26/01/2009

~ croquete sabe a sal

"Dunas, são como divãs, biombos indiscretos (...)
deitados nas dunas, alheios a tudo, olhos penetrantes, pensamentos lavados. Bebemos dos lábios, (...)
selamos segredos. Quem nos visse deitados de cabelos molhados bastante enrolados (...)"


Hoje a minha escrita diferencia-se. Talvez pelo pensamento se ter dedicado às nossas boas recordações que guardo comigo. Memórias como os nossos primeiros diálogos, por entre olhares tímidos, porém curiosos. Diálogos que terminavam sempre num ponto em comum constituídos por conversas com conclusões mais do que banais para serem consideradas meras coincidências (como o facto de termos estado no mesmo festival de Verão precisamente no mesmo dia a assistir aos mesmos concertos ou até o inevitável timing que sempre tivemos que se destacou com o facto de também termos estado em Barcelona exactamente nos mesmos dias. Ou até a maneira idêntica que adoptamos para ver a vida, a nossa perspectiva – muito mais do que semelhante – sobre o mundo, ou ainda o nosso orgulho e teimosia igualmente gigantes, características reflectidas em longos braços-de-ferro, em desafios que aliciavam os limites traduzidos por palavras perigosas e em minutos – por vezes horas – de espera que dispensávamos na ansiedade de que o outro cedesse primeiro). Coincidências tão assustadoras quanto impossíveis de enumerar.

O meu consciente resgatou-me para esse tempo de calor infernal no qual tu tinhas cor de chocolate e figura de índio (duvidosa quando contrastada pelo rasgar dos teus olhos com traços asiáticos). Fui remetida para essa época, que se esticou até à estação dos ouriços, das cores quentes e das castanhas, em que os teus lábios me sabiam a sal e praia. Usufruíamos da praia com futeboladas de dez minutos divididas por idas de vinte (ou até meia hora) “ao banho”. Soubemos dar uso às dunas como mais ninguém e aproveitar tudo o que de bom o Verão tem para dar, trocando olhares cúmplices de cada vez que nos misturávamos no meio da multidão sem que (quase) ninguém desse por isso. Partilhávamos um segredo que só nós guardávamos. Algo de que alguns desconfiavam mas todos desconheciam. Um segredo que nem por eu aqui o escrever deixa de o ser. Um segredo chamado “nós” que vinha connosco ao de cima quando me agarravas para saltarmos a próxima onda; que nos acompanhava quando mudavas de lugar e arrastavas a toalha para o lado da minha e ouvíamos a mesma música juntos; que surgia quando interrompias as minhas leituras de cinco minutos com a desculpa de que «ler Sparks é para lamechas» e requerias atenção ou até quando me fazias comichão quando os teus dedos passeavam, em jeito de cócegas – ou, quiçá, carícias – na planta dos meus pés enquanto eu adormecia. Um segredo que quase se revelava se não fosse o cuidado com que disfarçadamente me colocaste um búzio na mão e me brindaste com um sorriso. Tenho a agradecer-te esses longos dias banhados não só pelo sol mas por gargalhadas também, repletos de descobertas e boas vibrações, passados sempre ‘na descontra’ a par de pequeninas revelações (que se multiplicaram Outono fora).
É sem ressentimentos ou sequer rancor, com as ironias de lado e clichés fora da porta que digo que, em parte, foi graças a ti que melhorei. Ensinaste-me muito (e não é só a jogar à sueca que me refiro). Contigo aprendi que não é preciso um jejum de mais de três dias ou uma qualquer grande espera para se ter uma espécie de amizade de sete cores. Aprendi que consigo estar sem amar e ficar sem imaginar a longo prazo; que gostar nem sempre implica grandes feitos ou esforços mas que é, no entanto, o suficiente para se poder exigir um pouco de dedicação por ambas as partes e o valor mínimo para se conseguir equilibrar os dois pratos da balança. Aprendi a apreciar coldplay sem sequer fazer por isso, a não desconfiar de quem me quer bem quando estou menos bem e que não é possível oficializar algo – que por vezes é quase (como) um nada – que ainda não se tem; que não é necessário assumir um embrião de algo que só nós sabemos (já) ter nascido. Contigo, aprendi a deixar-me levar separando a ligação cabeça-coração(-cabeça) bem como a anestesiar os sentidos.
Enfim, fizeste-me bem. Obrigada também por isso. Fizeste-me bem uma, duas, três, quatro – e até cinco! – vezes e hoje sei que se não tivéssemos ligado a máquina do nosso coma profundo com tanta pressa, os sintomas da nossa doença seriam menores e provavelmente, quem sabe, tê-la-íamos curado a tempo.
No fundo, foi preciso todo este tempo (e uma história paralela) para que eu conseguisse sorrir ao olhar para trás e aperceber-me que, afinal, este mar no qual às vezes me vou encontrar mergulhada, é de uma água pura como aquela que sem querer engolia quando te beijava na crista da sétima onda. Foste a minha coisa positiva e eu sei que, graças a ti, nunca mais confundirei um rissol com um croquete, nos dois sentidos das diferenças até porque agora a segunda palavra, para mim, terá sempre dois significados. Se antes torcia o nariz e deitava a língua de fora quando me ofereciam um croquete, agora silencio o nosso segredo e limito-me a sorrir.
Meu amor (de Verão tardio), quer seja na ponta dum palito de um qualquer cocktail, quer seja na bandeja de um empregado de mesa ou noutro lugar qualquer, “croquete” serás sempre tu num misto de ternura, coberto de areia, a olhar para mim.

[02.35am]

17 comentários:

Inês (?) disse...

