apetece abraçar-te e ficar assim muito tempo com a estupida certeza de que isso ia mudar alguma coisa.

Diogo Silva disse...

Lindo fantastico e sempre de coração, diz-me muito sobre ti muito mesmo =D a vida é assim nem todos os finais são totalmente felizes mas sejamos sinceros a tristeza faz-nos bem de vez em quando e sentiamos falta dela verdade? senao a vida era muito monotona e nao aprendiamos tanto como nos tempos hodiernos =0) parabens e beijinho

Rita Moura disse...

Quel, caramba.
Desatei a chorar assim que acabei de ler este texto. É injusta a vida, realmente.
Mas isto tornarte-á numa mulher mais forte, que nunca desistirá da vida nem das metas a alcançar.
Vai soltando essa dor, devagarinho.
Sem pressas. A vida espera por ti, e sabes que Ele estará lá sempre a tomar conta da pequena grande Raquel, como sempre fizera.
Beijinho.

Ana Moreira disse...

ana.moreira@msn.com

dá-me também o teu, Qel. vou fazer o mesmo que tu...

Muita força, beijinho enorme

Inês (?) disse...

Tanta dor , tanto sofrimento . Não consigo sequer imaginar o que sentes neste momento mas não acredito que ninguém mereça passar por aquilo que estás a passar . Já é muito difícil , e aqui sei do que falo , perder pessoas que ainda vemos todos os dias mas perder alguém como tu perdeste , nem sou capaz de pensar nisso . Lamento , mesmo , de coração . Quem me dera que houvessem palavras de reconforto suficientes , ou um qualquer pó mágico que conseguisse mudar a situação : x

Catas disse...

que possas continuar a sorrir e a desejar controlar o tempo, e que te enchas de boas recordações e felicidade.
adorei o texto qel, e tambem fiquei emocionada com as tuas palavras. Parabens!

um beijinho e força *

Margarida C' disse...

Sim claro :) O meu mail é: margarida_santos_949@hotmail.com.
Beijinhos*

Inês (?) disse...

Não tem qualquer mal , eu entendo . E agradeço imenso que queiras que continue a ler-te . Aliás , sinto-me lisongeada . O meu e-mail é simpli.me@hotmail.com .

Um beijo e força Quel .

Mara disse...

Quero ler-te sempre!
mara_justagirl@hotmail.com (depois apaga este coment para não ficar o mail há vista) como disse á Ana, não tem nada haver com as just girls XD, era o meu antigo mail do msn.
bejinho

disse...

Claro querida, é pjotinha_@hotmail.com.

Quanto à força um dia vais perceber que sempre esteve a teu lado mas só não depreendias a sua presença. :$

beijinho*

Marianinha disse...

(poetictragedies@msn.com :D)

joão paulo disse...

escreves mesmo muito bem :')
continua assim, parabéns.

cris, disse...

eu adorei , eu chorei . força muita força :)*

Ana Paixão disse...

Palavras cheias de dor e sinceridade. Há um brilho fascinante neste texto, está simplesmente lindo. Triste, é certo, mas lindo :')

Muitos parabéns, adorei o teu blog, mesmo! Um beijinho e força aí :)

Alma de pássaro disse...

Oh querida... Estou de lágrimas nos olhos e pele arrepiada. Ai, queria aqui o meu melhor amigo. Lembrei-me muitas vezes dele enquanto li o teu texto e dei por mim a pensar "E se fosse com ele..." Vou ligar só para dizer que o amo!

Eu sinto que quando alguém de quem gostamos muito desaparece, fica um espaço vazio no nosso coração que incomoda e magoa. Nem imaginas como eu gostava de ter palavras que enchessem esse vazio e atenuassem a tua dor.Depois de tudo o que li, nasceu em mim um carinho muito especial por ti. Encontrei-me em algumas passagens dos teus textos, em alguns momentos as nossas histórias de vida foram identicas. Sem as "tais" palavras me despeço, também talvez não sejam as palavras a solução, mas o tempo...

Um abraço muito apertado querida *