Com o velho anorak verde-alface até aos joelhos quase a tocar nas suas gastas galochas vermelhas, parecia tentar a todo o custo apanhar o vento que se escapava por entre os majestosos e deambulantes cedros. No ar pairava um cheiro a perfume de flores que ameaçavam murchar, de plantas que esperaram demasiado tempo em cima das escorregadias campas de granito por alguém que se lembrasse que, pelo menos elas, não tinham adormecido para sempre. Fazia-se sentir também um cheiro a terra molhada – talvez por ter chovido um pouco antes, o que causou poças de água que desafiavam um perfeito chapinhar para as solas de borracha das velhas galochas – que lembrava África. Enquanto saltitava, divertida na sua inquietude de criança, o céu voltou a vestir-se de um tom cinzento metálico e cansado e recomeçou a lacrimejar. Tão pouca água não justificava o uso do minúsculo guarda-chuva amarelo que a mãe a obrigara a levar, pelo que a "pequena-alegre" deixou-o impávido e alheio no fundo da sua sacola. Os seus "quase caracóis" pareciam dançar, a par da chuva, com o vento. De repente as nuvens densas dão as mãos e os seus choros intensificam-se. A menina de cabelo escuro e rebelde corre e abriga-se na casinha do portão enferrujado e de tinta lascada com a placa pendente "José & família". Lá dentro inspirava-se uma atmosfera com uma suave e agradável essência a cera que escorria de pequenos pavios meios queimados, meios por queimar. Na parede de pedra era possível distinguir o seu vulto maior que ela mas demasiado pequeno para ser confundido com o delinear de uma sombra e os pingos da chuva miudinha lá fora num fundo vermelho, reflectido pelas típicas velas de cemitério. A fotografia do "senhor José" tinha manchas de velhice e estava amarelada pelo tempo, já para não falar dos pequenos cantos dobrados e do pó que se tinha vindo a amontoar com o acumular dos anos no vidro que a protege (ou que, pelo menos, tenta). Lua interrogou-se se "José & família" – provavelmente um pai e dois filhos, um casal, – não teriam "ido para o céu" num final de tarde assim, chuvoso e pardacento, onde o piso é escorregadio o suficiente para um carro poder guinar e libertar-se facilmente do controle. Quando a visita da casinha de pedra centra a sua atenção novamente na sua quase-sombra, esta parece agitar-se, mesmo antes dela própria se dar conta de que tinha saltado. O cemitério, no qual já tinha há muito deixado de ser uma intrusa, por vezes, ainda lhe parecia um lugar sinistro. Tinha-se assustado com o barulho do pesado sino lá ao fundo, pendurado na capela caiada de branco-cal com uma pequena cruz no cimo a condizer, em sintonia com o bater de mil e uma asas de pássaros pretos – provavelmente corvos – abrigados debaixo do grande pêndulo. Um miado súbito e uma imagem de um gato preto vadio surgindo no passadiço da entrada também contribuíram. Pobre Romrrom, deve ter-se assustado com o bater do sino, pensou. Tinha aparecido na campa da "Inês Santos" – que não tinha muito mais que a sua idade – numa dessas tardes de cemitério. Desde então, justificava ao coveiro (que era também o senhor que limpava as folhas de Outono de cima dos jazigos e que fechava os grande portões às chaves todos os finais de tarde) o seu monólogo com a "amiga Inês" e a "dona Armanda" como se estivesse a falar com o gato por si baptizado.
O sino pára. A chuva perde a sua força e imponência. Os cedros acalmam. São horas de regressar a casa… mas não sem antes fotografar mentalmente o arco-íris que se deixa desenhar no, agora alaranjado, céu.
[12.07am]
1 comentário:
já tinha lido este teu texto mas nunca é demais rele-lo :)
FABULOSO, minha Qel!!
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