Não tenho palavras x)

Mafalda disse...

Posso começar por dizer quais foram as partes do texto que mais gostei fazendo um breve comentário a cada uma .
"Usufruíamos da praia com futeboladas de dez minutos divididas por idas de vinte (ou até meia hora) “ao banho”" (espero que tenhas aproveitado bem cada onda)
"Soubemos dar uso às dunas como mais ninguém" (acredito que não te vais arrepender e que vais guardar esse momento sempre)
"Um segredo que quase se revelava se não fosse o cuidado com que disfarçadamente me colocaste um búzio na mão e me brindaste com um sorriso." (foi o momento mais 'riquinho' do texto e de toda a 'historia real')
"Foste a minha coisa positiva" (foi a coisa mais certa que disseste, digo eu)

Estou orgulhosa de ti . Falta-te coragem para muita coisa, mas o facto de teres publicado toda esta historia de uma forma tão sentimental deixa-me contente. É um (re)começo. Sabes a minha opinião acerca do assunto e o que mais desejo neste momento para ti minha Qel.

Pssst disse...

Claro que quero continuar a seguir. Mail:
pssst.whoareyou@gmail.com

Anónimo disse...

'Contigo aprendi que não é preciso um jejum de mais de três dias ou uma qualquer grande espera para se ter uma espécie de amizade de sete cores. Aprendi que consigo estar sem amar e ficar sem imaginar a longo prazo; que gostar nem sempre implica grandes feitos ou esforços mas que é, no entanto, o suficiente para se poder exigir um pouco de dedicação por ambas as partes e o valor mínimo para se conseguir equilibrar os dois pratos da balança.'
há coisas que não precisam de definições complicadas; estas, explicaste-as muito bem.

Catas disse...

"que gostar nem sempre implica grandes feitos ou esforços mas que é, no entanto, o suficiente para se poder exigir um pouco de dedicação por ambas as partes"

gosto particularmente desta tua afirmação (e com toda a razão). quanto ao texto, parabéns qel. adorei todos os mais pequeninos detalhes, como consegues utilizar as melhores metáforas para exprimir o que sentes e fazer sentir quem lê. eu, senti cada palavra tua escrita.
um grande beijo *

C disse...

gostei. não consegui eleger um pedacinho do que escreveste. gostei mesmo! Exprimes tão bem os sentimentos e de uma maneira tão bonita.
um grande beijinho.

Wilson disse...

Lindo ;D

Wilson disse...

O mail é wilsonbarbosaduarte@hotmail.com

Beijo ;)

Ana Moreira disse...

Fiquei deliciada com o carinho demonstrado neste texto.

"desafios que aliciavam os limites traduzidos por palavras perigosas e em minutos – por vezes horas – de espera que dispensávamos na ansiedade de que o outro cedesse primeiro"

"Aprendi que consigo estar sem amar e ficar sem imaginar a longo prazo; que gostar nem sempre implica grandes feitos ou esforços mas que é, no entanto, o suficiente para se poder exigir um pouco de dedicação por ambas as partes e o valor mínimo para se conseguir equilibrar os dois pratos da balança. Aprendi a apreciar coldplay sem sequer fazer por isso, a não desconfiar de quem me quer bem quando estou menos bem e que não é possível oficializar algo – que por vezes é quase (como) um nada – que ainda não se tem; que não é necessário assumir um embrião de algo que só nós sabemos (já) ter nascido. Contigo, aprendi a deixar-me levar separando a ligação cabeça-coração(-cabeça) bem como a anestesiar os sentidos." - Era simplesmente impossível não destacar esta parte do texto. Acho que nunca compreendi tão bem alguém...

Um óptimo texto, como sempre :)
Já agora... Sempre disseram que amores de verão ficam enterrados na areia mas eu nunca me acreditei nisso ;)

teresinha ferraz. disse...

já te disse tudo deste texto em pleno bar de colegio e não só! portanto pressuponho que saibas que certas coisas nao sao para ser ditas em pleno blog ahah
sempre gostei muito desse miudo! desculpa, mas sabes que nao resisto a dizer isso ahah
o texto está muy preciosoooo

(AI DE TI QUE NÃO ACEITES ESTE COMENTARIO, SE NÃO ACEITARES JURO QUE NÃO FALO CONTIGO DURANTE 1 SEMANA!)
love yoooooooooou

Nuno Florenço disse...

Grande texto :)
E, sem dúvida alguma, grande blogue e enorme alma poética e veia lírica da tua parte :)
Beijinho. *

MafaldaMacedo disse...

Bastante sentido, :)
Beijinha *

David Pimenta disse...

este texto está óptimo, mesmo! :)
beijinho*

Vera disse...

sinceramente, ainda não o li. mas prometo voltar passar por cá para ler. ando muito longe disto, e sem tempo algum para pensar a não ser em escola -.-

deixo aqui o mail e vê se me adicionas que eu não quero perder nada deste blog fantástico! :)
um beijinho!

* umdolita1@gmail.com

Filipa Teles disse...

não acabes a história se ainda vais na introdução!

Vera disse...

só não chorei porque acho que já esgotei todas as lágrimas que tinha para dar hoje.
mas sem dúvida, tanto carinho, tanta paixão espalhada por cada palavra desse texto. desse amor de verão que muitas vezes marca quase de maneira que se fosse outra época, se me percebes :)
adorei, mesmo! e cada vez mais admiro estes teus textos!
um beijinho muito grande qel :D

Anónimo disse...

So para dizer qe concordo plenamente com o comentario da teresinha x)
Realmente o tal "croquete" e um gajo inacreditavel x)