02/12/2008

~ 7 min.

Esperou que a casa mergulhasse no silêncio. Esperou que a agitada inquietude do ‘entra e sai’ atenuasse para ter os seus sete minutos de paz. Embalada pelas melodias calmas do seu velho e gasto mp3, dirigiu-se à caixa de sapatos esquecida na penumbra, mesmo por debaixo da cama, e arrastou o seu secreto e proibido tesouro. Dele retirou outra pequenina caixa de cartão com palavras impressas e foi sentar-se na soleira de pedra fria da sua varanda. Tirou um cigarro do maço e acendeu-o protegendo, com as mãos, a pequenina chama que ameaçava teimar em não ficar por muito tempo. Seria assim, a sua felicidade? Inconstante como uma chama que, ao mínimo sopro, se deixa extinguir?
Nunca conseguia deixar de pensar nos baixos da sua vida naqueles sete minutos. Serviam para afastar o que de mais deprimente houvesse mas traziam sempre consigo uns instantes nostálgicos (e dos bons!).
Encostou a cabeça ao vidro, observando o fumo que se lhe escapava da boca e, de repente, reparou no céu que estava triste, com um ar pesado e carregado, de quem precisava de desabafar (ainda estamos a falar do céu?). Perdida num misto de pensamentos e suposições, esqueceu-se de sentir por um momento. Esqueceu-se da razão pela qual a sua mente procurava por respostas que pareciam inventadas somente para perguntas retóricas. Esqueceu-se do seu ponto fraco; da pessoa que lhe virava o raciocínio ao contrário e trocava as voltas do seu relógio invisível. Esqueceu-se de se lembrar de fazer a habitual retrospectiva da sua “cena não vivida”.
Era por isto que o sabor do seu pequeno segredo tinha um gosto tão bom. Enquanto os phones sussurravam ao seu ouvido “I think the finish line’s a good place we could start” e o vento apressado, como sempre nesta época do ano, brincava com o seu cabelo quase preso num quase cuidado rabo-de-cavalo, o trago – não muito – amargo e suave do sabor que lhe preenchia o espírito e limpava a alma, vinha juntar-se ao ambiente na mais perfeita harmonia. “Tell me that you’ll open your eyes”.
Criavam-se, assim, os seus raros segundos de abstracção dos seus breves sete minutos de fama consigo mesma.


[09.27pm]

5 comentários:

David Pimenta disse...

É sempre fantástico ler-te Qel. Sempre, sempre. Adoro a tua forma de escrever enfim tudo.
beijinho :p

Anónimo disse...

Adorei este, mesmo.

O Profeta disse...

Este Mar que beija a Ilha
Traz de longe sonhos perdidos
Adormece na areia e deixa
Na espuma mil e um segredos

Meus sonhos são estrelas que semeio no espaço
São corpo nu que vagueia pela saudade
Brotam e correm para o Mar
Enfrentam a dor a tempestade


Boa semana


Mágico beijo

Filipa Teles disse...

Qel, descreveste o meu coração!
estou K.O.

C disse...

adorei ! está fantástico ! obrigada pelos elogios ; )

grande beijinho *